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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
18/10/2013 01/01/1970 2 / 5 / 5
Distribuidora
Vitrine Filmes
Duração do filme
100 minuto(s)

Bastardos
Les salauds

Dirigido por Claire Denis. Com: Chiara Mastroianni, Vincent Lindon, Michel Subor, Julie Bataille, Lola Créton, Alex Descas, Grégoire Colin, Mati Diop.

Bastardos é um thriller erótico, estudo de personagem e uma condenação da mentalidade opressiva de uma sociedade ainda terrivelmente machista. Infelizmente, depois de uma introdução intrigante que sugere uma atmosfera quase noir, o longa se entrega de forma frustrante à sua própria estrutura elíptica – e quando a diretora Claire Denis finalmente encontra a saída, percebemos que a estrada até ali fora desnecessariamente confusa, deixando diversas trilhas interrompidas e não chegando a lugar algum de interesse.

Escrito pela própria cineasta ao lado de Jean-Pol Fargeau (seu colaborador habitual), o roteiro conta a história de uma família que, após o suicídio de um de seus integrantes, entra em colapso: a filha do sujeito, Justine (Créton), é encontrada caminhando nua pelas ruas de Paris; sua esposa (Bataille) está falida e seu cunhado Marco (Lindon) é obrigado a deixar o navio que comanda para cuidar destas duas enquanto busca se vingar do milionário Edouard Laporte (Subor), que julga responsável pela tragédia. No processo, Marco se envolve com a namorada do inimigo, a bela e solitária Raphaëlle (Mastroianni), que vive sozinha com o filho pequeno. A partir daí, as trajetórias destes personagens vão se encontrando à medida que o protagonista descobre elementos perturbadores envolvendo a sobrinha.

A primeira metade da narrativa, que se preocupa em posicionar todas as peças da trama, é também sua melhor: contando com uma fotografia sombria e sugestiva de Agnès Godard (outra parceira de Denis), o filme acerta também ao manter a câmera colada ao rosto dos atores em primeiríssimos planos que expõe as angústias e dúvidas de cada uma daquelas pessoas. Além disso, a montagem de Annette Dutertre é hábil ao sugerir a confusão experimentada por Marco ao fazer frequentes saltos no eixo ao retratar suas conversas com outros personagens, usando a confusão no espaço da cena como sugestão de seu estado de espírito. Assim, é uma pena que eventualmente Dutertre e Denis se percam na condução da história, incluindo breves e marcantes planos que se revelam como pistas falsas ou – pior – como restos esquecidos de subtramas descartadas (e aí se encaixa o momento em que a bicicleta do filho de Raphaëlle é encontrada no meio de uma floresta, sugerindo algo que não se concretiza).

Mas não é só: a própria natureza da vingança de Marco permanece um mistério, bem como as razões por trás dos protestos iniciais de sua irmã, que acusa Edouard de algo que jamais se torna claro (e que, considerando o que descobrimos depois, não parece eximir seu marido suicida de culpa – ao contrário) – e, para piorar, algumas das subtramas são amarradas de maneira descuidada e artificial, dependendo de incidentes convenientemente apresentados para criarem alguma ideia de resolução (incluindo-se, aí, os destinos de Justine e do estranho casal que alugava um espaço para... bom, vejam o filme para descobrir).

Sim, há instantes memoráveis em Bastardos, mas estes surgem mais em pequenos e sutis detalhes do que nos momentos-chave: é belo, por exemplo, como Denis sugere a dor de Marco por vender seu carro ao trazê-lo dirigindo velozmente pela estrada antes de entregar o automóvel, mas é frustrante ver este sacrifício logo anulado quando ele simplesmente pede o veículo emprestado de volta. E se a trilha composta por Stuart Staples se apresenta como uma batida eletrônica entediante e repetitiva, mais incomodando do que criando algum suspense, ao menos temos as boas atuações de Lindon e Mastroianni para manter nosso interesse na projeção.

De modo geral, porém, Bastardos parece apenas interessado em chocar e tentar criar uma polêmica vazia através de revelações que, em vez de conferirem peso à trama, soam mais como recursos melodramáticos que não fazem jus à experiente diretora que, por algum mistério insondável, decidiu utilizá-los com tamanho entusiasmo.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival do Rio 2013 – daí sua extensão reduzida.

01 de Outubro de 2013

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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