Críticas por Pablo Villaça

Poster: Vidro
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
17/01/2019 18/01/2019
Distribuidora
Disney

 

 


Vidro
Glass

Vidro

Dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan. Com: James McAvoy, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Sarah Paulson, Anya Taylor-Joy, Spencer Treat Clark, Charlayne Woodard, Luke Kirby, Adam David Thompson, M. Night Shyamalan.

É difícil conciliar, em retrospecto, as expectativas que nutri em relação à carreira de M. Night Shyamalan e a realidade representada pelo que esta se tornou. Depois de assistir a O Sexto Sentido e a Corpo Fechado, havia a certeza de estar diante de um daqueles realizadores que chegam para deixar sua marca na Sétima Arte – e a empolgação da descoberta era, por si só, motivo para agradecer ao diretor, já que, como cinéfilos, estamos sempre à procura de algum criador que nos surpreenda e encante. Infelizmente, esta empolgação foi destruída com a mesma rapidez de seu surgimento, transformando Shyamalan em uma quase piada graças aos seus tiques estéticos, seu óbvio sentimento de autoimportância e sua obsessão com reviravoltas tardias que mais frustram do que instigam. Há, claro, muitos que se mantêm convencidos de seu talento – e, honestamente, fico feliz por estes -, mas não consigo enxergar muitas evidências que amparem esta fé.

O que não quer dizer que perdi completamente as esperanças – e a revelação aos 45 minutos do segundo tempo de que Fragmentado era uma espécie de continuação de Corpo Fechado me fez sentir, pela primeira vez em anos, uma curiosidade considerável pelo que Shyamalan faria a seguir.

Ah, Shyamalan.

Passando-se 19 anos depois dos acontecimentos vistos na última grande obra do realizador, Vidro reencontra o relutante herói David Dunn (Willis) agora atuando de forma confortável como o misterioso Vigilante e trabalhando em parceria harmoniosa com o filho Joseph (Clark) na manutenção da segurança de Filadélfia ao perseguir e punir (geralmente com surras) aqueles que pensam ter escapado impunes depois de cometerem grandes e pequenos crimes. Decidido a capturar o responsável pelo sequestro de quatro estudantes, Dunn acaba descobrindo um novo nêmesis no vilão de Fragmentado, o perturbado Kevin Crumb (McAvoy), cujo corpo hospeda nada menos do que 24 personalidades (a Horda) – incluindo o perigoso Fera, cuja manifestação é sempre acompanhada de transformações físicas notáveis que tornam o sujeito capaz de escalar paredes, virar furgões e correr com a velocidade (e os modos) de um animal selvagem. Depois de um breve confronto, contudo, herói e vilão são capturados pela polícia e enviados a um hospital psiquiátrico a fim de que possam ser avaliados e tratados pela doutora Ellie Staple (Paulson), especialista em casos envolvendo indivíduos que acreditam ter superpoderes. E que também tem, como paciente, o brilhante Sr. Vidro (Jackson).

A partir daí, Vidro essencialmente faz jus às sessões de terapia coordenadas por Ellie e se apresenta como um falatório interminável recitado com o habitual tom monocórdico (com exceção de McAvoy) das narrativas de Shyamalan, que, também como de costume, concebe diálogos artificiais e recheados de um tom grandioso que busca disfarçar a tolice das ideias que expressam – e aqui ele retoma a ladainha dos quadrinhos como transmissores de grandes verdades ocultas da humanidade e que revelam arquétipos que vão além da ficção e representam indivíduos reais. Não que o conceito dos quadrinhos como equivalentes modernos da mitologia clássica seja absurdo, pois não é; a maneira como o roteirista/diretor tenta articular seus argumentos, porém, soa adolescente e superficial, como se fosse uma repetição confusa de teorias ouvidas de passagem em uma mesa de bar.

Falhando até em justificar seu título (além do fato de Unbreakable e Split se referirem a David e a Kevin nos capítulos anteriores), o roteiro mal parece se interessar pelo personagem de Samuel L. Jackson, que, de vilão intrigante e inteligente em Corpo Fechado, torna-se um homem cujo suposto brilhantismo, embora mencionado diversas vezes, não encontra muito reflexo em suas ações (mais sobre isso daqui a pouco) – e não ajuda muito Samuel L. Jackson aparentemente ter tomado os mesmos sedativos usados para manter seu personagem letárgico. Ainda assim, Jackson parece um esquilo sob o efeito de cafeína se comparado a Bruce Willis, que deveria ser honesto consigo mesmo e admitir que já perdeu há muito qualquer interesse em atuar – e “piloto automático” só serviria para descrever sua performance em Vidro caso o piloto em questão estivesse morto há cem anos. Enquanto isso, a normalmente brilhante Sarah Paulson se vê amarrada a uma figura desinteressante, sem personalidade, mas que ao menos desempenha alguma função na narrativa, já que nem isso pode ser dito com relação aos personagens interpretados por Spencer Treat Clark, Anya Taylor-Joy e Charlayne Woodard.

Por sorte, há James McAvoy, que aproveita a oportunidade de criar quase duas dúzias de personalidades com uma dedicação notável, comprovando não apenas seu talento, mas sua disciplina, ao saltar com fluidez de uma a outra – o que Shyamalan acertadamente apresenta ao espectador em longas tomadas (geralmente em panorâmicas circulares) que permitem que comprovemos o virtuosismo do ator ao percebermos, apenas pela mudança em seu olhar, qual dos vários alter egos de Kevin está controlando seu corpo (ainda assim, não deixa de se tornar uma piada involuntária que o sujeito acabe tirando a camisa com uma frequência maior do que a do Jacob de Crepúsculo).

Eficiente também no uso das cores pelo design de produção, que estabelece identidades visuais distintas e marcantes para cada um dos integrantes do núcleo principal (roxo para o Sr. Vidro, amarelo para Kevin, verde para David e tons pastéis para a doutora Staple), Shyamalan é hábil ao enfraquecer as matizes durante boa parte da projeção (reparem, por exemplo, o roxo pálido da roupa hospitalar vestida pelo personagem-título), refletindo a insegurança do trio masculino com relação às próprias identidades, apenas para retomá-las com força no terceiro ato – algo que, mesmo óbvio, cumpre bem seu papel. Em contrapartida, o excesso de câmeras subjetivas, que assumem os pontos de vista de praticamente todos os personagens, sugere certa preguiça na concepção narrativa, diluindo a força do recurso ao empregá-lo de forma indiscriminada.

No entanto, o aspecto mais frustrante de Vidro reside em sua falta de energia, já que o filme parece sufocar sob o peso da própria pretensão (todo o ridículo discurso sobre os quadrinhos como registro histórico) e do erro de repetir o caminho traçado pelos capítulos anteriores, já que, mesmo diante de evidências irrefutáveis, os personagens quase se deixam convencer de que talvez seus poderes não passem realmente de delírio depois de percorrermos dois filmes testemunhando sua aceitação acerca da própria realidade. E se é possível admirarmos a resistência de Shyamalan a criar confrontos de escala épica entre heróis e vilões, rendendo-se às convenções do gênero, tampouco era necessário fugir tanto disso a ponto de drenar qualquer tensão da obra.

Traindo uma visão curiosamente caricata acerca da cultura nerd que pretende homenagear ao retratar tanto o dono da loja de quadrinhos quanto seus clientes (como os dois adolescentes em uma cena quase no fim do filme) como indivíduos obesos ao mesmo tempo em que apresenta as mulheres como ignorantes acerca da mídia (além do desconhecimento claro de Casey, a doutora Staple precisa entreouvir uma conversa entre dois rapazes para perceber algo sobre a estrutura das histórias), o cineasta mais uma vez afunda em sua determinação de incluir reviravoltas – sim, no plural – nos minutos derradeiros da trama, alcançando resultados no mínimo irregulares. (E aqui devo sugerir que você leia o parágrafo seguinte apenas depois de assistir a Vidro, já que serei obrigado a discutir alguns detalhes importantes.)

Ora, se o conceito da tal organização secreta como um grupo determinado a manter o status quo poderia funcionar (aliás, pode) como um comentário interessante sobre a estrutura social e econômica que domina o mundo, a força desta revelação é diluída pela execução trôpega de Shyamalan, que não percebe o ridículo de levar aquelas pessoas a se encontrarem em lugares públicos e esperarem até que os “civis” presentes deixem o local para que então possam discutir suas pautas conspiratórias. (Não seria mais simples – e lógico – que uma associação tão poderosa encontrasse locais mais discretos, privados, para seus encontros?) E já que estamos falando deste grupo, por que explicam que haviam deixado David agir por quase duas décadas, interferindo apenas depois do surgimento da Horda, se a função principal da organização era justamente neutralizar seres superpoderosos antes que sua mera existência gerasse outros similares? Para finalizar, por que a missão do Sr. Vidro deveria ser suicida – algo que desperta tanta admiração em Staple? Qual benefício sua morte geraria, afinal? E, por fim, será que Shyamalan não percebe a falha óbvia da ideia de que a viralização daqueles vídeos poderia alertar o mundo para a existência de super-heróis – ou seja: a própria natureza da Internet? Ou o realizador realmente acredita que as pessoas assistiriam estupefatas a incidentes sobrenaturais no YouTube sem digitarem “FAKE!!1” automaticamente nos comentários?

E por que tenho a impressão de que, ao insinuar como o mundo está sempre disposto a negar a natureza especial de indivíduos específicos, Shyamalan está pensando em si mesmo? (Afinal, lembrem-se de que ele não hesitou em se escalar no papel de um artista cuja obra mudaria a história da civilização.)

Enfraquecendo até Corpo Fechado em retrospecto ao revelar como, depois dos incidentes vistos naquele filme, o herói David Dunn pouco fez com seus poderes, mantendo-se como um justiceiro medíocre pelos 19 anos seguintes, Vidro é a constatação da velha máxima de que devemos ter cuidado com o que desejamos – algo que ignorei quando, ao escrever sobre aquela obra, desejei que seu criador retomasse a história e seus personagens.

Ah, Shyamalan.

23 de Janeiro de 2019

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Assista também ao videocast sem spoilers sobre o filme:

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.