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VENTO SECO Cinema em Streaming

Ao selecionar 80 filmes de temática LGBTQI+ nos streamings, fiquei a fim de rever Vento Seco, de Daniel Nolasco, que eu vi ao acaso pouco depois de seu lançamento no Festival de Berlim de 2020, apenas com a informação de se tratar de um dos filmes brasileiros no evento daquele ano. Foi uma surpresa das melhores.

Mas primeiro, um alerta: como este é um espaço de recomendação para todos os públicos, cinéfilos ou não, dispostos a ver filmes fora do convencional ou não, vale dizer que mais do que um "filme gay" com nudez, Vento Seco traz sexo explícito, com direito a, dentre outras práticas, oral até o fim. É o tipo de coisa que afasta muitas pessoas, mesmo aquelas que se consideram sem preconceito, inclusive porque sexo é tão tabu que alguns se incomodam mesmo se fosse sexo heterossexual. Sou da opinião que é válido ir ao encontro de obras do tipo, que causam desconforto, talvez como um primeiro passo para lidar com os próprios desejos ou, no mínimo, com o do outro. Em outros casos, é justamente o tipo de coisa que atrai, mas que podem não considerar tão interessante fora das cenas que dão tesão, já que a ousadia de Nolasco vai além. Não é só a frontalidade do sexo, mas toda uma construção narrativa e estética que também não é convencional.

A trama de forma bem resumida: estamos no interior de Goiás com o protagonista Sandro, que trabalha numa fábrica de fertilizantes, assim como os demais personagens principais, um deles um colega com quem tem encontros sexuais às escondidas, após o trabalho. Um terceiro chegará na cidade e fábrica, para deleite dos olhos de Sandro no que parece ser um misto de paixão e puro desejo sexual, ao mesmo tempo que tem sonhos enigmáticos e fetichistas. Os sonhos se intensificam à medida que o reservado e calado protagonista tem que lidar com um turbilhão de emoções (desejo, afeto, intimidade, ciúmes, traição) a ponto de borrar, para o espectador, a linha que divide o real e a fantasia. Enquanto isso, o clima ambiente é seco, sem possibilidades de chuva.

Desde o início, Nolasco deixa claro o nosso lugar: o do olhar de Sandro. É a partir dele, e com ele, que acompanhamos todo o filme, e nos primeiros minutos a área da piscina de um clube é vista pelo seu olhar desejante, uma câmera que segue, enquadra e se aproxima de partes de corpos masculinos. Rosto, tórax, genitália, pernas, bunda; o tipo de objetificação que no cinema convencional estamos bastante acostumados, mas com o corpo feminino. Mais adiante veremos algo parecido no modo de filmar uma partida de futebol. Essa erotização é importante, pois o filme não pretende dissociar desejo do que, no fim das contas, trata-se de uma típica história de amor. Não é só tesão que está em jogo e outros afetos não são deixados de lado. É a eterna busca por sentido no mundo e conexão com outras pessoas. Gosto muito de uma cena num brinquedo de parque de diversões que ilustra bem isso. Mas é evidente que as atenções da maioria se voltam para o sexo, com as inevitáveis críticas que envolvem usar termos como “sexo gratuito” ou “feito para chocar”, e aí lembro do Paul Verhoeven que ao ser perguntado sobre cenas de sexo serem necessárias, respondeu que “nada é necessário em um filme”. E é curioso reclamações sobre um excesso nesse sentido, já que supostamente atrapalha e se desvia do drama, pois essas críticas não parecem cogitar que talvez se trate de um filme pornô gay em primeiro lugar e, como se espera do gênero, talvez tenha é sexo de menos. É o apagamento dessa linha que separa a pornografia e o cinema mainstream que causa o desconforto e o curto-circuito.

Há também um gesto político muito forte em Vento Seco, que vai além das questões trabalhistas abordadas (a melhor amiga de Sandro tenta mobilizar os funcionários e sindicato para melhorias das condições de trabalho, e chama a atenção a ausência completa do filme de chefes ou outras figuras de autoridade), e que está na própria realização da obra nesses termos e no atual contexto social do país, um romance gay de sexo explícito às portas do agronegócio, na região brasileira que é (um dos?) berço do bolsonarismo - e aqui lembro de outros dois belos filmes recentes, bem distintos entre si, Madalena, que trata de invisibilidade trans e se passa nessa mesma região, e Deserto Particular pelo interesse em trazer pro drama as contradições e choques culturais da vastidão de nosso país. Voltando ao filme de Nolasco, acho particularmente brilhante e cheio de significados que uma certa sequência se passe durante um show de Jorge e Mateus, grandes representantes do neosertanejo, esse gênero musical hegemônico marcado por ressentimentos e dor de corno, “sofrência” tipicamente heterossexual. E talvez eu esteja forçando uma relação, mas me parece um contraste interessante que em outro momento do filme há uma ligação de muita ternura entre dois personagens, no meio de todos, ao som de outra dupla, Matogrosso e Mathias, dessa vez com um sertanejo “raiz”.

Por fim, vale ressaltar a fotografia do filme, também muito elogiada ou criticada dependendo da relação que se tem com o excesso, pois há muitas luzes e neon, em especial nas cenas de sonho. Talvez esteja mais próximo do cinema do Nicolas Winding Refn do que do R.W. Fassbinder, exceto que me parece mais equilibrado (nos contrastes com o cotidiano dos personagens, em especial) do que o cineasta dinamarquês, e quanto ao cineasta alemão há outro filme nacional recente que parece mais bem sucedido nisso, Inferninho, de Guto Parente e Pedro Diógenes. Seja como for, é um grande filme sobre reajustar nossos desejos e expectativas. Quando o clima é seco, e sempre será, é preciso dar um jeito de se adaptar, e até encarar os sonhos de outra maneira. Até que um dia a chuva vem.

Vento Seco (2020) está disponível na Globoplay/Telecine. De Daniel Nolasco é possível ver também o documentário Paulistas (2017) na MUBI Brasil.

Madalena (2021) pode ser visto na Netflix; Deserto Particular (2021) está na HBO Max; e Inferninho (2018) está gratuito no Itaú Cultural Play.

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Sobre o autor:

Gosta de cinema pra valer desde os 14 anos, já teve videolocadora e agora vê uns filmes nos streamings que mataram seu negócio. Twitter: @helioflores
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