Críticas por Pablo Villaça

Poster: Passageiros
Datas de Estréia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
05/01/2017 21/12/2016
Distribuidora
Sony

 

 

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Passageiros
Passengers

Passageiros

Dirigido por Morten Tyldum. Roteiro de Jon Spaihts. Com: Jennifer Lawrence, Chris Pratt, Michael Sheen, Laurence Fishburne, Julee Cerda e Andy Garcia.

(Este texto contém spoilers – que, a rigor, não deveriam sê-lo, já que ocorrem ainda no primeiro ato da trama. Porém, como a campanha publicitária por trás do projeto o apresentou de forma incrivelmente falsa, falar sobre qualquer elemento de sua pavorosa trama acaba sendo uma revelação.)

Quis o acaso que eu assistisse a Passageiros logo depois de ver a animação da Disney que estreou no mesmo dia nos cinemas brasileiros – e o contraste não poderia ter sido maior: se Moana traz uma protagonista forte, independente e que controla o próprio destino, Passageiros encara sua personagem feminina como uma mera fantasia masculina que existe basicamente como objeto de desejo, sendo constantemente retratada em vestidos com imensos decotes ou em um maiô semitransparente que usa com curiosa frequência para alguém que se encontra no espaço. Que seu nome seja Aurora, como o da passiva princesa da Disney, só não é uma coincidência ainda maior por ter sido empregado como uma referência óbvia pelo inacreditável roteiro de Jon Spaihts.

Concebido como um faz-de-conta sexista e perturbador em seus aspectos morais, o filme se passa a bordo de uma imensa espaçonave que conduz cerca de cinco mil pessoas em uma viagem de 120 anos até um planeta recém-colonizado pelos terráqueos. Porém, quando um campo de asteroides provoca uma pane no sistema da nave, um dos passageiros, Jim (Pratt), é despertado de sua hibernação e se descobre destinado a 90 anos de solidão. Depois de algum tempo, já desesperado com a situação, ele se vê atraído por Aurora (Lawrence), uma escritora ainda adormecida – e, agindo como quem escolhe uma roupa em um catálogo, o sujeito decide acordá-la. No entanto, se o príncipe de A Bela Adormecida salvava a amada ao trazê-la de volta à consciência, aqui Jim essencialmente condena a garota à morte ao prendê-la ao seu lado em uma viagem que só chegará ao fim muito depois que ambos já tiverem deixado de existir.

O problema de Passageiros, contudo, não reside em ter um protagonista tão egoísta e inconsequente – obras excepcionais podem ser construídas em torno de figuras desprezíveis (pensem em Amadeus, Cidadão Kane ou – imaginem! – A Queda, que tem Adolf “Pior Humano que Já Existiu” Hitler como seu centro dramático). Não; se há algo de errado com esta produção é que, ao contrário das demais que acabei de citar e que reconheciam a vilania de seus personagens (ou ao menos não a justificavam), este filme considera Jim um herói. Em resumo, portanto, este é um longa que parece ter sido escrito por um daqueles caras que vivem reclamando nas redes sociais que as mulheres “só gostam de homens babacas e não sabem valorizar aqueles que as tratariam como princesas”.

E o mais decepcionante é que havia potencial aqui. O primeiro ato, por exemplo, é hábil ao nos apresentar aos conceitos básicos da trama e ao estabelecer a solidão enlouquecedora experimentada por Jim, que se vê frustrado ao tentar conversar com máquinas que respondem sem realmente responder (o que resulta numa referência gratuita e inexplicável a O Iluminado) e ao esgotar todas as possibilidades de salvação, inicialmente resignando-se ao seu infortúnio até atingir o ponto no qual começa a contemplar o suicídio. Mas é aí, claro, que ele vê Aurora em sua cápsula de hibernação e, depois de stalkeá-la através de todos os registros deixados pela moça, decide despertá-la. Sim, ele reconhece que o que fará é errado, imoral, e se sente culpado por isso – o que não o impede de seguir com seu plano. E é aqui que o diretor Morten Tyldum, que já havia usado a tragédia pessoal de Alan Turing de forma cínica em O Jogo da Imitação, volta a exibir seu julgamento falho ao tentar transformar o debate e a culpa de Jim em justificativa para suas ações, como se devêssemos sentir pena do sujeito por ele se achar um canalha ao agir como um.

O mais chocante, no entanto, é constatar como o cineasta e o roteirista buscam retratar o gradual envolvimento entre Jim e Aurora como algo romântico apesar de tudo – afinal, ele dá “espaço” à moça, esperando que ela demonstre algum interesse antes de convidá-la inocentemente para jantar, levando-a, inclusive, a comentar como ele demorou a fazê-lo. Ora, “romântico”? Mesmo? Qual escolha ela tinha, afinal, já que sabia estar fadada a conviver com ele por décadas? Além disso, o envolvimento dos dois soa como algo apenas natural; afinal, do que ela poderia reclamar, já que o sujeito tem o rosto e o corpo de Chris Pratt? É claro que eles tinham que transar, certo?

Mas e se Jim fosse vivido por Steve Buscemi, Luis Guzmán, Danny Trejo ou Paul Giamatti? Será que ainda assim o filme consideraria charmoso ou digno de pena o torturado protagonista – especialmente depois que Aurora descobre o que ele fez e se mostra compreensivelmente enojada? (É evidente que ela descobriria; a ironia dramática exige o momento do reconhecimento por parte do personagem que se encontra no escuro.) Quando ela tenta se afastar e o ex-parceiro usa o sistema de som da nave para abordá-la, cometendo o que é fundamentalmente assédio ao forçá-la a ouvi-lo, o pesadelo no qual a mulher vive não ficaria mais patente caso fosse representado por Joe Pesci?

(Não estou dizendo, obviamente, que o assédio se torna menos repreensível quando cometido por pessoas atraentes; o ponto aqui é que Passageiros faz um imenso esforço para torná-lo aceitável – e escalar Pratt faz parte da estratégia.)

Aliás, até mesmo as sementes de boas discussões temáticas acabam por se revelar sórdidas em suas intenções: quando Jim nota que Aurora tem direito a refeições melhores por ser uma passageira de luxo, por exemplo, somos momentaneamente levados a acreditar que algum tipo de alegoria social será desenvolvido - até que percebemos que, na realidade, aquela é simplesmente mais uma forma de gerar simpatia pelo “herói” e diminuir Aurora diante do espectador. Afinal, ele é um “trabalhador”, um engenheiro humilde que decide viajar para tentar construir algo novo, ao passo que ela é uma riquinha que jamais fez nada de relevante -  além de ser mimada pelo pai famoso, embarcando na jornada apenas para viver uma aventura que talvez possa vir a utilizar em um livro. Da mesma forma, não é surpresa que nos momentos de emergência ela chore, sinta medo e se mostre perdida, ao passo que ele se mantém calmo e encontre soluções para tudo. Ora, não é mesmo uma tremenda sorte que ela tenha ao seu lado um Homem? (Eu não ficaria surpreso caso Jim, em suas redes sociais, se apresentasse como “cidadão de bem”.)

A desonestidade moral de Passageiros atinge seu ápice, porém, em seu terrível terceiro ato, que apela para o absurdo completo, sacrificando qualquer plausibilidade em prol de um esforço final para demonstrar como Jim merece ser recompensado. Mas pergunte-se quanto tempo Aurora levaria para (de novo: spoilers) puxá-lo de volta para a nave, removê-lo de seu traje espacial e carregá-lo para a cabine de tratamento médico (ele deve pesar, no mínimo, vinte quilos a mais que ela): caso ainda fosse possível revivê-lo, ele estaria condenado a passar o resto de sua existência como vegetal – e isto ainda seria mais verossímil do que vê-lo sobreviver à descarga do reator apenas por estar segurando uma porta como escudo térmico ao ser atingido pelo calor e pela radiação.

E tudo isso para que Aurora possa implorar que ele volte para ela, comprovando que, afinal de contas, a fantasia masculina de despertar a fidelidade e o amor de uma mulher que se encontrava fora de alcance é possível de ser realizada, bastando forçá-la a enxergar o valor daquele que ela inicialmente considerava erroneamente um stalker.

Quer mais? Ao julgar que está prestes a morrer, Jim se declara uma última vez a Aurora, dizendo que, se tivessem chegado ao planeta-colônia, ele “construiria uma casa” para ela.

Faltou apenas prometer comprar também um fogão, uma geladeira e uma tevê a cores. Afinal, ela precisa ver a novela das oito, não é mesmo?

6 de Janeiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.