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O olho e a faca: desventuras de um homem bipartido Brasil em Cena

Em que medida o alcance de um objetivo pode representar a total perda do equilíbrio? Beto (Rodrigo Lombardi), protagonista de “O olho e a faca”, terceiro longa do diretor Paulo Sacramento, parece enfrentar essa pergunta e, mais que isso, as consequências desse desequilíbrio. Beto trabalha em uma plataforma de petróleo, alterna duas semanas em alto mar e duas em casa, com a família. Ao ser promovido, seu mundo parece ruir, ou naufragar.

 

Cineasta com longa carreira na montagem, Paulo chega ao seu terceiro longa (o segundo de ficção) declarando amor ao cinema de Carlos Reichenbach, que morreu em 2012. “Eu me tornei cineasta por causa dele, por assistir ‘Filme Demência’ e perceber que era possível fazer cinema no Brasil”, diz o diretor. “Filme Demência”, aliás, está em “O olho e a faca”, não apenas como homenagem, mas como fonte de possíveis referências.

Paulo Sacramento falou com exclusividade sobre “O olho e a faca” ao Cinema em Cena:

 

Cinema em Cena – Como surgiu a ideia para a história de “O olho e a faca”?

Paulo Sacramento – Eu gosto de partir de lugares e imaginar filmes nesses lugares. Já foi assim com “O prisioneiro da grade de ferro”, documentário que dirigi em torno do Carandiru, e foi assim também com “O olho e a faca”, quando comecei a imaginar uma história a partir de uma plataforma de petróleo em alto mar. Eu e o Eduardo Benaim (roteirista) começamos a trabalhar em uma história de um grupo de seres humanos nesse local, confrontados pela grandiosidade daquele mar e daquele céu com as estruturas fechadas e claustrofóbicas da plataforma. Começamos a conviver nesse ambiente e entendemos que existem momentos muito distintos na vida dessas pessoas: um no mar e um na terra. A história foi construída em torno dessa dualidade.

 

Cinema em Cena – E de um aparente equilíbrio perdido?
Paulo Sacramento
– Sim, o Beto é um cara extremamente racional, inclusive porque a profissão dele exige essa racionalidade, mas, de certa forma, isso  o acaba cegando. Ele planejou sua vida, almejou uma promoção, parece ter tudo sob controle, acha que nada vai mudar, nunca, e, de repente é justamente a mudança que ele tanto perseguiu o que vai desequilibrar sua vida. Ele vivia como um homem bipartido, entre o mar e a terra, entre a mulher e a amante, equilibrava-se nisso, mas uma hora isso se rompe.

 

Beto (Rodrigo Lombardi): entre a mulher (Maria Luisa Mendonça) e a amante (Debora Nascimento)

Cinema em Cena – Em uma determinada sequência, o protagonista está assistindo a “Filme Demência”, do diretor Carlos Reichenbach, filme que é uma releitura do “Fausto”, de Goethe. Como Fausto, Beto também está entre o céu e o inferno?

Paulo Sacramento – Que interessante essa visão, eu não tinha pensado nisso, pelo menos não de forma direta. As obras de arte são abertas, as simbologias são abertas, e a própria ideia do homem bipartido que está no “Fausto” também está em “O olho e a faca”, inclusive o cartaz do filme mostra o protagonista literalmente dividido. Mas a ideia de usar um trecho de “Filme Demência” foi mesmo de homenagem. Esse filme do Carlão foi o que me levou a fazer cinema. Sou de uma família de médicos, não tem nenhum cineasta na minha família. Assisti a “Filme Demência” e fiquei siderado. Era um cinema próximo a mim, plausível. Ficou claro para mim que eu podia fazer cinema. Acabei me aproximando do Carlão e de toda essa geração do “Cinema de Invenção”. Devo muito ao Carlão.

 

Cinema em Cena – Algumas cenas na plataforma, um lugar de alto risco,  mostram pessoas conversando sem que se ouça o que elas estão dizendo, apenas observando-se os movimentos de seus lábios. Essa foi uma referência a Stanley Kubrick em “2001 – Uma odisseia no espaço”?

Paulo Sacramento – Que honra essa comparação! Mas, de novo, não houve uma intenção clara em relação a isso. A plataforma é realmente um lugar de alto risco, e tudo lá é muito rigoroso. Eu não quis fazer um paralelo com a nave de 2001, mas se tentei fazer algo que se aproxima de Kubrick foi a busca pelo rigor das imagens em várias sequências. A de abertura do filme, um exame oftalmológico, seguiu essa preocupação, porque a ideia era reafirmar aquela racionalidade e precisão a que o personagem parece estar preso.

Rodrigo Lombardi, na plataforma: seis dias de treinamento

Cinema em Cena – Um dos panos de fundo da história é a questão dos acidentes de trabalho. Depois da realização do filme, o governo federal apresentou propostas para flexibilizar as normas de segurança. É claro que o filme não tem o papel de discutir o tema, mas como você avalia isso?

Paulo Sacramento – A realidade é sempre maior que os nossos maiores delírios. Em um local como a plataforma de petróleo mostrada no filme, a segurança é extremamente rígida, inclusive para quem, como nós, não trabalha diretamente nas operações, mas vai desempenhar algum tipo de função. Qualquer pessoa que faça uma visita com duração acima de dois dias à plataforma é obrigada a realizar um treinamento de seis dias para incorporar todas as normas de segurança. Isso é até óbvio naquele ambiente, porque é uma questão de sobrevivência. Mas, aqui fora, também há muitas questões de sobrevivência, e muitas vezes a gente nem percebe. Como o Beto, no filme, a gente simplesmente vai tocando a vida, de forma mecânica, mas o risco está lá.

Paulo Sacramento: amor ao cinema de Carlos Reichenbach

Cinema em Cena – Como realizador, de que forma você encara as perspectivas do cinema nos próximos anos?

Paulo Sacramento – Já estive bem mais animado, acho que, entre artistas, vivemos uma fase de amargura geral. Mas, ao mesmo tempo, os filmes estão sendo feitos. Esta é uma fase difícil, com poucos projetos e poucas perspectivas. Eu entrei para o curso de Cinema da Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP) no ano em que o ex-presidente Fernando Collor fechou a Embrafilme. Parecia que eu tinha entrado em um mercado que tinha acabado de morrer. O cinema é um processo lento. Lentamente, a situação foi melhorando, mas dá medo do que pode acontecer nesse momento do Brasil.

Sobre o autor:

Alessandra Alves é jornalista com múltiplos interesses. Além do amor pelo cinema, pela música e pela literatura, também atua no jornalismo esportivo e na comunicação corporativa. Paulistana, corintiana, feminista e inimiga de fascistas, assina a coluna "Brasil em Cena", de entrevistas e reportagens sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
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