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Cinco quadrinhos que merecem ganhar adaptações cinematográficas Clube dos Cinco

Muitas histórias em quadrinhos já foram adaptadas em longas-metragens elogiados, como V de Vingança, Watchmen, Kick-Ass, Oldboy e Sin City. Mas os bons leitores de HQs sabem que ainda há uma prateleira inteira de grandes obras que podem dar origem a bons filmes. Pensando nisso, a coluna Clube dos Cinco escolheu alguns exemplos de quadrinhos renomados que, talvez um dia, podem chegar às telas de cinema.

Tentamos focar em trabalhos que se afastam do universo dos super-heróis (mas que são igualmente fantásticos, como Reino do Amanhã e Batman: A Piada Mortal) e não consideramos HQs cujas adaptações estão acontecendo no momento (como Fábulas e Sandman).

 

MAUS, de Art Spiegelman (publicado entre 1980 e 1991)

Em Maus, considerada uma das principais graphic novels da história e a primeira a ter ganhado o importante Prêmio Pulitzer, o próprio Spiegelman entrevista seu pai sobre suas experiências como um judeu tentando sobreviver ao Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial. Narrativas sobre esse período sempre chamam atenção e rendem momentos delicados, mas mais do que um retrato dos horrores da guerra, a obra consegue ser um tocante relato do amor de um homem por uma mulher, além de abordar o complicado relacionamento entre pai e filho.

Isso tudo com um diferencial marcante: a antropomorfização dos personagens. Ratos (judeus), gatos (alemães), porcos (poloneses) e cachorros (norte-americanos) são alguns dos animais que conduzem a trama metaforicamente por episódios como o confinamento em Auschwitz, as fugas impossíveis dos nazistas e o sofrimento pelas condições de subsistência que refletem a frase de Adolf Hitler no início da história: “Sem dúvida, os judeus são uma raça, mas não são humanos”.

Por conta da presença dos animais, um live-action de Maus pode ser um pouco complicado e talvez a melhor opção seja uma animação adulta. Na cadeira de diretor, podemos colocar Ari Folman, que mostrou seu talento com Valsa com Bashir e está desenvolvendo uma adaptação de O Diário de Anne Frank, o que significa que ele já tem familiaridade com o tema. Outra boa alternativa é Charlie Kaufman (Sinédoque, Nova York), que vem recebendo elogios com seu inédito stop-motion Anomalisa.

 

DAYTRIPPER, de Gabriel Bá e Fábio Moon (publicado em 2011)

Sucesso nos EUA, onde foi originalmente lançado, e vencedor de dois Eisner Awards (uma espécie de Oscar dos quadrinhos), Daytripper exportou para o restante do mundo nossos cenários tanto catastróficos quanto paradisíacos, em um retrato ora desiludido ora esperançoso da realidade, através do traço despojado dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon.

A HQ explora diferentes fases da vida de um escritor de obituários, Brás de Oliva Domingos, nome que referencia o "defunto-autor" de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O protagonista enterra cada dia com sua existência e cria assim uma profunda metáfora da efemeridade, construindo uma antítese cotidiana entre a vida e a morte. Acompanhamos o nascimento de seu filho, o incômodo na sombra do pai e a relação difícil com a esposa, entre outros episódios.

Para ajudar na direção e no roteiro do que seria uma justa adaptação da obra para as telonas, sugerimos o também brasileiro Otto Guerra, conhecido pelas animações Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll (2006) e Até que a Sbórnia nos Separe (2013). Daytripper também pode ganhar um live-action nas mãos de Jim Jarmusch (Flores Partidas) ou Michel Gondry (Sonhando Acordado).

 

BLACK HOLE, de Charles Burns (publicado entre 1995 e 2005)

Chris, Rob, Keith e Eliza vivem nos subúrbios de Seattle, em meio ao contexto histórico da bombástica revolução sexual nos anos 70, quando, em paralelo à vibe do amor livre, a sociedade foi obrigada a atentar para os perigos do sexo sem proteção. Na história, uma grotesca DST denominada “bug” causa mutações (como o surgimento de uma boca no pescoço e de uma cauda nas costas) em jovens sexualmente ativos, e uma vez tendo contraído a terrível doença, alguns optam por se isolar em um acampamento marginal longe da cidade. Nessa metafórica narrativa que aborda a transição para a vida adulta, cada um dos protagonistas reage de forma diferente aos efeitos da moléstia.

Em 2005, Alexandre Aja (Viagem Maldita) foi considerado para rodar uma versão cinematográfica dos quadrinhos com roteiro feito pelo consagrado autor Neil Gaiman ao lado de Roger Avary (Pulp Fiction: Tempo de Violência). Alguns anos depois, o projeto foi assumido por David Fincher (Clube da Luta), mas acabou não vingando, o que deixa espaço para as nossas escolhas de diretores: Harmony Korine, devido aos pontos em comum entre Black Hole e Kids (roteirizado por ele), ou David Cronenberg, pela usual estética perturbadora de seus trabalhos.

E mais um detalhe: para convencer o estúdio de que ele era a melhor escolha para comandar a adaptação, Rupert Sanders (Branca de Neve e o Caçador) lançou em 2010 um curta-metragem para maiores inspirado nos quadrinhos (veja aqui).

 

FUN HOME - UMA TRAGICOMÉDIA FAMILIAR, de Alison Bechdel (publicado em 2006)

Em uma funerária onde trabalhava uma nada tradicional família norte-americana em meados dos anos 60, muitas vivências intensas, confissões extremamente íntimas e descobertas sexuais são retratadas com ousadia, honestidade e de forma não linear pela própria Alison Bechdel a partir de fragmentos de seu remoto diário. A autora descreve a complexa relação com o distante pai, o meticuloso intelectual Bruce Bechdel, que revelou sua homossexualidade quando descobriu que a filha era lésbica e logo depois faleceu de forma misteriosa. O convívio entre ambos inspirou grande parte dos relatos e das sagazes referências literárias – entre elas Scott Fitzgerald, Marcel Proust e James Joyce – neste primoroso memorial escrito e ilustrado durante sete anos com um absurdo nível de detalhamento.

Por enquanto, Fun Home foi transformado apenas em um musical no teatro, mas pelo tom feminista e sarcástico e por se tratar de uma obra autobiográfica, sugerimos para uma merecida adaptação cinematográfica a diretora iraniana Marjane Satrapi, que realizou com maestria um longa-metragem baseado em sua subversiva e particular graphic novel Persepolis. Caso ela não esteja disponível, indicamos Ava DuVernay, do bem sucedido Selma: Uma Luta Pela Igualdade, para a missão.

Curiosidade: o nome da cartunista lhe parece familiar? Uma irônica tirinha da série em quadrinhos Dykes to Watch Out For, que possui temática homossexual e foi criada por Alison, é responsável pelo “teste de Bechdel”, uma compilação de critérios usados para avaliar a presença feminina em diferentes filmes.

 

INCAL, de Alejandro Jodorowsky e Moebius (publicado entre 1981 e 1988)

Incal é uma excelente saga de ficção científica para os admiradores do mestre chileno Alejandro Jodorowsky (diretor de filmes como A Montanha Sagrada e El Topo) e do ilustrador francês Jean Giraud, mais conhecido como Moebius. A obra surgiu quando os planos de adaptação do livro Duna, de Frank Herbert, fracassaram (saiba mais aqui) e a dupla decidiu utilizar muitos dos conceitos desenvolvidos em uma história original em quadrinhos.

A trama acompanha as aventuras do detetive particular John DiFool, que acidentalmente cruza o caminho de uma criatura alienígena e toma posse do Incal, cristal incrivelmente poderoso que pode mudar o destino de todo o universo. Logo, ele passa a ser perseguido por mutantes, Bergs, corcundas do “prezidente”, Tecnopapa e outros personagens bizarros, ao mesmo tempo em que recebe ajuda do implacável Metabarão e da misteriosa Animah. Na medida em que a história avança, os rocambolescos acontecimentos vão dando lugar a uma jornada intimista e espiritual que os fãs de Jodorowsky conhecem bem.

Em 2013, Nicolas Winding Refn (Drive) anunciou que realizaria a adaptação da obra e ele certamente é uma ótima escolha, sendo aprovado até pelo próprio diretor chileno. Infelizmente, não é possível saber quando isso vai acontecer, mas até lá podemos nos contentar com um excelente trailer animado feito por fãs.

 

Menções Honrosas

Retalhos e Habibi, de Craig Thompson
Saga, de Brian K. Vaughan e Fiona Stapes
Transmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson
Fell, de Warren Ellis e Ben Templesmith
The Invisibles, de Grant Morrison
Jimmy Corrigan - O Menino Mais Esperto Do Mundo, de Chris Ware
Ronin, de Frank Miller
Epileptic, de David B.
Y: O Último Homem, de Brian K. Vaughan e Pia Guerra
Os Pequenos Guardiões, de David Petersen
Sex Criminals, de Matt Fraction e Chip Zdarsky
Journey, de William Messner-Loebs
Área de Segurança – Gorazde, de Joe Sacco
Our Cancer Year, de Harvey Pekar, Joyce Brabner e Frank Stack
Curses, de Kevin Huzenga
Hicksville, de Dylan Horrocks
Locke & Key, de Joe Hill e Gabriel Rodriguez

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