Críticas por Pablo Villaça

Poster: X-Men
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
18/08/2000 14/07/2000
Distribuidora

 

 


X-Men
X-Men

X-Men

Dirigido por Bryan Singer. Com: Hugh Jackman, Ian McKellen, Patrick Stewart, Anna Paquin, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Tyler Mane, Ray Park, Rebecca Romijn-Stamos e Bruce Davison.

Antes de dar início a esta crítica sobre X-Men, sinto-me na obrigação de esclarecer que não sou leitor habitual dos quadrinhos da Marvel e, portanto, não estou em condições de julgar se o filme de Bryan Singer manteve-se ou não fiel aos personagens criados por Stan Lee. Assim sendo, os comentários aqui presentes dirão respeito única e exclusivamente à versão cinematográfica de X-Men, ignorando completamente os fatos referentes aos quadrinhos e à série animada de televisão.

`Há uma garota em Illinois que pode atravessar paredes`, diz o senador Kelly em um inflamado discurso logo no começo de X-Men. `O que a impede de entrar em um cofre de banco, na Casa Branca ou em nossos lares?`. A lógica do conservador político é perigosamente lúcida: se o mundo em que vivemos fosse habitado por pessoas que tivessem `super-poderes`, como poderíamos nos proteger contra eventuais abusos? E mais: será que estas pessoas sentiriam-se beneficiadas por seu `dom`? Ou será que julgariam terem sido amaldiçoadas pelo destino?

O fato é que raramente as produções protagonizadas por super-heróis tocam em questões como estas, preferindo concentrar a história em estereotipadas batalhas entre o bem e o mal. Mas pense bem: se você tivesse o poder de `sugar` as energias vitais de outras pessoas com apenas um leve toque de sua mão, como se sentiria? Imbatível? Superior? Ou se desesperaria por não poder encostar nas pessoas amadas sob pena de matá-las? É um dilema como este que paira sobre a cabeça de Vampira, uma jovem mutante que descobre sua condição ao beijar pela primeira vez o namorado.

Ao decidir acrescentar toques dramáticos ao seu filme, Bryan Singer elevou X-Men a um nível superior a outras produções do gênero. Além disso, como não gostar de uma produção que começa mostrando a infância sofrida de seu `vilão` em um campo de concentração nazista? Ao contrário da maioria dos caricatos vilões de quadrinhos, Magneto não é um sujeito megalomaníaco que decide simplesmente conquistar o mundo: na verdade, ele simplesmente se revolta ao perceber que está prestes a ser novamente segregado em função de sua carga genética - desta vez, os `arianos` são aqueles que possuem um DNA sem alterações. Com isso, o espectador é levado a compreender as atitudes do sujeito e até mesmo a simpatizar com sua causa, apesar de torcer para que ele aceite os conselhos de Charles Xavier, líder dos X-Men (mutantes que acreditam na convivência pacífica com o restante da sociedade), e tenha mais esperanças no mundo.

A escola dirigida por Xavier, aliás, é fantástica: ali, o professor ensina jovens mutantes a controlarem melhor seus poderes ao mesmo tempo em que oferece a eles um lar e a convivência com pessoas que enfrentam as mesmas dificuldades impostas por suas `diferenças`. Neste ponto, o diretor Singer passa a desenvolver sua história com calma e apresenta cada um de seus personagens principais com clareza e objetividade. É claro que, com isso, ele sacrifica um pouco a ação, mas esta decisão é fundamental para que consigamos compreender o universo em que a história é ambientada. Se tivesse optado simplesmente por seqüências de lutas e explosões, o cineasta acabaria alienando suas platéias - especialmente aquelas que não conheciam de antemão os poderes mutantes.

Com isso, cada um dos X-Men ganha personalidade própria na tela e, assim, compreendemos com mais facilidade o que ocorre quando, por exemplo, Vampira assume temporariamente os dons de cura de Wolverine ou quando Jean Grey usa sua telecinesia para criar estabilidade em um vôo proporcionado pelos poderes de Tempestade. É claro que o excesso de personagens acaba fazendo com que certos heróis recebam mais destaque do que outros, mas a verdade é que o roteiro é sábio ao fazer com que tenhamos maior interesse justamente por aqueles que aparecem mais ao longo da trama - e Wolverine é, sem dúvida, o mais carismático de todos, já que sua explosiva personalidade o leva a questionar até mesmo se Xavier está do lado certo ao enfrentar Magneto (além de possuir um senso de humor atípico que é responsável por algumas boas risadas do filme).

Por outro lado, a Irmandade comandada por Magneto é pouco desenvolvida e jamais temos uma clara percepção de como o `vilão` (insisto em usar as aspas em função de suas motivações, que não deixam de ser nobres) conseguiu seus três asseclas - dos quais o maior destaque é Mística, que possui o poder de assumir a forma de quem quiser. Mesmo assim, a moça praticamente não abre a boca ao longo da história, o que é uma pena. Assim, acabamos tendo a impressão de que eles não têm muito interesse na causa mutante, associando-se a Magneto apenas pelo prazer de provocar confusão.

Mas este é um pecadilho em meio a tantas virtudes - entre as quais figura a irreverência com que Singer assume estar lidando, no final das contas, com personagens extraídos dos quadrinhos. Um dos momentos mais curiosos (e engraçados) de X-Men reside no deboche de Wolverine ao ouvir nomes tão estapafúrdios como Magneto, Dentes-de-Sabre e Ciclope - ao mesmo tempo em que ignora seu próprio codinome (na realidade ele se chama Logan).

Outro ótimo elemento da história é a relação de amizade-receio-desprezo existente entre Xavier e Magneto: amigos de longa data, eles concordam que a sociedade não deveria discriminar os mutantes (Xavier chega a dizer que sente pena do `pobre-coitado que tentar invadir sua escola`). No entanto, a postura dos dois homens é radicalmente oposta quanto à forma de lidar com o assunto: enquanto o professor X deposita suas esperanças no bom-senso da humanidade, Magneto decide usar todos os recursos necessários para garantir a sobrevivência de sua espécie e lamenta que o amigo não seja capaz de `fazer sacrifícios` pela causa mutante. Com isso, o espectador envolve-se ainda mais nos conflitos propostos pela trama ao perceber o grande respeito existente entre os dois adversários.

Mas os fãs dos filmes de ação não precisam se preocupar: Bryan Singer entremeia as cenas mais `cerebrais` de X-Men com ótimas seqüências de luta - que acabam sendo ainda mais beneficiadas pelo fato de realmente conhecermos cada personagem. Ah, sim: estaríamos cometendo uma incrível injustiça se deixássemos de mencionar o excepcional trabalho de maquiagem feito por Ann Brodie, que confere ainda mais personalidade a cada mutante do filme (a exceção fica por conta da ridícula peruca de Halle Berry).

X-Men é, portanto, uma grata surpresa em um ano tão decepcionante quanto 2000, que ainda não conseguiu gerar nenhuma produção do calibre de Matrix, À Espera de um Milagre, Quero Ser John Malkovich, O Sexto Sentido ou O Informante. Aliás, para tornar tudo ainda mais instigante, o roteiro deixa várias perguntas sem resposta, como, por exemplo, a verdade sobre o misterioso passado de Wolverine. Agora, só nos resta esperar por X-Men 2, que, torçamos, fará jus às nossas expectativas e desenvolverá ainda mais estes personagens tão interessantes - além de nos apresentar a novos mutantes, é claro. Afinal de contas, a `evolução` não pode parar.
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11 de Agosto de 2000

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.