Críticas por Pablo Villaça

Poster: Até o Último Homem
Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico
07/02/2017 04/11/2016
Distribuidora
Diamond Films

 

 


Até o Último Homem
Hacksaw Ridge

Até o Último Homem

Dirigido por Mel Gibson. Roteiro de Robert Schenkkan e Andrew Knight. Com: Andrew Garfield, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Teresa Palmer, Nathaniel Buzolic, Luke Bracey, Ben Mingay, Luke Pegler, Michael Sheasby, Goran D. Kleut, Milo Gibson, Matt Nable, Richard Roxburgh, Robert Morgan, Sam Worthington e Vince Vaughn.

Mel Gibson é um puta louco do caralho.

Haveria formas mais elegantes de descrevê-lo e de abrir este texto, admito, mas nenhuma resumiria com propriedade o que senti durante a projeção de seu mais recente filme, cujo roteiro parece ter sido escrito sob medida para satisfazer três das grandes obsessões autorais de Gibson: violência, martírio e cristianismo.

Desde sua estreia na função em O Homem Sem Face, o diretor sempre demonstrou interesse por protagonistas submetidos a terríveis punições físicas e/ou a humilhações públicas, acompanhando suas trajetórias com uma intensa voracidade pela tortura, passando por Coração Valente, Apocalypto e A Paixão de Cristo até chegar a este Até o Último Homem, que, roteirizado por Robert Schenkkan e Andrew Knight, conta a história real de Desmond Doss (Garfield), um adventista devoto que se alistou no exército norte-americano durante a Segunda Guerra embora se recusasse terminantemente a tocar em qualquer arma. Hostilizado pelos colegas de pelotão, pelo sargento responsável por seu treinamento (Vaughn) e até mesmo por seu capitão (Worthington), o rapaz insistiu em ser enviado como paramédico para os campos de batalha, onde viria a realizar uma proeza tão absurdamente heroica que, mesmo farto deste tipo de recurso, apreciei ver registros documentais de sua jornada ao fim do filme, já que, de outro modo, teria dificuldades de acreditar naquele relato.

Relativamente simples de um ponto de vista estrutural, a narrativa se divide em duas partes: a primeira, que ocupa cerca de 50 dos 139 minutos de projeção, se concentra em apresentar Desmond, seus relacionamentos e seu treinamento, ao passo em que a segunda foca no combate em si (e que, por sua vez, é composto por três longas sequências). Fundamental ao estabelecer o passado do protagonista e alguns dos elementos que motivam o tipo de fé que não admite concessões, a longa introdução pinta também um retrato melancólico dos efeitos da guerra sobre os combatentes através da figura grotesca e trágica de Tom Doss, pai de Desmond, que é vivido por um Hugo Weaving hábil ao sugerir o ódio que o sujeito sente de si próprio sem que isso desculpe seus abusos contra a família. Já Teresa Palmer, como o interesse romântico do herói, projeta confiança completa nas decisões do amado, mesmo que não as compreenda totalmente – e se o espectador também acredita na pureza do rapaz (em vez de julgá-lo louco como vários dos outros personagens), isto se deve a uma performance admirável de Andrew Garfield, que o encarna com um olhar sempre plácido e um sorriso que projeta ingenuidade e confiança. Nas mãos de um ator menos inteligente, Desmond poderia facilmente se tornar uma caricatura, um símbolo artificial de religiosidade, mas Garfield não só evita esta armadilha como ainda confere a ele um vigor físico que surpreende em alguém tão franzino.

Menos sutis, por outro lado, são as composições dos atores que interpretam os companheiros de pelotão do jovem, que já surgem em cena dizendo ou fazendo coisas que obviamente têm o propósito de deixá-los marcados na mente do público, separando-os uns dos outros (num dos poucos momentos realmente frágeis do longa). Ainda assim, Gibson e seu elenco trazem energia à sequência do treinamento mesmo que, aqui e ali, o sargento de Vince Vaughn soe como uma imitação tímida daquele interpretado por R. Lee Ermey em Nascido para Matar, com direito até mesmo à declaração de amor ao rifle que carrega (mas sejamos justos: dificilmente alguém conseguirá superar a caracterização icônica presente no filme de Kubrick). De todo modo, este segmento da narrativa exerce bem a função de ilustrar a determinação de Desmond e a imensa pressão que este sofre para abandonar o exército.

E é aí que chegamos ao palco da guerra e Mel Gibson pode se dedicar ao espetáculo de sangue e vísceras que se tornou sua marca registrada, parecendo sentir um prazer inesgotável em criar formas novas de surpreender e chocar o espectador: aqui, vemos um corpo em chamas sendo expelido de uma explosão; ali, ratos devorando os cadáveres de soldados caídos; acolá, um combatente que levanta a cabeça um pouco mais do que deveria e a perde graças ao efeito destruidor da bala de um atirador de elite. Pausando a ação ocasionalmente para permitir interações entre os personagens que fortaleçam a ligação do espectador com estes, Gibson logo retorna ao confronto, alternando entre quadros abertos que evocam o caos, o desespero e a escala da batalha e outros mais fechados que capturam instantes particulares como um soldado que derruba acidentalmente o rifle e paga por isso ou outro que encontra uma maneira imaginativa de diminuir o efeito da explosão de uma granada.

Mas o diretor adota esta abordagem gráfica não de forma gratuita ou como um mero prazer sádico; afinal, isso é a guerra: corpos partidos, rostos destruídos e poças de sangue. Além disso, a estratégia de Gibson é importante também ao ressaltar a dimensão do sacrifício de Desmond e sua coragem. Em contrapartida, o modo como Até o Último Homem retrata os soldados japoneses é obviamente problemático, já que estes surgem quase como monstros de filmes de terror (“Ninguém pode sobreviver àquilo”, diz alguém ao ver a artilharia norte-americana bombardeando os pontos onde os inimigos se encontram – e é claro que eles sobrevivem). Sim, em duas ou três cenas, Gibson procura humanizar os oponentes, mas estes esforços são poucos e pequenos quando comparados ao restante da narrativa.

Retornando à iconografia religiosa ao trazer Desmond “curando” um soldado da cegueira e ao parecer elevar-se aos céus em outro ponto da projeção, Até o Último Homem é um ótimo exemplo do que acontece quando o material certo cai nas mãos de um realizador sintonizado com seus temas.

Pois Mel Gibson pode até não ser o melhor dos seres humanos, mas não há como negar que, como diretor, ele é excepcional. Ou você consegue pensar em uma maneira melhor de descrevê-lo?

07 de Fevereiro de 2017

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Sobre o autor da crítica:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.