Críticas por Pablo Villaça

Poster: Capitão Fantástico
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
22/12/2016 08/07/2016
Distribuidora
Universal

 

 


Capitão Fantástico
Captain Fantastic

Capitão Fantástico

Dirigido e roteirizado por Matt Ross. Com: Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Shree Crooks, Charlie Shotwell, Kathryn Hahn, Steve Zahn, Ann Dowd, Erin Moriarty, Missi Pyle e Frank Langella.

Bodevan, Kielyr, Vespyr, Rellian, Zaja e Nai. Estes são os nomes dos seis filhos de Ben (Mortensen), que os inventou para que fossem únicos em todo o planeta. Esta, porém, é a menor de suas peculiaridades, já que o sujeito cria sua família no meio de uma floresta, treinando as crianças para que cacem, plantem e colham seus alimentos, já que não quer vê-los crescendo sob uma sociedade consumista.

Mas Ben não tem interesse em ver as crianças se transformando em animais preocupados apenas com a sobrevivência e, assim, supervisiona seus estudos de maneira ambiciosa: todos falam seis línguas, são estimulados a ler os clássicos e têm seu pensamento crítico constantemente estimulado. Ao comentar que se sente incomodada com o “Lolita” de Nabokov, por exemplo, a filha adolescente do protagonista é estimulada a explicar o que a deixa tão desconfortável – e quando começa a descrever a trama, é interrompida pelo pai para que analise a narrativa em vez de apenas resumir a história. 

Como resultado, Captain Fantastic constantemente surpreende e diverte o espectador ao trazer aqueles jovens discutindo Física Quântica em um momento apenas para, no seguinte, surgirem camuflados enquanto caçam um cervo usando apenas um facão. Por outro lado, há um vazio entre eles: a esposa de Ben e mãe das crianças cometeu suicídio após uma longa luta contra a depressão e seu corpo está prestes a ser enterrado por seus pais, que se negam a honrar seu desejo, como budista, de ser cremada – o que leva sua família a iniciar uma longa viagem para impedir que isto aconteça.

Girando em torno da dinâmica daquela família tão peculiar, o filme escrito e dirigido por Matt Ross basicamente depende do interesse do espectador pelos personagens para que funcione – e é extremamente bem-sucedido neste aspecto. Por mais que a ideia de um homem criar os filhos à margem da sociedade, no meio de uma floresta, possa inicialmente soar irresponsável, torna-se difícil condenar o trabalho de Ben como pai ao observarmos o carinho e o respeito com que trata os filhos, respondendo sem hesitar a todas as perguntas que estes lhe fazem e incentivando-os a pensar sobre tudo que vivem, leem e sentem (adjetivos genéricos como “interessante” são proibidos entre eles).

Engraçado e tocante na mesma medida, Captain Fantastic emprega seus personagens para discutir ideias política e socialmente complexas, às vezes fazendo pequenas observações (como no instante em que as crianças se chocam ao perceber como todos parecem gordos no mundo “real”), às vezes adotando pontos de vista mais estranhos (por que seria mais justo celebrar o “Dia de Noam Chomsky” em vez do Natal?), às vezes partindo para a controvérsia proposital (para despistar um policial, eles se passam por fundamentalistas cristãos por saberem que isto praticamente os isentará de questionamentos). Aliás, o longa se recusa a simplificar qualquer questão, o que pode ser constatado em seu tratamento do avô vivido por Frank Langella, que, mesmo sendo o grande antagonista da história, não é visto de forma unidimensional, como um vilão.

Inteligente ao criar um arco dramático que confere ainda mais estrutura à narrativa e que envolve a percepção de Ben sobre os efeitos de sua abordagem educacional sobre os filhos, o filme aos poucos leva o público a se apaixonar por aquela família – o que em grande parte deve-se às performances de Mortensen, um ator capaz de evocar uma intensidade única, e de seus seis jovens companheiros de cena, que estabelecem as personalidades de cada um dos filhos e forjam uma intimidade inquestionável entre estes.

Com isso, quando ouvimos uma versão encantadora de “Sweet Child of Mine” executada por aquelas pessoas, o desejo é de permanecer ali, acompanhando suas jornadas e sem ter que deixá-los para trás ao fim da projeção.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

17 de Maio de 2016

(O Cinema em Cena precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.