Críticas por Pablo Villaça

Poster: Assassin's Creed
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
11/01/2017 21/12/2016
Distribuidora
Fox

 

 


Assassin's Creed
Assassin's Creed

Assassin's Creed

Dirigido por Justin Kurzel. Roteiro de Michael Lesslie, Adam Cooper e Bill Collage. Com: Michael Fassbender, Marion Cotillard, Jeremy Irons, Charlotte Rampling, Brendan Gleeson, Michael Kenneth Williams, Denis Ménochet, Ariane Labed, Khalid Abdalla, Essie Davis, Callum Turner, Carlos Bardem, Javier Gutiérrez e Brian Gleeson.

O credo dos Assassinos, apresentado logo nos primeiros minutos de (claro) Assassin’s Creed, envolve promessas de devoção total à causa envolvendo a proteção da “Maçã do Éden”, que, segundo aqueles que a procuram (Templários) ou guardam (Assassinos), foi “deixada por Deus como um mapa para entender a violência” – e que, como outro personagem explica em certo momento, “contém o código genético do livre-arbítrio”.

Sim, “código genético do livre-arbítrio”. Algo que de alguma forma está condensado no objeto, uma esfera de metal cujo conceito, acredito, só pode ter nascido de um erro de comunicação entre os três indivíduos que assinam o roteiro: “Ela representa o Pecado Original, entende? A Maçã é uma metáfora!”, deve ter dito um deles em uma ligação com sinal ruim. “Um metal? Ok, anotado!”

É isso que acontece quando você coloca o roteirista de Macbeth num projeto com a dupla responsável por No Pique de Nova York.

Adaptação da série de games criada pela Ubisoft, Assassin’s Creed é um daqueles filmes que começam com vários letreiros explicando a mitologia básica do universo no qual a história se passará, voltando a anotar na tela para o espectador cada mudança de época e locação. Assim, depois de uma introdução ambientada na Espanha, em 1492, damos uma passadinha em 1986 antes de voltarmos a encontrar o protagonista, Cal Lynch (Fassbender), nos dias de hoje e prestes a ser executado. Porém, em vez de ser morto pela injeção aplicada pelo carrasco, ele acaba acordando em uma instalação misteriosa e descobrindo que agora está sob a guarda de uma organização que pretende utilizá-lo para encontrar a tal Maçã. Para isso – como explica a “cientista” vivida por Marion Cotillard (e que adora repetir sua ligação com a “Ciência”) -, Cal será ligado a uma máquina chamada Animus, que o mergulhará em sua “memória genética”, permitindo que refaça os passos de Aguilar, sua “encarnação” anterior (ou algo parecido).

Aliás, como o DNA humano é prático: ele não só guarda em sua composição tudo o que vivemos como ainda vem com uma linha do tempo que permite, com a tecnologia correta, que um técnico vasculhe passagens específicas de nossas existências passadas – incluindo todos os golpes desferidos em uma luta. Muitos acreditam que o DNA contém as informações genéticas responsáveis por cada detalhe de nossos organismos, mas o que Assassin’s Creed revela é que também funciona como um arquivo de imagens, como um YouTube pessoal capaz de exibir cada segundo de todas as nossas existências pregressas.

Não, como podem ver, o roteiro não é muito hábil em suspender a descrença do espectador. Uma coisa é introduzir conceitos fantásticos de um universo ficcional particular; outra, atirar uma série de absurdos no público e apenas esperar que este aceite tudo por ter comprado um ingresso. Como base de comparação, revejam A Origem e notem como Christopher Nolan investe um longo tempo não só para introduzir cada elemento e regra de sua história, mas também para ilustrá-los através de sequências que gradualmente se aprofundam em seus componentes ficcionais antes de finalmente começar a usá-los de fato na trama, ao passo que, em Assassin’s Creed, temos apenas Sofia (Cotillard) ligando Cal em uma máquina e perguntando a um assistente se a “sincronização genética” foi alcançada.

O curioso é que, no restante do tempo, o filme demonstra gostar bastante de diálogos excessivos e desnecessários que obrigam intérpretes do calibre de Fassbender, Cotillard, Jeremy Irons, Charlotte Rampling e Brendan Gleeson a dizer coisas como “Houve uma divisão neurológica, mas pegamos você” ou a simplesmente berrar frases como “Salto de fé!” – que, como alguém que nunca jogou os games, suponho ser algo importante naqueles, mas que aqui surge como algo gratuito, sem qualquer justificativa ou lógica. É como se uma adaptação de O Incrível Hulk de repente mostrasse Bruce Banner se transformando sem antes explicar que este foi atingido por raios gama e que a raiva dispara a mudança – e, para contornar o problema, apenas colocasse um outro personagem gritando “Lá vem o verdão!”.

O que os roteiristas não parecem perceber é que uma adaptação tem que funcionar de forma independente; sim, pode até conter detalhes que só serão percebidos e apreciados por quem conhecer o material original, mas jamais depender deste para preencher lacunas da narrativa. Infelizmente, Assassin’s Creed é uma obra tão preguiçosa que, quando Sofia acusa Cal de ter matado um homem e o sujeito justifica simplesmente respondendo “Um cafetão”, não é possível sequer acusá-la de trivializar a violência e o assassinato, já que o mais provável é que os roteiristas nem sequer tenham percebido as implicações da troca de diálogos.

Enquanto isso, o diretor Justin Kurzel, que havia se saído bem melhor em sua colaboração anterior com Fassbender (Macbeth: Ambição e Guerra), se perde completamente desta vez, demonstrando total incapacidade de construir sequências de ação minimamente inteligíveis ou interessantes: se os cortes excessivos combinados com o movimento constante de câmera já tornariam difícil acompanhar o que ocorre, na versão em 3D isto se torna impossível – e em certo momento, quando Kurzel enfoca o protagonista disparando uma flecha na direção de uma parede para que ricocheteie e atinja um alvo, a graça da estratégia é anulada pelos enquadramentos e pela montagem. Já em outras cenas, a questão deixa de ser incompetência e vira estupidez, como no instante em que Sofia vê o pai e o herói através de um monitor de segurança e percebemos que o vídeo exibe a dupla caminhando em direção à câmera, que se afasta destes em um travelling ilógico (a não ser, claro, que o prédio seja monitorado por operadores de câmera que seguem todos que passam).

Trazendo um ou outro plano aéreo eficaz, Assassin’s Creed serve ao menos para demonstrar que Mad Max: Estrada da Fúria está se tornando influente como deveria, já que aqui e ali o diretor usa a estratégia de George Miller ao empregar um frame rate baixo para acelerar a ação. Sim, é mal utilizado, mas a inspiração é boa. Por outro lado, nada justifica a pavorosa trilha sonora composta por Jed Kurzel (irmão do cineasta), que parece acreditar que a abordagem correta é incluir todos os instrumentos existentes no planeta em “temas” que vão aumentando em volume, frequência e ritmo até que o espectador se sinta torturado como os personagens.

Como se não bastasse, o filme ainda faz questão de deixar aberta a possibilidade de uma continuação para a história de seus Assassinos.

Credo.

11 de Janeiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.