Críticas por Pablo Villaça

Poster: A Garota Desconhecida
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
23/02/2017 05/10/2016
Distribuidora
California Filmes

 

 


A Garota Desconhecida
La fille inconnue

A Garota Desconhecida

Dirigido e roteirizado por Luc e Jean-Pierre Dardenne. Com: Adèle Haenel, Jérémie Renier, Olivier Gourmet, Olivier Bonnaud, Louka Minnella, Christelle Cornil, Nadège Ouedraogo, Pierre Sumkay, Yves Larec, Ben Hamidou, Laurent Caron, Fabrizio Rongione, Jean-Michel Balthazar, Thomas Doret, Marc Zinga.

A origem como documentaristas dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne é inconfundível: responsáveis por longas admiráveis como O FilhoA Criança Dois Dias, Uma Noite, os cineastas belgas têm uma linguagem narrativa claramente calcada no realismo, descartando histórias de gênero, empregando essencialmente trilhas não-diegéticas e favorecendo longas tomadas que acompanham seus personagens em situações naturalistas que, quando trazem muitas intervenções de montagem, são construídas através de sequências de elipses.

Hábeis em extrair drama de indivíduos comuns, os diretores aqui seguem a jovem médica Jenny (Adèle Haenel), que, atendendo em uma pequena clínica localizada em uma região humilde da cidade, certa noite ouve a campainha do consultório tocar e decide não responder. Quando descobre, no dia seguinte, que a moça que tentara chamar sua atenção acabara morrendo de forma violenta pouco depois, Jenny se torna obcecada em descobrir sua identidade, já que ela não trazia qualquer documento.

Esta investigação particular, porém, é apenas uma desculpa para que os diretores façam aquilo em que são mestres: observem o comportamento das pessoas que cruzam a tela. Para os Dardenne, o ato de medir a temperatura de alguém é o suficiente para revelar algo sobre a personalidade da médica e, assim, quando esta sorri levemente ao receber uma boa notícia sobre o exame de um paciente ou oferece o braço como apoio para uma senhora em seu consultório, percebemos seu profissionalismo e seu carinho por aqueles que a procuram.

Como é fácil concluir, este tipo de abordagem narrativa exige performances minimalistas por parte do elenco, já que, dentro da lógica visual dos cineastas, gestos pequenos já são capazes de provocar impacto – algo que Haenel compreende bem, evocando muito mais através de seus olhares do que de expressões faciais e corporais que chamem a atenção para si mesmas (e, desta maneira, a atriz entra no rol de grandes interpretações arrancadas pelos belgas e que incluem Marion Cotillard, Cécile De France, Arta Dobroshi – o que houve com ela, aliás? -, Déborah François e Émilie Dequenne, além, claro, de Olivier Gourmet e Jérémie Renier, regulares nas produções dos irmãos).

E, mesmo com todas estas virtudes habituais, A Garota Desconhecida falha em repetir o impacto de vários dos longas anteriores dos Dardenne, já que parece retraçar caminhos já percorridos por estes. Sim, provavelmente é injusto compará-los a si mesmos, mas quando artistas expressivos como estes avançam na carreira, é normal que esperemos que continuem a se desafiar – e, aqui, eles parecem ter se acomodado um pouco demais.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2016.

18 de Maio de 2016

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.