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Festival de Cannes 2023 - Dia #06 Festivais e Mostras

Dia 06

20) Somado ao terrível Little Joe: A Flor da Felicidade, que em 2019 rendeu de forma inexplicável a Palma de Melhor Atriz para Emily Beecham (isto num ano que tinha Penélope Cruz em Dor e Glória e Noémie Merlant e Adèle Haenel em Retrato de uma Jovem em Chamas), Club Zero é um alerta para que tenhamos cuidado com os filmes da cineasta austríaca Jessica Hausner. Não porque seus filmes sejam “controversos”, “perigosos” ou “politicamente incorretos”, mas porque são estúpidos, intelectualmente desonestos e visualmente desinteressantes.

Neste último aspecto, a cineasta até se esforça, buscando emular uma paleta de cores típica de Wes Anderson construída a partir de pasteis que se contrapõem a tons chapados ocasionais (verde, laranja, vermelho e amarelo), mas, assim como os zooms (ins e outs) que espalha pela narrativa, nenhum destes elementos diz alguma coisa além da falta de coesão visual de seu trabalho.

Escrito pela diretora em parceria com Géraldine Bajard, o roteiro é ambientado em uma escola frequentada por alunos de famílias abastadas que contrata uma nova professora: a senhorita Novak (Mia Wasikowska), que se propõe a ensinar educação alimentar para os adolescentes que se inscreverem em sua turma. Reunindo um grupo composto em sua maior parte por indivíduos solitários e/ou com dificuldades de interação social, as aulas aos poucos se desviam para um radicalismo absurdo à medida que a mulher passa a incentivar os jovens a parar de comer – o que, por algum motivo, provoca alterações positivas em todos.

Até que os pais começam a perceber o que os filhos vêm fazendo e exigem a demissão da professora, que a esta altura já transformou os pupilos em autênticos seguidores de um culto.

Mas seria este o ponto do filme? A manipulação da juventude… pelo sistema educacional? Porque por mais que Novak seja retratada como uma aberração, o fato é que a escola como um todo é vista de maneira essencialmente negativa pelo longa, o que talvez seja um sintoma da falta de propósito do roteiro e do desejo da cineasta de apenas criar algo chocante (e há passagens repugnantes ao longo da projeção).

No final das contas, Club Zero se mostra vazio como o estômago de seus personagens, mas digno de ser comparado com o produto final de um sistema digestivo ativo. E se você considera esta colocação como algo de mau gosto (eu considero), acredite: o filme que a inspirou é muito pior.

22) Acid é um filme-desastre que se torna cada vez mais ridículo à medida que a projeção avança. Em princípio, a ideia poderia até funcionar, acompanhando os esforços de uma família fragmentada para escapar de um fenômeno meteorológico letal que tomou conta da França: chuvas com uma acidez capaz de matar qualquer um que dê o azar de sair de casa sem um guarda-chuva de chumbo.

Dirigido por Just Philippot a partir de um roteiro co-assinado por Yacine Badday (bad day indeed), o longa é protagonizado pelo sempre interessante Guillaume Canet, que aqui vive Michal, um sujeito cuja namorada encontra-se hospitalizada e cuja ex-esposa Elise (Laetitia Dosch) o vê com ressentimento. Quando as chuvas ameaçadoras têm início, ele e Elise passam a se preocupar com a segurança da filha, Selma (Patience Munchenbach), iniciando uma jornada que – como é típico do gênero – os coloca em conflito com outros indivíduos desesperados enquanto suas próprias diferenças geram tensão.

Prejudicado pelo baixo orçamento, Philippot (que aqui expande o conceito de um curta anterior) é limitado em seus esforços para criar um cenário verdadeiramente apocalíptico, pecando também por não conseguir estabelecer uma consistência mínima sobre como aquele cenário funciona: em um momento, os personagens saem com embalagens de marmita nos pés (uma imagem ridícula e implausível que elimina qualquer possibilidade de tensão) para evitarem qualquer contato com a água; em outro, eles tocam em superfícies que antes haviam identificado como perigosas por um motivo ou outro.

O pior, contudo, é que as pessoas no centro de Acid são insuportáveis, tanto a filha quanto o pai (e este, em particular, é um imenso babaca que só inspira no espectador o desejo de vê-lo derretido). Ao mesmo tempo, o que deveria ser uma passagem impactante – a morte de certa pessoa – é apenas hilária graças à mise-en-scène desastrosa do cineasta.

Falhando até mesmo em funcionar como uma alegoria básica sobre as mudanças climáticas, este é um daqueles filmes cuja seleção para um festival importante como o de Cannes é inexplicável, representando uma armadilha para desavisados que, como eu, poderiam ter aproveitado bem melhor o tempo entrando em outra sala de projeção ou mesmo tirando uma hora para descansar e fazer uma refeição menos corrida.

23) Uma frase que menciono constantemente desde que a ouvi ser pronunciada pelo mestre Roger Ebert é aquela sobre como o Cinema “é uma máquina de criar empatia”. Ao nos colocar na pele de personagens dos mais diversos tipos, esta Arte maravilhosa nos leva a perceber a universalidade de nossas experiências mesmo quando são bastante particulares. Um bom exemplo reside neste Terrestrial Verses, escrito e dirigido pela dupla Ali Asgari e Alireza Khatami e que, consistindo de várias historinhas curtas ambientadas em Teerã, cria vinhetas distintas sobre uma sociedade que, em nome do extremismo religioso, se tornou acostumada a ver direitos e questionamentos básicos sendo podados no cotidiano (e antes que eu venha dizer que isto é algo típico do Islã, sugiro que leiam as notícias do cenário político brasileiro e se inteirem dos discursos e projetos de lei feitos por congressistas da bancada evangélica).

Apresentando cada curta através de um plano único e estático, o filme adota a estratégia recorrente de trazer uma voz fora de campo – normalmente situada “atrás” da câmera (isto é, caso esta existisse na diegese) – que se encarrega de podar os personagens que vemos na tela. Em um momento, vemos um pai que tenta registrar o nome do filho que acabou de nascer e tem todas as suas escolhas negadas pelo funcionário do cartório, que questiona desde a origem e significado dos nomes até o que estes dizem sobre as pessoas que os selecionaram. Já em outro – o mais poderoso -, vemos uma garotinha alegre dançando em uma loja com suas roupinhas coloridas, seus sapatos piscantes e uma expressão de inocência encantadora – até que, aos poucos, sua mãe e a vendedora vão adicionando camadas e camadas de tecido sobre seu corpo até que a animação infantil, sufocada, ceda a uma postura rígida e entristecida.

O resultado é menos um retrato negativa do Irã – ainda que se torne difícil não reforçar um olhar crítico sobre um sistema de governo teocrata – e mais o despertar de uma profunda admiração pela resiliência de seu povo, que encontra modos de resistência em pequenos atos que o transformam em gigante.

22 de Maio de 2023

Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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