Críticas por Pablo Villaça

Poster: Eu, Daniel Blake
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
05/01/2017 12/05/2016
Distribuidora

 

 

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Eu, Daniel Blake
I, Daniel Blake

Eu, Daniel Blake

Dirigido por Ken Loach. Roteiro de Paul Laverty. Com: Dave Johns, Hayley Squires, Dylan McKiernan, Briana Shann, Micky McGregor.

Quando Eu, Daniel Blake tem início, ouvimos a voz desinteressada, com um tom robótico, de uma médica que questiona os sintomas apresentados pelo personagem-título. Aparentemente ignorando o problema principal – o ataque cardíaco que este sofrera há alguns meses e que agora o impede de trabalhar -, ela parece tratá-lo como um mero inconveniente. Seu descaso é tamanho, na verdade, que nem mesmo seu status profissional ela se importa em oferecer: indagada se é médica ou enfermeira, ela se limita a repetir ser uma “profissional da saúde”.

O que ela é, de fato, não demora a ficar claro: uma funcionária terceirizada de um governo (no caso, o britânico) que se mostra absolutamente indiferente aos dilemas de seus cidadãos mais carentes – gente como Daniel Blake (Johns) e Katie (Squires), uma mãe solteira que, com dois filhos para criar, passa os dias se matando em subempregos e as noites cuidando da casa dilapidada na qual reside para que as crianças possam ter um lar minimamente habitável.

Dirigido por Ken Loach, cineasta com uma preocupação recorrente com o homem comum e as questões políticas que os movem ou massacram, Eu, Daniel Blake é um trabalho que ilustra com perfeição o sentimento de frustração e impotência de pessoas que, presas no fundo do poço, não demoram a descobrir que nenhuma escada será lançada em sua direção pelo sistema impessoal que usa a burocracia com o claro objetivo de criar dificuldades desnecessárias que levem qualquer indivíduo necessitado a acabar desistindo de buscar auxílio. Ao mesmo tempo, o roteiro de Paul Laverty exibe um otimismo que não deixa de ser reconfortante ao apontar que, fora da lógica do capitalismo selvagem e impiedoso, há geralmente a solidariedade entre aqueles que reconhecem estar em situações muito próximas umas das outras.

Aliás, alguns dos instantes mais comoventes do longa são precisamente aqueles nos quais vislumbramos, mesmo que rapidamente, pequenos gestos de apoio mútuo partindo de pessoas que já não têm muito a oferecer – e Loach frequentemente retrata isso através de breves olhares ou de enquadramentos que evocam sentimentos complexos (como aquele que traz Katie, pequena e encolhida no canto do quadro, enquanto, sentada na escada corroída de seu apartamento, chora de cansaço e desespero escondida dos filhos). Da mesma forma, é impossível não reconhecer a dor e a humilhação da mulher quando, durante uma visita a uma instituição de caridade que distribui comida, não consegue conter a fome, abrindo um enlatado ainda entre as prateleiras que contêm as doações, numa das cenas mais dolorosas da obra.

Não é coincidência, diga-se de passagem, que o mesmo Festival de Cannes que exibiu Eu, Daniel Blake tenha programado e premiado o drama francês O Valor de um Homem ano passado – um filme que trazia Vincent Lindon enfrentando algumas das mesmas dificuldades aqui experimentadas por seu companheiro britânico de proletariado: como apontei ao escrever sobre Jogo do Dinheiro, o Cinema é um reflexo constante do mundo extratela e, portanto, é inevitável que histórias como estas se tornem cada vez mais frequentes em um sistema que se encarrega de aumentar cada vez mais as desigualdades entre aqueles mais abastados e aqueles que nada têm.

Ancorado por duas performances centrais profundamente sensíveis e sofridas, o filme de Loach aponta, com sua imensa empatia, aquilo que deveria ser óbvio para todos: que se o Estado não tiver a humanidade de oferecer suporte aos que nada ou muito pouco possuem, não será o “mercado” que irá fazê-lo. Afinal, para este a miséria é uma estatística e o cidadão é constantemente avaliado não como um ser humano, mas como uma peça de engrenagem cuja importância é proporcional ao seu valor de produção.

Texto originalmente publicado como parte do Festival de Cannes 2016.

12 de Maio de 2016

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.