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Festival de Cannes 2019 - Dia #01 Festivais e Mostras

DIA 01

No papel, a 72a. edição do Festival de Cannes é uma das mais promissoras dos últimos anos: com uma seleção composta por cineastas veteranos e por novatos com projetos interessantes, o evento tem potencial para se tornar um daqueles que ficam para a História, trazendo filmes que no futuro distante custaremos a acreditar terem sido exibidos em uma só edição.

Mas, como diz a velha expressão, “a teoria na prática é outra coisa”. E isso me traz ao início dos trabalhos em 2019:

 

1) Quando o novo trabalho do cineasta Jim Jarmusch, Os Mortos Não Morrem (The Dead Don’t Die), foi anunciado, a reação de cinéfilos em todo o mundo foi de espanto e antecipação ao vê-lo investir em uma temática ao mesmo tempo tão atípica para sua filmografia e tão desgastada pelo uso de modo geral. Infelizmente, ao que parece o próprio diretor ficou surpreso com sua escolha a ponto de decidir comentá-la no filme em si – não de uma maneira irreverente e sagaz, mas com tom de autoindulgência e presunção. Pois seu tempo teria sido melhor empregado na construção de um roteiro, já que o longa não funciona como terror (tudo bem, claramente não era sua intenção), comédia (era) ou comentário político/social (que tenta fazer de modo juvenil e atrapalhado).

Escrita pelo próprio realizador, a obra até começa de forma promissora ao trazer o xerife Cliff Robertson (Bill Murray) e seu assistente Ronnie Peterson (Adam Driver) tentando convencer o excêntrico sem-teto da cidade, Ermitão Bob (Tom Waits), a “não quebrar mais leis” mesmo depois que este os recebe a tiros. Percorrendo a cidade no carro oficial identificado como “001” – não por ser o primeiro, mas provavelmente o único -, a dupla observa fenômenos estranhos que prenunciam algo sombrio: relógios e celulares param de funcionar, os animais desaparecem e o sol segue no céu durante a noite, o que leva Ronnie a anunciar que “isso não vai acabar bem” antes até que os mortos saiam de suas sepulturas e comecem a devorar os vivos.

As vítimas em questão, diga-se de passagem, são os residentes da pequena Centerville, uma dessas cidadezinhas genéricas do cinema que com frequência tentam funcionar como um microcosmos da experiência humana no planeta, não sendo surpresa que logo no primeiro ato Jarmusch traga o carro dos policiais passando diante dos pontos que servirão de referência no restante da narrativa (o posto de gasolina, a loja de ferramentas, um centro de detenção juvenil, um restaurante e por aí afora). De maneira similar, os personagens se resumem a tipos definidos que por vezes chegam a ser identificados não apenas por seus nomes, mas por sua ocupação – como, por exemplo, o Fazendeiro Miller (Steve Buscemi), cujo trumpismo/racismo é identificado de imediato pelas palavras exibidas em seu boné, “Make America White Again” (ele também tem um cachorro chamado Rumsfeld).

O problema é que nenhum dos indivíduos que povoam Os Mortos Não Morrem é interessante de fato: o xerife interpretado por Bill Murray não tem personalidade alguma e (o mais incrível) consegue bloquear todo seu brilhante timing cômico; o oficial de Adam Driver é composto por uma só nota e Mindy (Chloë Sevigny), a única mulher do trio de policiais, é também a única a se descontrolar, vomitar e chorar continuamente diante do horror que testemunha, o que em 2019 revela certa miopia de Jarmusch. Aliás, boa parte da galeria de tipos do filme jamais justifica sua presença, parecendo existir apenas como oportunidade para que o cineasta escale rostos como os de Danny Glover e Selena Gomez. Por outro lado, Caleb Landry Jones, ator cada vez mais interessante, faz quase um milagre com uma figura concebida para permitir apenas (repetidas) “piadas” ao compará-lo a um hobbit. Para finalizar, Tilda Swinton praticamente rouba o espetáculo ao viver um dos tipos mais tildaswintonianos de sua carreira, a agente funerária Zelda Winston, que por algum motivo é escocesa, hábil como samurai e só consegue mudar de direção fazendo curvas em 90 graus (e isto para não mencionar o fator mais surpreendente de sua natureza). Ah, sim: há ainda uma ponta de Iggy Pop como um zumbi já que... por que não?

Com um ritmo frustrante determinado pelas falas deliberadamente lentas e pela montagem sem vida do normalmente eficiente Affonso Gonçalves, Os Mortos Não Morrem tenta extrair graça da repetição de frases e perguntas específicas (“Kill the head” sendo a mais irritante delas) ou mesmo da música-título, cujo compositor, Sturgill Simpson, é mencionado tantas vezes que chego a desconfiar ter sido resultado de jabá. Além disso, Jarmusch exibe uma propensão curiosa a se divertir com jogos de palavras tolos (a UPS se transforma em “Wu-PS” – leia-se: “whoop ass”), piadas “internas” transparentes (o personagem de Adam “Kylo Ren” Driver tem um chaveiro no formato da Millennium Falcon) e, num momento específico, com efeitos sonoros “engraçadinhos” (que acompanham o abrir de olhos de dois zumbis).

E o que dizer da metalinguagem aleatória salpicada ao longo da projeção e que jamais chega a lugar algum (a não ser, como já discutido, à aparente surpresa do filme com sua própria existência)? Aliás, até mesmo este recurso é usado de modo tão primário que, em certo ponto, quando alguém pergunta a Ronnie como este sabe que tudo acabará mal, fui capaz de antecipar a frase exata que ele usaria como resposta e que deveria ser o clímax da piada desenvolvida ao longo dos últimos 90 minutos. Como se não bastasse, o roteiro demonstra uma propensão alarmante de abandonar subtramas e personagens pelo meio (como os três jovens do centro de correção ou o interesse romântico/sexual de Zelda por certa pessoa), falhando ainda ao insistir em mastigar para o espectador toda e qualquer “mensagem” sugerida pela narrativa, com direito a um monólogo final que poderia ter sido recitado pelo Gorpo no desfecho de um episódio de She-Ra.

E se você julgou esta referência datada, digo, em minha defesa, que Os Mortos Não Morrem já nasceu antigo – ou alguém realmente acha que a comparação dos zumbis com a dependência moderna de smartphones e redes sociais é algo novo? Pior: a utilização dos mortos-vivos como metáfora do consumismo desenfreado já estava presente (e de forma bem mais eficaz) em um dos filmes-chave do gênero, Despertar dos Mortos, dirigido pelo “pai” dos zumbis modernos, George A. Romero.

Depois dos ótimos Paterson e Amantes Eternos, era natural que esperássemos algo à altura por parte de Jim Jarmusch. Que ele se arrisque fora de sua zona de conforto é admirável; que falhe tão completamente, um imenso desapontamento.

14 de Maio de 2019

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Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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