Críticas por Pablo Villaça

Poster: Moana: Um Mar de Aventuras
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
05/01/2017 23/11/2016
Distribuidora
Disney

 

 


Moana: Um Mar de Aventuras
Moana

Moana: Um Mar de Aventuras

Dirigido por Ron Clements e John Musker. Roteiro de Jared Bush. Com as vozes de Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House, Temuera Morrison, Jemaine Clement, Nicole Scherzinger e Alan Tudkyk.

Acompanhar a evolução de certos personagens ao longo das décadas é uma experiência normalmente reveladora: se o James Bond de Sean Connery era um tipo inquestionavelmente misógino, as versões vividas por Pierce Brosnan e Daniel Craig foram suavizadas neste aspecto e mesmo criticadas nos próprios filmes por outros personagens (e o fato de “M” ter ganhado o rosto de Judi Dench é sintoma desta mudança de mentalidade). Da mesma forma, as Princesas da Disney refletem à sua própria maneira as mudanças de paradigmas da sociedade: se a primeira, Branca de Neve, era uma criatura passiva que se tornava serviçal de sete homens até ser salva pelo príncipe, mais recentemente tivemos figuras infinitamente mais fortes que assumiam as rédeas da história, como Tiana (A Princesa e o Sapo), Rapunzel (Enrolados), Merida (Valente) e, claro, Elsa (Frozen). Ainda assim, foi só com estas duas últimas que as princesas também se libertaram da necessidade de um príncipe/par romântico que desse estrutura às suas trajetórias.

O que nos traz à mais nova integrante do grupo: Moana, filha do chefe de sua tribo. Dona de uma personalidade forte e determinada a seguir seu próprio caminho, a personagem é a primeira princesa da Disney a rejeitar o título, numa indicação fascinante da percepção do estúdio sobre o empoderamento crescente das mulheres e o esforço para se livrarem de rótulos e estereótipos limitantes. Assim, quando o semideus Maui aponta que ela veste saia, é de uma linhagem “real” e vive acompanhada por animaizinhos engraçadinhos, a fala está sendo dita não apenas por ele, mas pela própria Disney – e que Moana insista em renegar o título é algo que, particularmente, considero um dos momentos mais marcantes da longa e rica vida do estúdio.

Dirigido por Ron Clements e John Musker, responsáveis pelo renascimento das animações da Disney com A Pequena Sereia (e também os nomes por trás de Aladdin, Hércules e A Princesa e o Sapo), Moana dá seguimento aos esforços da dupla – e da empresa - para incutir diversidade aos seus projetos: se Aladdin e Jasmine eram árabes (embora seus visuais não refletissem isso) e Tiana foi a primeira princesa negra do grupo, Moana tem origem polinésia, algo que o filme faz questão de ressaltar ao também incorporar elementos de sua mitologia e cultura à trama, que acompanha a jovem (Cravalho) em sua jornada para encontrar Maui (Johnson) com o objetivo de devolver a lendária pedra que este roubou e que servia como coração da deusa Te Fiti.

Embalado por uma trilha que inclui canções compostas pelo samoano Opetaia Foa’i, pelo veterano Mark Mancina (Twister, Irmão Urso, Atirador) e pelo fenômeno da Broadway Lin-Manuel Miranda (aqui estreando na função), Moana exibe a influência da História da região também em suas músicas e nas coreografias dos personagens. Aliás, a animação dos movimentos destas figuras é impecável, demonstrando um cuidado magistral com cada elemento, por mais sutil que seja: notem, por exemplo, como a protagonista fecha os olhos quando a luz do sol atinge seu rosto, como sua avó exibe uma leve tremedeira ao tentar sentar-se ou (o que mais me espanta) como os longos cabelos de Moana e Maui reagem ao vento, à água e a cada pequena oscilação em suas posturas. De maneira similar, o design de produção impressiona ao conceber a ilha habitada pela tribo como um local de topografia única, com cachoeiras que saem das montanhas, colinas de um verde profundo que conduzem ao mar e uma vila ao mesmo tempo aconchegante e funcional, contrastando esta visão com o mundo dos monstros, que surge em tons mais escuros e com um céu que, na realidade, é o fundo do oceano. Além disso, aqui também os detalhes encantam – e percebam como as pedras que compõem a pilha construída pelos antepassados da heroína trazem uma quantidade crescente de musgo à medida que nos aproximamos da base.

Eficiente em seu senso de humor (fiquei especialmente surpreso com o sucesso das gags envolvendo o galo Heihei (Tudyk), que exploram até o limite sua natureza estúpida), o filme peca, contudo, na estrutura problemática, que constantemente atira a narrativa em tangentes que podem até impressionar tecnicamente, mas que em nada contribuem com o arco dramático da trama. Assim, mesmo admirando o conceito dos piratas-coco e o design de suas embarcações, o fato é que a sequência que protagonizam é absolutamente descartável, sugerindo motivações cínicas para sua inclusão (criar mais produtos para venda). Aliás, a fragilidade estrutural do roteiro pode ser observada também no vai-e-vem das posições de Moana e Maui frente à missão que têm pela frente e ao que sentem um pelo outro: uma coisa é ilustrar a evolução dos personagens; outra, obrigá-los a mudar de atitude de acordo com as necessidades imediatas da trama.

De todo modo, é curioso notar como até mesmo em seu clímax Moana aponta para as mudanças na sensibilidade da Disney, já que, depois de décadas punindo seus vilões com a morte (normalmente através de longas quedas), numa posição moral complicada de justificar, o estúdio agora parece defender a importância da redenção, do entendimento mútuo e do perdão.

E como a Arte reflete o mundo que a cerca, este tipo de mudança me leva a crer, de forma talvez ingenuamente otimista, que aos poucos seguimos evoluindo. Pelo menos, é o que indicam as Princesas da Disney e suas belas aventuras.

Observação: há uma cena após os créditos finais.

5 de Janeiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.