Críticas por Pablo Villaça

Poster: Invasão Zumbi
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
29/12/2016 20/07/2016
Distribuidora
Paris

 

 


Invasão Zumbi
Busanhaeng ou Train to Busan

Invasão Zumbi

Dirigido e roteirizado por Yeon Sang-ho. Com: Gong Yoo, Ma Dong-seok, Jung Yu-mi, Choi Woo-sik, Sohee, Kim Soo-an, Kim Eui-sung, Choi Gwi-hwa e Jeong Seok-yong.

Poucos monstros clássicos seguem tão presentes no século 21 quanto os zumbis. Se vampiros, múmias e lobisomens surgem ocasionalmente em um filme ou outro, os mortos-vivos sempre podem ser facilmente vistos nos cinemas, em séries de TV, games e quadrinhos. Mais raro, porém, é encontrar projetos que tragam algo de novo ao gênero – uma proeza que o sul-coreano Invasão Zumbi realiza ao empregar um conceito que pode ser resumido em apenas quatro palavras:

Zumbis em um trem.

Funcionando como uma versão de Expresso do Amanhã que substitui os soldados por cadáveres comedores de carne humana, este longa escrito pelo cineasta Yeon Sang-ho acompanha Woo Seok (Yoo), um executivo workaholic que, recém-divorciado, negligencia a filha (a pequena e formidável Soo-an) a ponto de presenteá-la em seu aniversário com o mesmo console de videogame que já havia comprado em uma outra data comemorativa. Sentindo-se culpado pelo equívoco, ele concorda em levá-la para visitar a mãe na cidade de Busan, embarcando com a menina em um trem expresso justamente quando o país começa a enfrentar uma estranha epidemia cuja natureza qualquer cinéfilo é capaz de identificar em dez segundos. Assim, quando uma pessoa infectada ataca um dos condutores, o caos começa a se instalar nos vários carros, levando os passageiros a uma fuga desesperada pelos vagões.

Primeira incursão do diretor Yeon Sang-ho no live-action depois de anos devotado aos animes, Invasão Zumbi é dotado de uma energia que frequentemente aponta para esta origem do realizador, já que seus mortos-vivos fogem do padrão clássico popularizado por George Romero e se revelam criaturas que se transformam em questão de segundos, movimentando-se com agilidade assustadora e remetendo mais aos “primos” vistos em Extermínio e Guerra Mundial Z do que aos lentos seres de The Walking Dead e Madrugada dos Mortos (a versão de Romero, não a de Snyder). Porém, Sang-ho adiciona seus próprios elementos à mitologia ao estabelecer que seus monstros não conseguem enxergar no escuro – uma ideia engenhosa que lhe permite explorar os vários túneis localizados no trajeto.

Mas se a obra é eficaz em seu ritmo e na inventividade com que as sequências de ação são desenvolvidas, o roteiro acaba pecando ao sentir-se na obrigação de fazer comentários sociais através das posturas de seus personagens. Não que adotar um contexto político seja algo ruim (o próprio Romero fez isso em vários de seus trabalhos); o problema é que Invasão Zumbi é simplista demais em seus esforços, retratando executivos de grandes corporações como indivíduos egoístas e cruéis (aquele vivido por Kim Eui-sung é especialmente irritante) e membros da classe média ou mesmo mendigos como seres naturalmente mais nobres e capazes de gestos altruístas. “Você não precisava ter sido boazinha; deveria ter pensado só em você”, diz o protagonista para a filha em certo ponto da projeção – uma fala afetada que só é amenizada graças à boa dinâmica entre os atores, incluindo-se aí o carismático Ma Dong-seok como um marido disposto a tudo para proteger a esposa grávida.

Perdendo um pouco da força no terceiro ato, quando aposta em incidentes absurdos demais até mesmo para uma trama já naturalmente fantástica, o filme ao menos fecha bem o arco de Wook Seok, criando também um plano que merece figurar entre os mais memoráveis do Cinema em 2016: aquele que traz centenas de zumbis perseguindo uma locomotiva e criando uma espécie de malha viva (ou morta-viva) que é por ela arrastada.

Mesmo falhando em seus esforços dramáticos, que soam artificiais demais para comover, Invasão Zumbi traz um fôlego novo a um gênero que constantemente parece satisfeito em depender dos clichês. Esperemos agora por zumbis em um avião.

30 de Dezembro de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.