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Festival de Berlim 2023 - Dia #02 Festivais e Mostras

Dia 02

4) Uma senhorinha caminha por uma rua de sua cidade carregando duas sacolas de compras. Sua expressão é neutra e, em circunstâncias normais, não haveria nada de estranho nesta cena – até que notamos as fachadas em ruínas dos prédios ao seu redor e percebemos que estamos em um cenário de guerra – o que, claro, não livra os habitantes da região de suas tarefas mais prosaicas.

Rodado durante os ataques russos à Ucrânia, o documentário In Ukraine é uma obra cuja eficiência é diretamente proporcional à maneira direta com que retrata o cotidiano de várias cidades do país. Dirigido por Piotr Pawlus e Tomasz Wolski, o filme é construído a partir de planos estáticos que, durando alguns minutos cada, fazem breves recortes de um país devastado por mísseis, bombas e tiros – mas também traz os sinais de sua resistência aos invasores ao enfocar tanques russos destruídos no meio da rua e pelo simples fato de vermos, aqui e ali, a bandeira ucraniana tremulando no alto de mastros.

Sem contar com qualquer narração – o que não quer dizer que não haja uma editorialização, pois é evidente que há -, o longa permite que as imagens movam o espectador por si mesmas, sendo difícil vermos crateras deixadas em parquinhos ou pontos de ônibus com vidros cheios de marcas de bala sem nos apiedarmos das pessoas que não contam com o luxo de vê-las através da segurança de uma tela de cinema. Aliás, em nenhum momento os diretores discutem as causas da guerra em si, pois estas se tornam irrelevantes diante das tragédias que testemunhamos: para a narrativa de In Ukraine, Zelensky e Putin existem apenas como abstrações – e mesmo assim dependendo do grau de conhecimento do público sobre toda a situação.

Igualmente admirável é a maneira como o filme consegue criar planos de imenso simbolismo sem precisar realizar qualquer alteração no ambiente que está documentando – e aquele rodado através de uma vidraça rachada é um exemplo do senso de oportunidade dos cineastas. Já em outros instantes, não há qualquer necessidade de símbolos, já que o que vemos é eloquente por si só: os vários memoriais dedicados às vítimas do conflito, em particular, são veementes no custo humano que revelam. Para completar, o filme ainda traz passagens inspiradoras, como aquela que demonstra a preocupação com a situação das dezenas (ou centenas) de cães sem lar que se espalham pela cidade e são alimentados por voluntários.

Porém, talvez o elemento mais entristecedor de In Ukraine resida nas sequências que demonstram como a lógica da guerra afetou as crianças do país e que são vistas não só brincando de soldados, mas montando checkpoints nos quais param carros e pedem que os motoristas repitam certas palavras para comprovarem que são ucranianos – um recurso que, víramos pouco antes, é realmente adotado pelo exército.

A esta altura, nem podemos mais falar de como a guerra corrompe a percepção dos jovens, mas de como a reconfigura através do horror e naturaliza algo que jamais deveria ser visto com tranquilidade.

5) Uma abordagem completamente distinta para lidar com o mesmo tema pode ser vista em Eastern Front, documentário dirigido por Vitaly Mansky e Yevhen Titarenko: depois de iniciarem o longa de forma parecida à de In Ukraine, chegando a usar a imagem dos tanques russos destruídos nas ruas de Kiev como símbolo da resistência do país à invasão do exército de Putin, os dois cineastas usam a inquietude da câmera e a velocidade da montagem como forma de salientar o calor e a tensão da guerra. Além disso, enquanto aquele filme buscava demonstrar como a coexistência da guerra e do cotidiano de uma grande capital pode criar uma dissonância curiosa, aqui a ideia é manter as duas esferas completamente separadas, ora mostrando a vida familiar dos paramédicos que protagonizam o filme, ora enfocando o caos de suas ações nos campos de batalha.

Outra distinção fundamental é que o responsável por capturar estas sequências que trazem os paramédicos resgatando soldados ucranianos com graus diferentes de ferimentos (de pernas quebradas a dilaceradas por explosões) é o próprio Titarenko, que faz parte da equipe de médicos voluntários “Hospitallers”, o que leva o documentário a oferecer uma perspectiva pessoal importante – e desconfio que a irregularidade da obra se deve, infelizmente, às intervenções criativas do co-diretor Mansky, que insiste em entrecortar estes momentos com outros nos quais os “personagens” aparecem trocando histórias familiares e observações à beira de um lago ou durante a celebração de um batizado.

Não que oferecer um ponto de vista humano dissociado do confronto bélico seja irrelevante, pois não é; o problema é que cada vez que retomamos aos cenários familiares as narrações soam menos e menos relevantes para o propósito geral do longa – e o mesmo se aplica a uma passagem terrível na qual um paramédico, ao ser atacado por um cachorro ao tentar entrar em uma propriedade privada (o filme não esclarece seu objetivo), atira no animal e depois o persegue para terminar de sacrificá-lo, o que exige uma quantidade surpreendente de disparos. Sim, talvez isto ajude a ilustrar o horror do cotidiano nos campos de batalha, mergulhado em tensão, mas o incidente é tão aleatório em sua natureza que a sensação é a de que busca principalmente um choque barato.

Isto se torna mais evidente quando contrapomos esta cena à outra que ocorre pouco antes e mostra dezenas de vacas mortas num curral ou atoladas em um lamaçal provavelmente provocado por explosões, já que a angústia dos bovinos é refletida nos homens que os encontram e percebem que não conseguirão salvá-los.

Revelando também como muitos jovens ucranianos passaram a encarar os bancos de esperma espalhados pelo país como uma garantia de “continuidade” caso sejam mortos na guerra – uma probabilidade considerável -, Eastern Front perde em foco o que tem em intensidade.

6) O que nos traz a Superpower, dirigido por Aaron Kaufman e Sean Penn.

Em primeiro lugar, preciso dizer que gosto de Sean Penn: além de ser um ator formidável, o ator jamais se contentou em ser, como tantos de seus colegas, um ativista de comercial, daqueles que rodam anúncios e campanhas sem jamais fazer qualquer esforço adicional relacionado às causas que supostamente apoiam. Inquestionavelmente humanista, Penn sabe que suas atividades políticas o prejudicam profissionalmente e até mesmo colocam sua vida em risco (a Fox News, canalha como de hábito, já o denunciou várias vezes como sendo “Inimigo de Estado”), mas não permite que isto o impeça de lutar pelo que acredita.

Dito isso, ele também é um ator de Hollywood famoso desde a adolescência e que obviamente está acostumado a ser o centro das atenções – e se Superpower é um documentário tão fraco, boa parte dos equívocos reside não só no ego do co-diretor, mas em como a projeção consequente deste acaba por converter o filme não em uma denúncia sobre o horror causado pelos russos no solo ucraniano, mas um veículo de propaganda para Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia. Aliás, mais do que isso: há instantes em que o filme flerta com o puro culto à personalidade.

Dividido entre os encontros com Zelensky, as visitas de Penn à frente de guerra e – vejam só – uma espécie de making of do próprio filme, que traz entrevistas com o produtor e com o ator-diretor enquanto estes explicam todas as dificuldades enfrentadas ao longo da produção, Superpower tem início com a confissão deste último, meses antes do início da invasão russa, sobre sua ignorância a respeito da realidade ucraniana e do próprio Zelensky (cujo interesse pela presidência é descrito por um jornalista do país como sendo resultado da busca por um estrelato ainda maior). A partir daí, o ator conversa com especialistas, cientistas políticos e ativistas enquanto forma uma opinião sobre a natureza do político – e não é surpresa que, quando finalmente se encontram, Penn já está predisposto a considerá-lo um herói.

Aliás, “herói” é pouco: ao longo de Superpower, o ator inclui montagens com trilhas inspiradoras sobre a trajetória de Zelensky e suas “entrevistas” se resumem a elogios repetidos, sendo interessante notar como o presidente ucraniano os recebe com satisfação. Não satisfeito com isso, Penn ainda busca levar outros entrevistados a elogiarem o sujeito, reconhecendo como este representa a “esperança da democracia” no mundo.

Isto sem jamais tocar na existência de nazistas no exército ucraniano.

Ora, não seria necessário forçar uma identificação do espectador com a situação da Ucrânia: a partir do momento em que foi invadido, o país se tornou vítima de uma agressão absurda e é óbvio que tem o direito de se defender. Isto, contudo, não justifica a verdadeira mitificação do presidente por parte de um cineasta que provavelmente está se projetando neste (um ex-colega do entretenimento, afinal).

Porém, a coisa atinge um nível ridículo quando, ao encontrar pilotos da força aérea ucraniana em uma visita a Washington, Penn decide não apenas levá-los para assistir a Top Gun: Maverick como também promove um encontro, via vídeo, com Miles Teller, um dos atores do filme (poxa, não podia ao menos ser com o próprio Tom Cruise?). Neste momento, o grau da distância do astro de Hollywood para com a realidade se torna indubitável.

E o filme nem chega a incluir sua decisão de presentear Zelensky com um de seus Oscars.

Mas eu gosto de Sean Penn.

20 de Fevereiro de 2023

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Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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