Críticas por Pablo Villaça

Poster: Kubo e as Cordas Mágicas
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
24/12/2016 19/08/2106
Distribuidora
Universal

 

 


Kubo e as Cordas Mágicas
Kubo and the Two Strings

Kubo e as Cordas Mágicas

Dirigido por Travis Knight. Roteiro de Marc Haimes e Chris Butler. Com as vozes de Charlize Theron, Art Parkinson, Matthew McConaughey, Rooney Mara, Brenda Vaccaro, George Takei, Cary-Hiroyuki Tagawa e Ralph Fiennes.

Se há algo do qual ninguém pode acusar os responsáveis pela Laika, produtora deste Kubo e as Cordas Mágicas, é de temer abraçar histórias infantis marcadas por atmosferas sombrias e ameaçadoras, como comprovaram o bom Paranorman e o belíssimo Coraline e o Mundo Secreto, dois de seus trabalhos anteriores. Pois a mesma abordagem, que envolve um equilíbrio bem-sucedido entre o macabro e o divertido, surge em Kubo, que traz uma narrativa ágil, bem-humorada, mas também tensa.

Aliás, esta tensão já dá as caras na introdução do longa, que nos coloca ao lado de uma mulher que, assustada, encontra-se num barquinho minúsculo no meio de uma tempestade que provoca ondas gigantescas, derrubando-a e fazendo com que bata a cabeça em pedras pontiagudas sob a água – e quando isto acontece, vemos um leve rastro de sangue resultante do golpe. Arrastada para a praia, ela abraça o bebê que trazia preso ao corpo e que exibe um curativo sobre o olho esquerdo. Anos depois, quando voltamos a encontrar o menino – o Kubo do título (voz de Art Parkinson) -, descobrimos que foi seu avô (Fiennes) quem arrancou seu olho e que agora está sendo perseguido por suas duas tias gêmeas (Mara), que pretendem cegá-lo de vez. Para se proteger, ele parte em uma jornada para recuperar as três peças da armadura que pertenceram ao seu pai, sendo acompanhado pela Macaca (Theron) e pelo Besouro (McConaughey).

Realizado em stop motion como os demais projetos da Laika, Kubo e as Cordas Mágicas impressiona de imediato graças ao seu design de produção, que enriquece com inúmeros detalhes cada ponto visitado pelos heróis, desde a pequena vila (notem as irregularidades na madeira das cabanas e na superfície dos papeis das lanternas) até as paisagens cobertas pela neve e que revelam partes de imensas estátuas enterradas. Além disso, o próprio visual dos personagens envolve contrastes que revelam muito sobre suas personalidades: as tias do protagonista, por exemplo, trazem os rostos cobertos por máscaras que ressaltam seu aspecto fantasmagórico, ao passo que o corpo pequeno e rechonchudo da velhinha Kameyo (Vaccaro) garante nossa simpatia. E se Kubo exibe grande expressividade mesmo com metade do rosto sempre coberto pela franja que disfarça o tapa-olho, não menos fabulosos são os “pelos” da Macaca, que chegam a se movimentar de forma independente uns dos outros durante uma ventania – um indício inegável da qualidade do trabalho dos animadores.

A animação, por sinal, é impecável como aquela vista em Coraline, revelando o cuidado da equipe através de pequenos toques como o instante em que Kubo alimenta a mãe e, percebendo um grão de arroz preso em seu queixo, usa hashis para removê-lo com carinho. Da mesma forma, reparem como a Macaca muda de expressão quando conversa em certo momento com o Besouro, alterando sutilmente um olhar de dor e frustração para outro que revela uma pequena alegria aliada a certo otimismo – uma “performance” que já seria admirável em um ator de carne-e-osso e que aqui é alcançada através de inúmeras e diminutas mudanças fotografadas quadro a quadro.

Tomando emprestados vários aspectos do gênero wuxia pian (ver O Tigre e o Dragão ou O Clã das Adagas Voadoras), Kubo e as Cordas Mágicas traz sequências de ação complexas que, beneficiadas por retoques digitais (como o oceano que cerca um combate), contam com coreografias inventivas e ágeis – e que podem ser testemunhadas também nas histórias estreladas por origamis animados pelo instrumento que o pequeno herói toca e que trazem as cordas que dividem com ele o título do filme.

Aliás, como toda fábula, este longa desenvolve também seus temas particulares e que aqui assumem um caráter metalinguístico, já que giram em torno do próprio ato de contar histórias, sendo interessante observar como várias das intervenções feitas por Kubo nas aventuras que narra são aos poucos incorporadas em sua própria. Por outro lado, o roteiro de Marc Haimes e Chris Butler perde um pouco a clareza ao tentar explorar de forma confusa um conceito que poderia até ser instigante: o de que mudar nossas histórias particulares – ou a maneira como as percebemos – poderia alterar quem somos. Infelizmente, a maneira que o filme encontra para defender esta ideia no desfecho da trama soa artificial e pouco convincente, parecendo mais um esforço frágil para encaixar um final feliz numa experiência melancólica.

Porém, pecadilhos como este são fáceis de ignorar enquanto nos encontramos hipnotizados pela beleza do universo criado pela Laika. Que, espero, não tardará a nos mergulhar mais uma vez em uma de suas tenebrosas e encantadoras fantasias.

24 de Dezembro de 2016  

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.