Poster: Moana: Um Mar de Aventuras

 

 

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Banner: Moana: Um Mar de Aventuras

Datas de Estréia: Notas:
Brasil Exterior Crítico Assinante Distribuidora
05/01/2017 23/11/2016
Disney

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

Dirigido por Ron Clements e John Musker. Roteiro de Jared Bush. Com as vozes de Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House, Temuera Morrison, Jemaine Clement, Nicole Scherzinger e Alan Tudkyk.

Acompanhar a evolução de certos personagens ao longo das décadas é uma experiência normalmente reveladora: se o James Bond de Sean Connery era um tipo inquestionavelmente misógino, as versões vividas por Pierce Brosnan e Daniel Craig foram suavizadas neste aspecto e mesmo criticadas nos próprios filmes por outros personagens (e o fato de “M” ter ganhado o rosto de Judi Dench é sintoma desta mudança de mentalidade). Da mesma forma, as Princesas da Disney refletem à sua própria maneira as mudanças de paradigmas da sociedade: se a primeira, Branca de Neve, era uma criatura passiva que se tornava serviçal de sete homens até ser salva pelo príncipe, mais recentemente tivemos figuras infinitamente mais fortes que assumiam as rédeas da história, como Tiana (A Princesa e o Sapo), Rapunzel (Enrolados), Merida (Valente) e, claro, Elsa (Frozen). Ainda assim, foi só com estas duas últimas que as princesas também se libertaram da necessidade de um príncipe/par romântico que desse estrutura às suas trajetórias.

O que nos traz à mais nova integrante do grupo: Moana, filha do chefe de sua tribo. Dona de uma personalidade forte e determinada a seguir seu próprio caminho, a personagem é a primeira princesa da Disney a rejeitar o título, numa indicação fascinante da percepção do estúdio sobre o empoderamento crescente das mulheres e o esforço para se livrarem de rótulos e estereótipos limitantes. Assim, quando o semideus Maui aponta que ela veste saia, é de uma linhagem “real” e vive acompanhada por animaizinhos engraçadinhos, a fala está sendo dita não apenas por ele, mas pela própria Disney – e que Moana insista em renegar o título é algo que, particularmente, considero um dos momentos mais marcantes da longa e rica vida do estúdio.

Dirigido por Ron Clements e John Musker, responsáveis pelo renascimento das animações da Disney com A Pequena Sereia (e também os nomes por trás de Aladdin, Hércules e A Princesa e o Sapo), Moana dá seguimento aos esforços da dupla – e da empresa - para incutir diversidade aos seus projetos: se Aladdin e Jasmine eram árabes (embora seus visuais não refletissem isso) e Tiana foi a primeira princesa negra do grupo, Moana tem origem polinésia, algo que o filme faz questão de ressaltar ao também incorporar elementos de sua mitologia e cultura à trama, que acompanha a jovem (Cravalho) em sua jornada para encontrar Maui (Johnson) com o objetivo de devolver a lendária pedra que este roubou e que servia como coração da deusa Te Fiti.

Embalado por uma trilha que inclui canções compostas pelo samoano Opetaia Foa’i, pelo veterano Mark Mancina (Twister, Irmão Urso, Atirador) e pelo fenômeno da Broadway Lin-Manuel Miranda (aqui estreando na função), Moana exibe a influência da História da região também em suas músicas e nas coreografias dos personagens. Aliás, a animação dos movimentos destas figuras é impecável, demonstrando um cuidado magistral com cada elemento, por mais sutil que seja: notem, por exemplo, como a protagonista fecha os olhos quando a luz do sol atinge seu rosto, como sua avó exibe uma leve tremedeira ao tentar sentar-se ou (o que mais me espanta) como os longos cabelos de Moana e Maui reagem ao vento, à água e a cada pequena oscilação em suas posturas. De maneira similar, o design de produção impressiona ao conceber a ilha habitada pela tribo como um local de topografia única, com cachoeiras que saem das montanhas, colinas de um verde profundo que conduzem ao mar e uma vila ao mesmo tempo aconchegante e funcional, contrastando esta visão com o mundo dos monstros, que surge em tons mais escuros e com um céu que, na realidade, é o fundo do oceano. Além disso, aqui também os detalhes encantam – e percebam como as pedras que compõem a pilha construída pelos antepassados da heroína trazem uma quantidade crescente de musgo à medida que nos aproximamos da base.

Eficiente em seu senso de humor (fiquei especialmente surpreso com o sucesso das gags envolvendo o galo Heihei (Tudyk), que exploram até o limite sua natureza estúpida), o filme peca, contudo, na estrutura problemática, que constantemente atira a narrativa em tangentes que podem até impressionar tecnicamente, mas que em nada contribuem com o arco dramático da trama. Assim, mesmo admirando o conceito dos piratas-coco e o design de suas embarcações, o fato é que a sequência que protagonizam é absolutamente descartável, sugerindo motivações cínicas para sua inclusão (criar mais produtos para venda). Aliás, a fragilidade estrutural do roteiro pode ser observada também no vai-e-vem das posições de Moana e Maui frente à missão que têm pela frente e ao que sentem um pelo outro: uma coisa é ilustrar a evolução dos personagens; outra, obrigá-los a mudar de atitude de acordo com as necessidades imediatas da trama.

De todo modo, é curioso notar como até mesmo em seu clímax Moana aponta para as mudanças na sensibilidade da Disney, já que, depois de décadas punindo seus vilões com a morte (normalmente através de longas quedas), numa posição moral complicada de justificar, o estúdio agora parece defender a importância da redenção, do entendimento mútuo e do perdão.

E como a Arte reflete o mundo que a cerca, este tipo de mudança me leva a crer, de forma talvez ingenuamente otimista, que aos poucos seguimos evoluindo. Pelo menos, é o que indicam as Princesas da Disney e suas belas aventuras.

Observação: há uma cena após os créditos finais.

5 de Janeiro de 2017

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Comente!

  • Pablo Villaça em 13/01/2017 às 22:56

    Rose, sim, Mulan de fato indica um início de mudança - até mesmo por também lidar com personagens asiáticos.

  • Pablo Villaça em 13/01/2017 às 22:55

    Boa lembrança, Alan.

  • Rose Magalhães em 10/01/2017 às 04:14

    Vc me deixou com mais vontade de apreciar esta obra, que me enociona desde o primeiro teaser. Gostaria apenas de lembrar que vejo as mudanças das princesas disney desde que retrataram a milenar Mulan. Afinal fazer o que ela fez precisa antes de mais nada ser muito MULHER. Um grande abraço e grata por suas indicações.

  • Alan Mezzomo em 08/01/2017 às 21:40

    Olá Pablo! Apenas uma observação: na animação "Detona Ralph" de 2012 da Disney, mais pro final do filme, Vanellope, ao se tornar princesa, também nega o título, dizendo que não gostou de ser princesa, que quer ser uma corredora. Ok, ela passa o filme todo não sendo princesa nem sabendo que poderia ser, mas tão logo se torna, também nega.

  • Pablo Villaça em 07/01/2017 às 05:33

    Lucas, gostei de maior parte das músicas. Particularmente de "You're Welcome" e "How Far I'll Go".

  • Lucas em 06/01/2017 às 10:05

    Sou grande fã do Pablo, em parte devido ao homem que ele aparenta ser (digo aparenta porque não tenho o privilégio de conhecê-lo) e, talvez principalmente, devido a ser, incontestavelmente, um maravilhoso profissional, exemplo a se seguir e em que se espelhar. Por isso mesmo, esperava um pouco mais da critica de "Moana". Se ficou bem escrita como sempre e se, como tbm de praxe, foi produzida sob influência de grande conhecimento acerca do assunto tratado, parece-me sucinta. Um pouco mais que o necessário eu diria. A animação, por exemplo, é musical. Uma característica importante dos filmes de princesa da casa do Mickey desde sempre e que, desta vez, tem dividido opiniões (houve quem gostasse muito das músicas e quem as considerasse o maior ponto fraco da produção). Eu levaria o que quer que fosse escrito aki em alta conta, cheio de respeito. Sucede que, se há fortes evidências de que o meu ídolo curtiu a trilha sonora (porque não há indicações em contrário, porque ele elogiou os compositores, porque inseriu seus comentários sobre o assunto antes de abordar os problemas do longa) pouco há de pareceres explícitos dele a esse respeito (se gostou ou não, por quê, talvez até pontos positivos e negativos presentes nas canções e melodias). Eu curtiria muito ler palavras dele nesta linha. Enfim, quatro estrelas pra critica (rs), que independente do que apontei, está excelente como sempre, cara! Grande abraço e siga sempre com seu excepcional trabalho. Obrigado por tudo!

 

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