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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
07/06/2018 01/01/1970 5 / 5 / 5
Distribuidora
Imovision

As Boas Maneiras
As Boas Maneiras

Dirigido e roteirizado por Juliana Rojas e Marco Dutra. Com: Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Cida Moreira, Andréa Marques, Felipe Kenji, Nina Medeiros, Neusa Velasco, Gilda Nomacce, Naloana Lima e Miguel Lobo.

“Olhos grandes... boca grande... mãos grandes.”

É desta forma que o médico que acompanha a gestação de Ana (Estiano) descreve a evolução de seu bebê durante um ultrassom – e se esta passagem remete às três famosas perguntas feitas por certa personagem clássica das fábulas, a referência é intencional, já que As Boas Maneiras assume elementos fabulescos para contar uma história que explora lendas populares, convenções de gênero(s) e uma estética com traços fantasiosos, saltando com facilidade notável entre o terror, o estudo de personagem, o drama, o romance e até mesmo o musical (com um toque de teatro grego ao resumir seu coral a uma moradora de rua).

Dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, o projeto marca o retorno da dupla à direção sete anos depois de dividirem a função no ótimo Trabalhar Cansa, que, como As Boas Maneiras, também brincava com o cinema de gênero para criar uma narrativa densa e tematicamente rica (entre os dois projetos, Rojas comandou o instigante Sinfonia da Necrópole, ao passo que Dutra realizou o ótimo O Silêncio do Céu e o curioso Quando Eu Era Vivo). Também escrito pelos diretores, esta nova obra pode ser dividida em duas metades de duração similar: na primeira, conhecemos Clara (Zuaa), que responde ao anúncio publicado por Ana, que, grávida, precisa de uma babá/faz-tudo para ajudá-la praticamente em tempo integral, já que, vinda do interior, está morando sozinha em São Paulo e lidando com a gestação sem o apoio da família (prestes a se casar, ela engravidou de um desconhecido, o que foi o bastante para seu pai conservador mandá-la embora). Aos poucos, as duas mulheres vão se aproximando enquanto Ana passa a exibir sinais inquietantes (estou usando um eufemismo gigantesco) que sugerem algo estranho com o bebê. Já a segunda parte... bom, esta discutirei mais abaixo.

Ancorado na dinâmica entre as duas personagens, esta parte inicial do longa é instrumental para levar o espectador a se importar com aquelas mulheres e seus destinos, funcionando também para criar um universo convincente no qual as revelações posteriores se encaixem sem causar estranhamento. Para atingir este objetivo, o filme investe nas performances naturalistas de Marjorie Estiano e Isabél Zuua, que são, em última análise, as principais armas do projeto. Conferindo carisma e pathos a Ana, que poderia facilmente ter se tornado uma jovem mimada e antipática em sua obsessão consigo mesma e com seus próprios dramas, Estiano transforma a garota em uma figura multifacetada e trágica – e quando lhe perguntam sobre o pai de seu filho, por exemplo, sua resposta é emblemática ao converter suas circunstâncias em um modo de vida: “Eu sou sozinha” (atenção no verbo). Empregando o sotaque de sua personagem para lhe conferir certa ingenuidade, a atriz é capaz de saltar entre momentos de leveza (suas sessões diárias de ginástica) e horror (seus “transes”) com desembaraço absoluto – e os ótimos figurinos de Kiki Orona enriquecem a performance ainda mais, já que basta vermos Ana dançando em seu vestido justo e suas longas botas para sabermos quem ela é e a juventude recém-perdida da qual sente tanta falta. Aliás, Estiano torna a moça tão marcante que sua ausência se torna um peso que molda todas as cenas nas quais não se encontra.

Enquanto isso, Zuaa, já deslumbrante em Joaquim, concebe Clara como uma mulher cuja introspecção é, ao seu próprio modo, um escudo contra a frieza e a hostilidade de um mundo que a vê como inferior em função da cor de sua pele e de sua condição financeira (notem como, logo no início, o porteiro do prédio automaticamente a instrui a usar o elevador de serviço). Da mesma forma, é pertinente observar como seu distanciamento aplica-se também à sua vida pessoal, desde as poucas (e hostis) palavras que troca com sua senhoria, Dona Amélia (Moreira), até a resistência com a qual recebe as cantadas de uma desconhecida em um bar (Gilda Nomacce, que esteve também em Trabalhar Cansa e Sinfonia da Necrópole). Construindo boa parte de sua atuação a partir do olhar de Clara (e da suavização gradual deste), Zuua sugere com delicadeza a abertura da personagem à Ana e o carinho que passa a sentir por esta, sendo importante também sua transição física e emocional na segunda metade da projeção, quando passa a sorrir e a agir com leveza graças ao amor que sente pelo filho Joel. E por falar neste, o jovem Miguel Lobo (se acha o nome apropriado, saiba então que a responsável pelo casting se chama Alice Wolfenson), em sua estreia no Cinema, faz um excelente trabalho ao retratar a ingenuidade de Joel e seu amor pela mãe ao mesmo tempo em que ilustra sua frustração crescente com sua condição e com as perguntas que Clara jamais parece responder.

Adotando uma abordagem corajosa ao abraçar a estilização em vários dos matte paintings usados para criar os prédios e partes de São Paulo vistos ao fundo de alguns planos (como através das janelas do apartamento de Ana), Rojas e Dutra empregam esta estética que remete ao fabulesco para realçar o tom fantástico da narrativa, mas ainda com um pé na realidade. De modo similar, o shopping que abriga partes importantes da história mantém esta mistura ao surgir quase como um palácio de vidro chamado Bosque de Cristal (sim, “bosque” como aqueles que ambientam tantas e tantas fábulas), ao passo que os planos gerais que expõem o contraste entre a São Paulo dos ricos e a dos pobres, separadas pelo rio, são não apenas belos como tematicamente eficazes.

No entanto, o design de produção de Fernando Zuccolotto impressiona não apenas em seus elementos mais chamativos – como os descritos acima -, mas também naqueles mais sutis, como na utilização do azul, do sépia/laranja (em diversas variações tonais) e do branco, colaborando para criar uma unidade estética coerente que também ilustra a evolução da história e dos personagens. O apartamento de Ana, por exemplo, tem as paredes azuis e elementos sépia/laranja como o móvel próximo à porta de entrada, abajures e o lustre, num jogo refletido também nos calçados da personagem (notem a caixa de sapatos na qual ela pede que Clara guarde sua bota antiga e repare também nas cores dos dois pares) – e, assim, é prazeroso constatar a rima visual com as paredes repintadas do pequeno barracão ocupado por Clara e Joel, anos depois, e com os móveis e outros objetos ali vistos (o colchão laranja, a blusa com detalhes sépia e assim por diante). Tampouco é acaso que a caixinha de música que traz um cavalo branco (lembrança do animal favorito de Ana) seja pintada de azul, fortalecendo a ligação entre as cores e as duas mulheres, bem como seus temperamentos (Ana tem uma índole mais “quente”, festiva, enquanto Clara é mais “fria”, distante) – um simbolismo que se escancara no belíssimo plano no qual a gestante atravessa o portão da garagem, entrando sob uma luz sépia/laranja enquanto Clara é vista do outro lado do quadro, mergulhada em azul. Para completar, as luzinhas coloridas no quartinho de Joel são um toque ao mesmo tempo natural e profundamente tocante.

Hábeis em manter o espectador tenso mesmo quando este não consegue precisar exatamente de onde vem a “ameaça”, Rojas e Dutra alcançam este efeito através de decisões inteligentes como a de jamais mostrarem o rosto do médico que atende Ana ou ao manterem a câmera no rosto de Clara um ou dois segundos a mais do que o necessário para sugerir seu incômodo diante das ações da patroa. Aliás, a montagem de Caetano Gotardo é brilhante, criando suspense através de planos mais longos ou gerando um choque divertido em função do corte inesperado entre um quadro chocante, sangrento, e outro no qual vemos alguém dançando alegremente. O humor em As Boas Maneiras, por sinal, vem sempre de forma repentina, seja ao trazer uma turba raivosa carregando luzinhas de festa em vez de tochas, seja ao enfocar os movimentos mecânicos da segurança de um shopping (e o fato de esta suspeitar de duas crianças apenas por notar que são pobres é outro componente das alegorias sociais da obra).

Igualmente competente em seus efeitos digitais e na utilização de bonecos animatrônicos, As Boas Maneiras é um dos melhores filmes brasileiros dos últimos anos (e a competição é ferrenha), fazendo uma mistura atípica de gêneros, estilos e convenções para criar um conjunto harmonioso e tão brilhante quanto seu magnífico, comovente e inesquecível plano final.

28 de Junho de 2018

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Assista também ao videocast (sem spoilers) sobre o filme:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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