Poster: Animais Noturnos

 

 

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Banner: Animais Noturnos

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
29/12/2016 23/11/2016
Universal

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido e roteirizado por Tom Ford. Com: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Ellie Bamber, Armie Hammer, Karl Glusman, Robert Aramayo, India Menuez, Andrea Riseborough, Michael Sheen, Jena Malone e Laura Linney.

Há certos momentos na vida de qualquer pessoa em que, por um motivo ou outro, surge o impulso de socar uma parede, partir um objeto de decoração ou atirar um prato no chão. Se levamos ou não o impulso adiante é outra história, claro, mas certamente há aquele instante no qual acreditamos, mesmo que por um segundo, que talvez nos sintamos um pouco melhor caso transformemos em pura energia cinética o sentimento que nos sufoca. Este esforço para expurgar algo incômodo encontra-se, também, em outro tipo de impulso: o artístico. Ao seu próprio modo, o artista frequentemente converte sua frustração com o mundo em algo que a expresse de maneira simbólica e catártica.

Animais Noturnos é um filme que lida com esse tipo de processo. É um filme sobre artistas e aspirantes a; sobre desistências e arrependimentos; sobre amores passados que, vistos sob a luz de dores no presente, começam a soar como oportunidades perdidas ou como boias salva-vidas quando, na realidade, provavelmente gerariam sua própria parcela de problemas caso resgatados. Assim, quando Susan Morrow (Adams), uma dona de galeria casada com um sujeito bonito e bem-sucedido (Hammer), começa a questionar o vazio que a cerca, é apenas natural que se sinta balançada ao receber um manuscrito enviado pelo ex-marido Edward (Gyllenhaal), que, como se não bastasse, dedica o livro a ela. Enquanto lida com os problemas de seu cotidiano, Susan lê a história concebida pelo ex, que gira em torno de uma família (Gyllenhaal, Fisher e Bamber) confrontada numa estrada deserta, à noite, por três jovens violentos (Taylor-Johnson, Glusman e Aramayo).

Construído com eficiência a partir de três narrativas paralelas, a obra passa a saltar entre o presente de Susan, os flashbacks que exploram seu casamento com Edward e a trama desenvolvida no livro deste último – que, graças à justaposição com passagens da vida da protagonista, aos poucos deixa de ser apenas um esforço de imaginação literária e assume significados obviamente relacionados ao passado do casal. Beneficiado pela montagem fluida de Joan Sobel, que cria transições ágeis que reforçam as ligações entre incidentes e personagens da ficção e da “realidade”, o filme emprega elementos sonoros, movimentos de câmera e objetos de cena como base para raccords que se mantêm elegantes mesmo quando soam óbvios.

Mas o mais interessante, em Animais Noturnos (filme e livro-dentro-do-filme), é buscar observar como Edward usa sua história para ressignificar o que viveu, empregando a escrita como um exercício que soa ora como terapia, ora como vingança. Por outro lado, não podemos nos esquecer de que estamos “lendo” o livro através de Susan, que acrescenta uma camada subjetiva própria – e, portanto, um novo filtro – a tudo que vemos: assim, se o protagonista do romance tem o mesmo rosto que seu ex-marido, podemos nos perguntar se o escritor de fato o enxerga como seu avatar ou se isto é resultado apenas de uma projeção feita por Susan (e, da mesma maneira, é significativo que Isla Fisher aqui se pareça bastante com Amy Adams, o que indica que a personagem traz elementos da protagonista mesmo não sendo uma representação perfeita desta).

Em outras palavras: o livro que Susan lê não é necessariamente o mesmo livro que Edward escreveu, embora as palavras em cada página sejam idênticas. Este efeito do referente pessoal de cada um que contempla uma obra é o que torna a Arte tão fascinante – e que Animais Noturnos ilustre isto com tamanha competência é digno de nota.  

Mas o diretor Tom Ford demonstra talento também ao criar uma atmosfera pesada, típica do mais sombrio dos noirs, ao contar a história do livro de Edward, que mergulha o espectador numa aura de pesadelo desde o princípio, tornando-se cada vez mais densa à medida que acompanhamos o sofrimento crescente de Tony, que Gyllenhaal encarna como um homem atormentado não só por uma tragédia pessoal, mas pela vergonha por ter se acovardado diante da brutalidade de criaturas movidas por uma crueldade primitiva (e confesso ter me surpreendido com a caracterização brutal de Aaron Taylor-Johnson, que em nada remete às suas performances em filmes como Kick-Ass, Godzilla e Era de Ultron). E se Amy Adams retrata bem a melancolia crescente de Susan, Michael Shannon basicamente rouba o filme sempre que aparece como o xerife Bobby Andes, vivendo aquela que talvez seja uma das figuras mais imprevisíveis de uma carreira recheada de personagens surpreendentes.

Insistindo em sua ambiguidade moral e simbólica até o ultimo segundo de projeção, que convida o espectador a projetar sua própria visão de mundo nas ações finais de Susan e Edward, Animais Noturnos exibe uma coesão notável em sua capacidade de criar imagens que reconhecemos como evocativas mesmo que permaneçamos incertos a respeito do que evocam exatamente. Se em algumas obras isto poderia soar apenas como fragilidade narrativa, aqui a abordagem deliberada de Tom Ford aponta para o desejo de permitir que o público descubra uma das facetas mais instigantes da Arte: o fato de que, muitas vezes, a interpretação de quem se posiciona diante de uma obra é mais interessante do que a de quem a colocou ali.

29 de Dezembro de 2016

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Comente!

  • didavilaego em 07/01/2017 às 21:34

    Assisti o filme pela crítica, tenho dificuldades com Jake Gyllenhaal. Aliás, deveríamos parar com esses preconceitos bobos, pois perdemos produções maravilhosas como essa. Fotografia linda contrastando a todo o momento com o clima denso. Eu não esperava um outro final, se encaixou perfeitamente com o roteiro e com a realidade abordada.

  • Pablo Villaça em 05/01/2017 às 06:06

    Obrigado! :)

  • Guilherme Martins Agostini em 02/01/2017 às 20:22

    Ótima análise! Concordo inteiramente com o Bruno Passos, que comentou acima.

  • Jorge em 31/12/2016 às 02:16

    Um filme muito bem-produzido, "classudo". Adorei a fotografia, a edição, as atuações e a trilha sonora. O suspense é bem-construído, apenas contesto a objetividade do roteiro, achei um pouco despropositado ao final. Mesmo assim, bom cinema. Vale a pena.

  • BRUNO PASSOS DE SOUZA REGO em 30/12/2016 às 14:50

    Excelente crítica. Como sempre, sua crítica apresenta novos elementos, enriquecendo a experiência de assistir aos filmes.

 

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