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Onde quer que você esteja: um convite à empatia Brasil em Cena

Há quinze anos, os cineastas Bel Bechara e Sandro Serpa leram uma notícia de jornal sobre uma rádio colombiana que tinha um programa dedicado a mandar recados de ouvintes para parentes sequestrados. A partir dessa ideia, eles conceberam e dirigiram um curta, cuja história seguia a mesma dinâmica: pessoas recorrendo a uma rádio para procurar parentes desaparecidos. Uma década e meia depois, a dupla retomou o tema e está lançando “Onde quer que você esteja”, longa metragem que parte dessa ideia, expandindo o universo abordado no projeto de quinze anos atrás.

No início, eram Lúcia (Débora Duboc) e Waldir (Leonardo Medeiros). Ela busca o marido, desaparecido há oito meses. Ele está atrás da mulher, que sumiu há doze dias. “Desde a preparação para a filmagem do curta, quando escrevemos as histórias que estariam sendo narradas em off no programa, tivemos vontade de desenvolvê-las. Ficaram ali esboçadas e, alguns anos depois, escrevemos o argumento que começa a desenvolver novos personagens: Roberto, Zélia, Afonso, Ana Maria, a história do próprio locutor...”, explicam os diretores.

O longa mostra essas histórias se entrelaçando e, como na inspiração original da rádio colombiana, a constatação de que é preciso levar a vida em frente. Ao conhecer outras pessoas nesse processo, tocando a vida, essas pessoas vão ficando paradoxalmente mais distantes daqueles que procuravam. Essa contradição humana interessava os diretores, que retomaram o tema em um país muitos diferente daquele em que produziram o curta.

“Isso foi algo que sempre nos intrigou: por que estamos fazendo esse filme em 2019? Este não é um filme político, como muitos que estão sendo produzidos hoje. Mas é uma proposta de empatia, algo que se perdeu desde 2016. A gente quer que as pessoas se olhem, se falem”, diz Sandro. Bel Bechara e Sandro Serpa falaram com exclusividade ao Cinema em Cena.

Sandro Serpa e Bel Bechara

Cinema em Cena – Por que voltar a uma história que vocês já tinham contado em um curta?

Bel Bechara – O curta já tinha uma história principal, mas tinha também as histórias satélites. Elas ficavam mais no áudio, nas caixas de som da rádio, e elas ficaram na nossa cabeça. Deu vontade de aprofundá-las. Percebemos que tinha potencial e voltamos a elas.

Sandro Serpa – Hoje, nós temos uns cinco roteiros prontos e mais uns quatro ou cinco argumentos desenvolvidos que podem virar roteiros em pouco tempo, mas esse foi o primeiro para o qual nós conseguimos recursos. Podiam ter rolado outros, mas rolou para esse. Nós somos de Minas. Viemos para São Paulo em 1999, para produzir um documentário sobre o Walter Franco e ficamos. Largamos a nossa turma, viemos para um lugar onde não conhecemos muita gente e, quando o cinema brasileiro começou a acontecer mais efetivamente, veio a regionalização. Quem tem pouco currículo e quer fazer um longa em São Paulo tem que concorrer com todos os grandes, e as chances são bem menores. Sou totalmente a favor da regionalização, temos hoje cenas maravilhosas que surgiram por conta disso, como em Minas mesmo, em Pernambuco, mas para a gente, especificamente, foi um obstáculo. Foi por meio de um edital da SPCine, para superbaixo orçamento, que nós conseguimos realizar o filme.

Bel Bechara – E foi realmente um filme de superbaixo orçamento, com 22 locações, 30 atores, que se viabilizou com muitos apoios, principalmente na finalização, com amigos cedendo espaços, sem nenhum grande efeito visual ou de pós-produção. As cenas se passavam dentro do estúdio (da rádio) ou na casa dos personagens. Por isso que conseguimos viabilizar só com o recurso do edital.

Cinema em Cena – O filme tem roteiro, direção, montagem e fotografia assinados por vocês dois. Foi opção ou necessidade, pelo baixo orçamento?

Sandro Serpa – As duas coisas. Nós sempre fizemos tudo, mas estamos tentando entregar algumas dessas tarefas para nos concentrarmos naquilo que nós gostamos mais, que é o trabalho com os atores. Mas de fato ainda não encontramos um fotógrafo para delegar essa parte do trabalho. Não procuramos, na verdade. (Risos).

Bel Bechara – E, em um filme de baixo orçamento, tínhamos a limitação da verba. Precisávamos assumir muitas tarefas, mas de fato nós somos fominhas mesmo! (Risos)

Sandro Serpa – Teve uma situação, nesse filme, em que tínhamos trinta planos para produzir em um curtíssimo espaço de tempo. Nós fizemos. Se tivéssemos um diretor de fotografia, ele simplesmente não deixaria.

Débora Duboc (Lúcia), com Dagoberto Feliz (Adroaldo Lopes) ao fundo: a busca vira palco

Cinema em Cena – O estúdio onde fica a Rádio Cidade Aberta do filme também é uma locação?

Bel Bechara – Sim, fica dentro do Exército da Salvação. Era um estúdio de música que nós já conhecíamos, porque fazemos vários trabalhos ligados à música, como documentários e videoclips. Esse estúdio estava desativado, não tinha os equipamentos, mas tinha aquela estrutura de madeira, janelas de vidro, que nós queríamos. Pesquisamos muitos outros estúdios, mas tinha um problema: precisaríamos filmar durante o dia e desocupar o estúdio para bandas que ensaiam à noite. Filme de baixo orçamento não tem como fazer isso, porque compromete a continuidade. Precisávamos ocupar um lugar enquanto durassem as filmagens, e o fato de estar desativado nos levou a esse. E acabou sendo perfeito. A diretora de arte, Glauce Queiroz, optou por fazer do estúdio o único local “quente” do filme, que é onde as pessoas se reúnem. Ali, ela trabalhou tons quentes. Nos outros locais, retiramos todos os tons quentes, justamente para transparecer a melancolia dos personagens.

Cinema em Cena – Os diálogos presentes no filme foram exatamente o que vocês escreveram ou houve espaço para improviso com os atores?

Bel Bechara – Os atores são nossos principais parceiros, criam com a gente, desde as primeiras conversas e durante os ensaios. Os personagens vão sendo compostos em conjunto ao longo da produção. A gente gosta de trabalhar primeiro com a leitura em mesa, discutindo as situações e os personagens, pesquisando. Os atores só estudam a linha dramática da cena. Não precisam repetir literalmente o que está no roteiro. Claro que cada ator tem seu processo, nós respeitamos, mas nós gostamos dessa criação conjunta. Tanto que ficou um material enorme, foi uma dor imensa montar esse filme, porque precisamos cortar muito!

Sandro Serpa – Chegamos a duas horas e quinze de filme, e terminamos com cem minutos. Não havia um limite, mas se fosse o filme de um personagem, que o público estivesse com a gente naquele personagem, sabendo as motivações dele, a gente poderia esticar, mas como são muitas pessoas, muita coisa acontecendo, não dava para ficar muito tempo em um personagem, depois passar para o outro. Tinha uma cena do personagem do Leonardo Medeiros descascando uma pera durante uns quatro minutos, como Jeanne Dielman (filme da diretora belga Chantal Akerman), mas infelizmente não dava para manter. Um dia, a gente usa isso em algum lugar...

Sabrina Greve (Zélia) e Gilda Nomacce (Ana Maria): na rádio, um lugar de encontro

Cinema em Cena – Já que vocês citaram uma cineasta, quais foram as principais influências de vocês nesse filme?

Bel Bechara – Nós trabalhamos com alguns filmes como referência. Basicamente, filmes “pequenos”, nos quais a câmera se aproxima muito das pessoas. Um dos filmes que nos influenciaram, e inclusive nos inspiramos nele para compor um dos planos, foi Whisky (filme uruguaio dirigido por Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll). Tem também um filme do Aki Kaurismaki (The Match Factory Girl) que tem uma personagem, inclusive loira e desajeitada, que inspirou a criação da personagem Zélia. E a Sabrina Greve, que interpreta essa personagem, fez um trabalho incrível, se inspirando nessa referência, sem ficar caricata, andando no fio da navalha.

Sandro Serpa – Tem influência também de Eric Rohmer, dos irmãos Dardenne, principalmente pela relação entre as pessoas, a abordagem do dia a dia. Mas nossa câmera é bem diferente da deles. A deles segue os personagens. A nossa, nesse filme, é mais observadora.

Cidade aberta e vazia: melancolia

Cinema em Cena – Por falar em câmera, o filme alterna paisagens externas, em grandes panoramas, mostrando uma cidade quase sempre vazia, com planos muito fechados nos personagens. A intenção era reforçar a solidão dessas pessoas naquela situação de perda, na metrópole?

Sandro Serpa – Sim. Até nos lembramos de uma frase do John Ford, quando ele foi perguntado sobre o que queria filmar, no meio do deserto, com uma equipe tão grande, e ele respondeu: “a paisagem mais interessante que existe: o rosto humano”.

Bel Bechara – Os planos de passagem têm a cidade vazia, mas também têm as cenas de engarrafamento, pessoas entrando no trem. De alguma forma, a gente quis trazer tanto essa impressão do vazio quanto da solidão em um lugar lotado. Ela pode estar nos dois lugares, tem a ver com o sentimento, não com o local em que se está.

Cinema em Cena – O crítico norte-americano Roger Ebert disse que “o cinema é a mais poderosa máquina de empatia de todas as artes”. Nesse filme, o espectador conhece basicamente só um lado das histórias – o das pessoas que ficaram – e se envolve com elas, ainda que elas sejam causadoras desses desaparecimentos. A ideia era criar empatia sem julgar?

Sandro Serpa – A gente não pode ser moralista, não pode dar razão para um lado ou para o outro. Aquelas pessoas estão tentando levar a vida em frente, e não cabe julgar.

Bel Bechara – E, dentro daquelas histórias tristes, tem também um elemento patético. O sujeito que parece sentir mais a falta da mulher pelo que ela deixou de fazer por ele e ele precisou assumir, como tarefas domésticas, a mulher que busca o marido já sem muito sentido na busca em si, mas fazendo daquela rádio um palco para si mesma.

Cinema em Cena – Como vocês enxergam o momento atual do cinema brasileiro, diante de cortes de verbas e ameaças?

Bel Bechara – Nós acabamos de voltar do Brasil CineMundi, que é um encontro de negócios da área do audiovisual, com foco em coproduções. Nossos projetos encontraram interessados de outros países, mas como nós podemos garantir a parte do Brasil? Nós estamos andando em uma corda bamba de incertezas, e a única certeza que a gente tem é que precisamos sobreviver para não ter que partir do zero.

Sandro Serpa – Não pode parar a Ancine. Por mais que ela esteja complicadíssima, ela tem que se manter viva nos próximos anos. Na comparação com o que aconteceu no governo Collor, com o fim da Embrafilme, acho que estamos vivendo um momento diferente, tanto para o bem quanto para o mal. Acho que não vai vir uma canetada, que acabe com a Ancine, por outro lado, naquela época, não tinha a ameaça de censura, como hoje parece haver uma necessidade de controle assustadora. Outra diferença são os custos: no início dos anos 1990, o aluguel de uma câmera era caríssimo. Não existia o digital, que hoje viabiliza a se continuar produzindo cinema

Sobre o autor:

Alessandra Alves é jornalista com múltiplos interesses. Além do amor pelo cinema, pela música e pela literatura, também atua no jornalismo esportivo e na comunicação corporativa. Paulistana, corintiana, feminista e inimiga de fascistas, assina a coluna "Brasil em Cena", de entrevistas e reportagens sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
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