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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
13/06/2019 22/03/2019 4 / 5 / 5
Distribuidora
Universal

Dor e Glória
Dolor y gloria

Dirigido e roteirizado por Pedro Almodóvar. Com: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Leonardo Sbaraglia, Asier Etxeandia, Cecilia Roth, Raúl Arévalo, Nora Navas, Agustín Almodóvar e Julieta Serrano.

Até 2006, quando lançou o ótimo Volver, o espanhol Pedro Almodóvar parecia quase à prova de falhas. A esta altura, já havia dirigido obras ímpares como Matador, Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos, Ata-me, Tudo Sobre Minha Mãe, Fale com Ela e Má Educação – uma lista de fazer inveja em qualquer cineasta -, mas a partir daí os resultados começaram a piorar consideravelmente e sua estética particular deixou de parecer assinatura e se transformou em maneirismo. Ao mesmo tempo, depois de demonstrar um equilíbrio admirável no melodrama, ele perdeu a mão de vez em desastres como Abraços Partidos e Julieta, tropeçando também no humor forçado de Os Amantes Passageiros. Sim, no meio disso tudo veio o soberbo A Pele que Habito, um dos melhores de sua carreira, mas os equívocos já haviam se tornado numerosos o bastante para que seu novo filme, Dor & Glória, se tornasse uma incógnita.

E é um alívio vê-lo de volta à boa forma.

Desta vez, o protagonista é Salvador Mayo (Banderas), um diretor e roteirista que, atormentado por dores crônicas e emocionais, decidiu se afastar temporariamente do Cinema e já se encontra há três anos sem se dedicar a um projeto. Quando um de seus primeiros trabalhos ganha uma restauração da cinemateca espanhola, que também o convida para apresentar as sessões ao lado do ator Alberto Crespo (Etxeandia), ele revisita o filme e, para sua surpresa, gosta do que vê, já que na época do lançamento original havia brigado com o protagonista por detestar sua performance. A partir daí, acompanhamos o sujeito enquanto restabelece contato com Alberto, entrega-se ao vício em heroína, descobre novos problemas de saúde e reflete sobre a infância pobre ao lado da mãe, Jacinta (Cruz).

É aqui que o espectador mais atento notaria a distância de três anos entre Dor & Glória e Julieta, filme anterior de Almodóvar, e também o fato de que seu sobrenome está todo contido em “Salvador Mayo”. Encarnado por Banderas como um homem triste, solitário e exausto o tempo todo, o personagem é ao mesmo tempo uma representação de paralisia criativa e das dores e ressentimentos que se acumulam ao longo da vida e subitamente retornam para cobrar um preço, sendo magistral a disciplina do ator ao ilustrar a natureza contida do personagem, que mesmo ao expressar suas mágoas busca tratá-las como algo inevitável a ser eventualmente compartimentalizado e deixado para trás. Com uma postura sempre rígida em função das dores nas costas, Salvador surge como um homem sem prazeres – e até suas experiências com a heroína soam desinteressadas e distantes. Por outro lado, seu afeto pela mãe é visível, sendo as cenas entre Banderas e a veterana Julieta Serrano, que interpreta a versão idosa de Jacinta, algumas das melhores da narrativa, contendo doçura e rancores numa mistura tocante (aliás, é a terceira vez que os dois interpretam mãe e filho para Almodóvar).

Dominando cada segundo que está em cena, Antonio Banderas confere uma delicadeza linda ao personagem, disparando um olhar infantilizado em direção à mãe, por exemplo, que resume sem necessidade de palavras como se posiciona diante desta. Da mesma maneira, a cena que divide com Leonardo Sbaraglia, que interpreta um antigo amor, é construída com paciência pelos dois atores, pelo diretor e pela montadora Teresa Font, que, juntos, condensam décadas de conversas perdidas em alguns minutos – e novamente os olhares são determinantes para o êxito desta magnífica passagem, revelando de expectativas a frustrações, passando por feridas reabertas e potencialmente cicatrizadas, lágrimas e sorrisos, sem a necessidade de palavras ou movimentos. Fechando o elenco, Penélope Cruz projeta intensidade, severidade e ternura na mesma medida, ganhando uma dimensão mais ampla e ambígua graças ao surpreendente plano final da projeção.

Fluindo com ritmo pelas duas linhas temporais, Dor & Glória justifica sua estrutura não apenas nos já mencionados segundos finais do longa, mas ao oferecer pinceladas de informações que enriquecem as composições dos atores – e quando Banderas sorri rapidamente ao ver a pintura de um céu retratado através de grades no teto, por exemplo, compreendemos a lembrança que aquilo recupera e por que ele a apreciaria. Aliás, o design de produção do filme, como já seria de se esperar, é estupendo, imprimindo personalidade ao amplo e bem decorado apartamento de Salvador (além de sugerir sua solidão) e um primitivismo atraente ao seu lar de infância.

Não posso dizer, claro, o quão autobiográfico é Dor & Glória, mas se há algo que Salvador e Pedro certamente aprenderam bem ao longo dos anos é como digerir suas dores e transformá-las em Arte.

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Cannes 2019.

17 de Maio de 2019

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

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