Críticas por Pablo Villaça

Poster: Velozes e Furiosos 8
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
13/04/2017 14/04/2017
Distribuidora
Universal

 

 


Velozes e Furiosos 8
The Fate of the Furious

Velozes e Furiosos 8

Dirigido por F. Gary Gray. Roteiro de Chris Morgan. Com: Vin Diesel, Dwayne Johnson, Michelle Rodriguez, Tyrese Gibson, Ludacris, Scott Eastwood, Jason Statham, Nathalie Emmanuel, Elsa Pataky, Luke Evans, Kristofer Hivju, Kurt Russell, Helen Mirren e Charlize Theron.

Como os heróis da franquia Velozes & Furiosos foram de ladrões de caminhões a superagentes responsáveis por evitar a 3a. Guerra Mundial e um holocausto nuclear é um mistério que nem mesmo vendo os oito filmes da série somos capazes de esclarecer. Quem anteciparia, assistindo às corridas de rua do original, que 16 anos depois ainda estaríamos acompanhando as aventuras daqueles personagens ao redor do planeta?

Pois o fato é que estamos e que algo surpreendente aconteceu ao longo desta década e meia: a partir do quinto capítulo (que segue como o melhor), os responsáveis pela “saga” protagonizada por Dominic Toretto (Diesel) descobriram o tom mais apropriado para estas histórias, abraçando o absurdo e o novelesco com a mais pura convicção. Assim, tivemos personagens ressuscitados, traições, casos de amnésia, irmãos vingativos, vilões que se tornaram heróis e muitos e muitos diálogos que estabeleceram o roteirista Chris Morgan, que entrou no projeto em Desafio em Tóquio e jamais saiu, como uma espécie de “autor” cujas marcas registradas são a idiotice contagiante (como escrevi ao falar de Velozes 6) e a capacidade de conceber perseguições cada vez mais ridículas e, consequentemente, divertidas.

Claro que algumas coisas permaneceram idênticas: a recorrência de planos-detalhe que se concentram nas bundas de mulheres vestindo shortinhos mínimos, imagens de marmanjos babando em cima dos motores expostos de carros com os capôs abertos (o mais puro car porn), muitas encaradas entre motoristas rivais durante disputas em altíssima velocidade e, evidentemente, inserts de marchas sendo trocadas, de pés mergulhando no acelerador e de ponteiros de velocímetros disparando enquanto o modo “turbo” é acionado. Porém, se antes estes elementos eram a essência da série, agora parecem incluídos apenas como forma de evitar que os fãs saiam decepcionados, já que a lógica é impactar pela magnitude cada vez maior da ação: “No último, tínhamos carros saltando de um prédio a outro, então agora... que tal centenas de veículos disparados por Nova York? E por que não um tanque? E já que há um tanque, por que não um submarino?”.

Rodada em locações que permitem que cada sequência se torne única de algum modo (os planos aéreos de Havana, neste oitavo capítulo, são deslumbrantes), a franquia vem se tornando cada vez mais impressionante em seus aspectos técnicos – e aqui, por exemplo, a fotografia de Stephen F. Windon é infinitamente mais bela do que tinha direito de ser em uma produção mais preocupada com capotagens e explosões (especialmente em suas lindas contraluzes e nas cores intensas e quentes que trazem calor até a uma paisagem gelada). Por outro lado, o óbvio excesso de ramping (mudança no frame rate durante um plano, criando momentaneamente o efeito de câmera lenta, por exemplo) acaba enfraquecendo o impacto que a técnica busca – ressaltar pontos específicos da ação -, ao passo que o recurso de interromper a trilha depois de um crescendo a fim de salientar a força das explosões já virou clichê há muito tempo.

Não que o filme tenha medo de clichês, pois não tem: em certo momento, um dos personagens chega a apontar como certa situação representa um chavão. Da mesma forma, quando alguém apresenta uma missão para o agente Luke Hobbs (Johnson, sempre um poço de carisma), é quase possível ouvir os realizadores rindo de si mesmos enquanto as instruções vêm acompanhadas do inevitável aviso de que “se (ele) for capturado, negaremos qualquer envolvimento”. Aliás, o roteiro e o elenco abraçam cada fala, por mais tola ou batida que seja – e notem, por exemplo, a pausa dramática de Johnson antes de dizer “Dominic Toretto just went rogue” ou o excesso proposital com que um outro personagem reage a uma manobra do herói: “Impossível!”.

Ainda assim, há instantes nos quais estas obviedades prejudicam em vez de divertir: quando, no primeiro ato, Letty (Rodriguez) pergunta se o namorado não tem vontade de ser pai, sabemos imediatamente para onde a história vai caminhar e inferimos o destino de outra personagem. Além disso, o filme traz diversas piadas que antecipamos com tanta facilidade que sua eficácia se perde consideravelmente, como ao vermos Hobbs fazendo um discurso de incentivo a um grupo que não vemos ou ao ouvirmos Little Nobody (Scott Eastwood, filho de Clint) pressionando o agente.

Bem-sucedida ao ponto de ser capaz de atrair nomes cada vez maiores para suas continuações, a série Velozes e Furiosos aqui chega a se dar ao luxo de incluir Helen Mirren numa quase ponta (bem divertida, por sinal) e de trazer Charlize Theron como uma vilã que só não soa verdadeiramente ameaçadora por sabermos como seus planos são disparatados e servem apenas como desculpa para que os heróis possam saltar de um continente a outro.

Criando sequências que só poderiam ser descritas como “Guerra Mundial Z com carros no lugar de zumbis” e “um carro-Wolverine sendo atingido por vários arpões”, Velozes e Furiosos 8 é mais longo do que deveria (erro comum na série), tem personagens em excesso (Kurt Russell só retorna porque é... bom, Kurt Russell, então não vou reclamar) e não entende que certas piadas já se desgastaram ao longo dos anos (como as brigas entre Ludacris e Tyrese Gibson) – e, no entanto, quando nos encontramos muito próximos do tédio, subitamente nos vemos surpresos e acompanhando tanques e submarinos disputando corrida num lago congelado enquanto uma lamborghini laranja é arrastada por um cabo sob a água.

E nem cheguei a falar do bebê.

12 de Abril de 2017

(Sabem o que também sobrevive há quase 20 anos? O Cinema em Cena. Mas precisamos de sua colaboração para isso. Assim, se você gostou deste texto - e se curte as críticas que lê aqui -, saiba que ficamos bastante felizes, pois o site precisa de seu apoio para continuar a existir e a produzir conteúdo de forma independente. Para saber como ajudar, basta clicar aqui - só precisamos de alguns minutinhos para explicar. E obrigado desde já pelo clique!)

Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.