61)
Aquele
Querido Mês de Agosto (Idem, Portugal,
2008). Dirigido por Miguel Gomes. Com: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Manuel
Soares, Joaquim Carvalho.
Aquele Querido Mês de Agosto,
inteligentíssima produção portuguesa dirigida por Miguel Gomes, conseguiu uma
proeza que eu julgava ser impossível: ultrapassar o belíssimo Tulpan como o melhor filme que vi nesta
32ª. edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Contando com um
roteiro complexo e ambicioso que exibe uma carpintaria simplesmente impecável,
o longa não apenas é divertidíssimo como ainda se revela um exercício narrativo
intrincando que, brincando continuamente com a metalinguagem, funciona como uma
homenagem ao próprio Cinema ao ilustrar o cansativo processo de pesquisa
envolvido na realização de um filme.
Quando a
projeção tem início, Aquele Querido Mês
de Agosto surge como um documentário rodado em uma pequena cidade
portuguesa que parece colher depoimentos aparentemente aleatórios de seus
habitantes: há as histórias envolvendo Paulo “Moleiro”, um maluco local cujo
trabalho consiste em saltar da principal ponte da cidade durante o Carnaval;
explicações sobre a tradicional “Noite dos Colhões”, que envolve uma disputa
improvisada através de canções, num estilo similar aos repentes nordestinos; e,
claro, as apresentações de vários grupos musicais regionais. Da mesma forma, o
diretor Miguel Gomes demonstra grande interesse no comportamento daquelas
pessoas, como, por exemplo, ao focar um sujeito que, ao cantar (muito bem) em
um karaokê, se diverte com os comentários jocosos dos amigos ou ao ouvir
atentamente ao depoimento de um senhor que, ao lado da esposa, basicamente
explica que tem dois filhos – e, neste caso, o importante não é o que ele diz,
mas sim a forma com que esta
informação simples é fornecida, revelando, em poucos minutos, toda a dinâmica
do casal.
No entanto,
por mais divertido e interessante que Aquele
Querido Mês de Agosto seja nesta sua primeira hora de projeção, o roteiro
se torna realmente fascinante quando percebemos que, na realidade, o cineasta –
que surge em cena - está na cidade para rodar uma ficção: a história da
vocalista de uma pequena banda que se apaixona pelo primo músico e cujo amor é
impedido por um segredo de seu passado. O segredo? Sua mãe foi abduzida por
alienígenas (ora, se Indiana Jones pode encontrar extraterrestres, por que a
mãe de uma cantora portuguesa não poderia?). Assim, gradualmente passamos a
assistir ao filme-dentro-do-filme, ou seja: ao projeto que originalmente teria
levado Gomes àquela cidade – e o interessante é que, ao não fazer qualquer
distinção no tratamento visual adotado pelas duas linhas narrativas, o diretor
confia no discernimento do espectador para diferenciar o que é ficção daquilo
que é real (ou eu deveria dizer “real”?).
Há algumas
indicações, claro: para início de conversa, os “atores” (habitantes locais)
contratados por Miguel Gomes para os papéis da cantora, sua melhor amiga e o
primo músico surgem extremamente naturais quando estão conversando sobre suas
vidas nas seqüências documentais, mas duros e artificiais quando encarnam seus
personagens, já que não são profissionais. Curioso, também, é notar o plano em
que a vocalista “Tânia” (Sónia Bandeira), começa a rir envergonhada alguns
segundos depois de soltar lágrimas de sofrimento pela partida de seu amado – e
talvez os espectadores menos atentos (ou que não tenham compreendido
completamente a proposta do filme) não percebam que, a partir do momento em que
a moça ri, já não estamos mais vendo a ficção interna da narrativa, mas sim
voltando ao documentário que abre o longa. E o interessante é que, como não há
cortes neste plano, o salto da ficção para a realidade ocorre de maneira
fluida, invisível.
Mas os jogos
narrativos desenvolvidos pelo roteiro kaufmaneano
(refiro-me a Charlie Kaufman, obviamente) vão além: em certo instante,
durante o primeiro ato documental, o filme discute a existência de um jornal
local que leva as notícias da cidadezinha aos seus ex-habitantes que hoje se
encontram em vários lugares do mundo – e, assim, quando um desdobramento da
ficção interna é publicado naquele mesmo jornal, no terceiro ato, imediatamente
compreendemos a implicação do incidente. Em outras palavras: o velho recurso
narrativo da pista e recompensa é apresentado de maneira
inovadora, trazendo a pista na
seqüência de documentário e a recompensa
no trecho ficcional. Da mesma maneira, os motoqueiros vistos no início da
projeção em um longo plano ressurgem, posteriormente, passando rapidamente pelo
casal “Tânia” e “Hélder” – e percebemos que, naquele primeiro momento, Miguel
Gomes provavelmente estava selecionando a figuração e testando o movimento de
câmera que empregaria durante o passeio dos jovens amantes (e o mesmo se aplica
à fusão da conversa entre os não-atores Sónia Bandeira e Fábio Oliveira com um
plano que traz uma floresta e que mais tarde será usada como o efeito que
buscará retratar “Hélder” salvando o sogro de um incêndio). E não podemos nos
esquecer, claro, à maneira como a “Noite dos Colhões” é empregada na narrativa
ficcional para criar um momento dramático da história.
Escolhido para
representar Portugal na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, Aquele Querido Mês de Agosto mantém-se
surpreendente (e engraçado) até mesmo durante seus divertidos créditos finais –
e confesso que torço, desde já, para que ele consiga ao menos se estabelecer
entre os finalistas da premiação. (5
estrelas em 5)
62)
A Festa da Menina Morta (Idem, Brasil, 2008). Dirigido por Matheus Nachtergaele. Com: Daniel
de Oliveira, Jackson Antunes, Juliano Cazarré, Cássia Kiss, Paulo José, Dira
Paes, Conceição Camarotti, Ednelsa Sahdo, Laureane Gomes, Bitta Catão,
Papaguara.
A Festa da Menina Morta, estréia do
excelente ator Matheus Nachtergaele na direção, é um filme exaustivo –
exatamente como deveria ser. Acompanhando vários personagens miseráveis numa
pequena cidade do Amazonas, o longa gira em torno da celebração/ato religioso
do título, cuja natureza apreendemos gradualmente (mas nunca completamente)
durante a projeção.
Focada na
figura do Santinho (Daniel de Oliveira), a tal Festa envolve oferendas ao
espírito de uma garotinha cuja morte, há 20 anos, de alguma forma estabeleceu o
rapaz como um milagreiro capaz de curar e fazer previsões. Afeminado e
temperamental, Santinho vive com o pai, que explora diligentemente a fama do
filho ao mesmo tempo em que alimenta o misticismo em torno do rapaz através de
histórias sobre seus feitos sobrenaturais – e logo percebemos, também, a
natureza incestuosa da relação que mantêm. Com a aproximação da vigésima edição
da Festa, porém, as coisas se tornam tensas quando o irmão da menina morta
passa a questionar o caráter comercial assumido pelo evento ao mesmo tempo em
que o Santinho exibe uma instabilidade maior do que a habitual em seu
comportamento, o que pode ser atribuído a tensão pré-Festa, à insegurança com
relação às próprias habilidades ou à curiosidade que manifesta sobre a mãe, que
o abandonou há muitos anos.
Claramente
influenciado pelo cinema de Cláudio Assis, com quem trabalhou em Amarelo
Manga e Baixio das Bestas, Nachtergaele cria um
filme que conta com uma narrativa crua e personagens fascinantemente repulsivos
(ou seria “repulsivamente fascinantes”?), investindo também numa decupagem que
praticamente limita cada cena a um plano único e longo. Além disso, assim como em Feliz
Natal, o ator-cineasta emprega sua compreensão sobre o
ofício da interpretação ao arrancar atuações soberbas de seu fabuloso elenco –
e se Daniel de Oliveira cria um Santinho que, instável e incômodo, oscila
belissimamente entre o sagrado e o profano, os desconhecidos Juliano Cazarré
(Tadeu), Conceição Camarotti (Das Graças) e Ednelsa Sahdo (a Tia) se
estabelecem como as revelações incontestáveis do projeto.
Prejudicado
apenas pelo aparente apego do diretor estreante a vários planos que, a rigor,
seriam totalmente dispensáveis e que servem apenas para prejudicar o ritmo do
filme (como o instante em que um rapaz caminha pelo local da festa e começa a
dançar, sendo acompanhado por três outros jovens), A Festa da Menina Morta representa uma estréia promissora e
merecerá uma análise mais aprofundada quando estiver prestes a estrear
comercialmente no Brasil. (4 estrelas em
5)
63)
Um Conto de Natal (Un Conte de Noël, França, 2008). Dirigido por Arnaud
Desplechin. Com: Catherine Deneuve, Mathieu Amalric, Jean-Paul Roussillon, Anne
Consigny, Hippolyte Girardot, Laurent Capelluto, Emmanuelle Devos, Chiara
Mastroianni, Emile Berling, Françoise Bertin, Melvil Poupaud, Clément Obled,
Thomas Obled.
Um Conto de Natal é um filme curioso:
embora gire em torno de uma família que traz o mesmo sobrenome dos personagens
vistos no excelente Reis e Rainha (e,
no caso do tintureiro vivido por Jean-Paul Roussillon, também o mesmo primeiro
nome), que o diretor Arnaud Desplechin comandou em 2004, o longa traz vários
atores daquela produção interpretando figuras diferentes neste projeto, além de
exibir várias experimentações formais em sua linguagem que indicam claramente o
interesse do cineasta em estabelecer o caráter particular de sua obra.
Escrito por
Desplechin e Emmanuel Bourdieu, o roteiro acompanha os conflitos da família
Vuillard, que se intensificam quando todos se reúnem para a festa de Natal:
diagnosticada com uma doença grave, a matriarca vivida por Deneuve precisa de um
transplante de medula para ter alguma chance de sobreviver e, assim, seus
filhos e netos se submetem a testes de compatibilidade que acabam se tornando
catalisadores de mais confrontos – especialmente quando a ovelha negra da
família, Henri (Amalric), retorna ao lar depois de um banimento de cinco anos
exigido por sua bem-sucedida irmã Elizabeth (Consigny).
Empregando
teatro de sombras, rompimentos da quarta parede, narrações em off feitas por vários personagens e até
mesmo íris que se fecham sobre certos objetos e pessoas como comentários da
narrativa, Um Conto de Natal parece
funcionar como uma grande sessão de terapia para a família Vuillard, que
aparentemente se reconhece como parte de um filme, empregando-o para explicitar
seus pontos de vista e discutir seus dilemas. Aliás, a franqueza com que os
membros da família expõem seus sentimentos e pensamentos uns para os outros
beira a fantasia: Deneuve, por exemplo, assume que não ama o filho vivido por
Amalric, que, em contrapartida, não esconde o desprezo que tem pela mãe – e
tudo isto é dito sem grande rancor, mas com uma objetividade que assume a
inutilidade de se brigar em função destes sentimentos, já que é muito mais
prático reconhecê-los, aceitá-los e seguir adiante.
Henri, diga-se
de passagem, é um personagem particularmente rico graças à sina que o acompanha
desde o nascimento: gerado com o propósito de doar a medula para o irmão
doente, ele já se estabeleceu como “inútil” ao se revelar incompatível com o
outro – e o fato de, anos depois, descobrir a compatibilidade com a mãe não é
algo que o redime, já que, desta vez, é o próprio transplante de medula que
pode provocar a morte da personagem de Deneuve (e ela escolhe Henri como seu
doador não por amá-lo, mas sim por saber que o procedimento é arriscado também
o filho).
Numa família
dominada pelas mulheres (não é à toa que, em certo momento, os homens surgem
conversando na cozinha), os constantes confrontos acabam estabelecendo,
paradoxalmente, uma anômala harmonia – o que, neste sentido, diferencia o filme
de Desplechin de outras obras exibidas na Mostra que, coincidência ou não,
também abordam crises familiares: Horas
de Verão, Feliz Natal e Um Natal Bagunçado (e reparem que, assim
como estes dois últimos, Um Conto de
Natal se passa durante as festas de fim de ano, que, não por acaso, parecem
propícias para explosões de parentes que se reencontram depois de muito tempo).
Ainda assim, esta produção acaba se prejudicando em função de sua longa
duração, perdendo o foco em diversos momentos e enfraquecendo, com isto, sua
interessante narrativa.
De todo modo,
é significativo que, em sua introdução, o filme diga que a memória de Joseph (o
irmão morto na infância) se apagou ao longo do tempo, já que os Vuillart
parecem realmente não perceber que, afinal de contas, seus problemas se
originaram do fato de viverem à sombra de uma criança de seis anos que morreu
há quatro décadas. (3 estrelas em 5)
64)
Vicky Cristina Barcelona (Idem, Espanha/EUA, 2008). Dirigido por Woody Allen. Com: Javier
Bardem, Scarlett Johansson, Rebecca Hal, Penélope Cruz, Patricia Clarkson,
Kevin Dunn, Chris Messina e a voz de Christopher Evan Welch.
Não é a toa
que o novo filme de Woody Allen tenha este título: afinal, assim como Vicky
(Hal) e Cristina (Johannson), Barcelona é uma personagem fundamental na
narrativa. Aliás, a cidade também deve ter sido uma ótima inspiração para o
veterano diretor, que, depois do desastroso Scoop
e do fraco O Sonho de Cassandra,
retorna à boa forma com esta produção.
Protagonizado
por um Javier Bardem que aqui encarna um suposto ideal romântico feminino do
artista talentoso e sofrido que tem olhos tristes, a barba por fazer e uma
intensidade constante no que diz respeito aos desejos sexuais, o filme tem,
como tema, a busca por uma definição do que seria o amor “perfeito”: seria
aquele que traz consigo uma calma proporcionada pela razão ou o que provoca
sofrimento, mas também o calor inigualável da paixão bruta?
Cineasta culto
e extremamente inteligente, Allen não se limita a explorar os pontos turísticos
de Barcelona por suas belezas (embora também o faça); mais do que isso, ele
emprega a cidade como símbolo das forças e fraquezas de seus personagens: o
imenso farol localizado próximo ao local em que nasceu o pintor vivido por
Bardem, por exemplo, assume um caráter apropriadamente fálico por estar
associado às origens de um homem que não hesita em se entregar às paixões, ao
passo que a onipresente arquitetura de Gaudí, com suas formas complexas, curvas
surpreendentes e aparência instável refletem as personalidades das três
mulheres que cercam o sujeito.
Oferecendo uma
performance sensual em sua volatilidade, Penélope Cruz mais uma vez comprova
que é infinitamente melhor quando interpreta em sua língua natal, ao passo que
Bardem, sempre competente, cria um homem que mal consegue conter a admiração
pela instável ex-esposa (reparem como ele sorri carinhosamente ao relatar como
esta o esfaqueou). Enquanto isso, Rebecca Hal assume o papel de Woody Allen de
saias, exibindo os maneirismos do diretor, ao passo que Johannson encarna
Cristina como uma mulher que não sabe o que busca no amor, mas que diz
reconhecer o que “não quer” (sem perceber que o que ela não quer é justamente aquilo que tem – independentemente do que seja isto).
Falho apenas
em sua cronologia, que tenta nos convencer de que toda a sua narrativa poderia
ser encaixada em apenas dois ou três meses, Vicky
Cristina Barcelona demonstra, como também fez Match Point, que mudar de ares faz bem para a criatividade de Woody
Allen - desde que, é claro, ele não realize outros dois fracos projetos no
Espanha. Quem sabe não seria a hora de mudar para a França? (4 estrelas em 5)
65)
Max Payne (Idem,
EUA, 2008). Dirigido por John Moore. Com: Mark Wahlberg, Mila Kunis, Beau
Bridges, Donal Logue, Chris “Ludacris” Bridges, Chris O’Donnell, Amaury
Nolasco, Olga Kurylenko, Kate Burton.
Inspirado em
um jogo criado por Sam Lake, Max Payne
tem exatamente uma qualidade irrefutável: sua fotografia, que, adotando uma
paleta quase monocromática e empregando as onipresentes partículas de neve que
flutuam pelo quadro, estabelece uma estética similar às dos quadrinhos
(lembrei-me várias vezes de Sin City)
ao compor planos ambientados em becos estreitos ou nos planos gerais que
descortinam a cidade iluminada na noite sufocante e constante do filme.
O restante do
projeto, porém, é uma bagunça irritante: a história, repleta de buracos,
reviravoltas previsíveis e personagens unidimensionais, se torna aborrecida em função
de sua estupidez depois dos dez minutos iniciais, chegando ao ponto de empregar
o velho clichê do “experimento militar que deu errado” e investindo em vilões
fracos e desinteressantes.
Prejudicado
também pela pasteurização imposta pelo desejo de conseguir uma censura leve (o
que aumentaria seu potencial comercial), Max
Payne ainda peca pelo fraco elenco: Wahlberg, geralmente um ator
interessante, aqui surge no piloto automático, ao passo que os personagens
secundários são vividos por fracos atores saídos da televisão (Nolasco, Kunis)
ou que simplesmente foram relegados ao esquecimento há anos (Bridges, O’Donnell).
Já o competente Donal Logue é limado da trama depois de uma curta aparição, o
que completa o desastre.
Escreverei
mais sobre esta bomba quando ela estiver prestes a ser detonada nos cinemas
brasileiros, mas já adianto que há uma cena (dispensável e ridícula) após os créditos
finais. (1 estrela em 5)
66)
Depois da Escola (Afterschool, EUA, 2008). Dirigido por Antonio Campos. Com: Ezra
Miller, Addison Timlin, Jeremy Allen White, Lee Wilkof, Michael Stuhlbarg.
Depois da Escola é um filme ambicioso:
iniciando com trechos de alguns célebres vídeos retirados do YouTube, ele nos
apresenta ao adolescente Robert (Miller), que, acostumado à posição de voyeur neste curioso mundo novo em que
todos parecem dispostos a abrir as portas e janelas de seus quartos para
estranhos em todo o planeta, eventualmente acaba gravando a morte por overdose das populares gêmeas que dominavam
a vida social da escola.
Infelizmente,
o tema acaba se revelando ambicioso demais
para o cineasta estreante, que, filho de brasileiros (seu pai é o jornalista
Lucas Mendes, apresentador do “Manhattan Connection”), assume uma empreitada excessivamente
complicada para seus 24 anos de idade.
Claramente
influenciado por Michael Haneke (Funny
Games e Caché, em particular),
Campos investe em suportes diferentes para contar sua história, variando entre
o 35mm, o digital e a baixa resolução dos vídeos do YouTube para retratar o
universo de seu protagonista ao mesmo tempo em que faz pequenos experimentos
metalingüísticos (a gravação que é subitamente rebobinada, a câmera subjetiva
representando o olhar de Robert e assim por diante). Ao mesmo tempo, o diretor
também expõe sua admiração por Gus Van Sant em suas composições sem equilíbrio
que freqüentemente cortam pedaços dos corpos e das cabeças dos atores numa
tentativa de capturar a angústia, o sentimento de inadequação, de “não
pertencer” e de incompletude do protagonista.
Contudo, por
mais admiráveis que sejam estes propósitos e a ambição corajosa do diretor, o
fato é que o filme é simplesmente desinteressante, já que não oferece
conflitos, desenvolvimento algum dos personagens, qualquer resquício de trama
ou mesmo a exploração de algum tema social, moral ou psicológico reconhecível.
Há, em Antonio Campos, um
diretor promissor em
formação. Falta, porém, a capacidade de reconhecer um
material digno de seus esforços e óbvia inteligência. (2 estrelas
em 5)