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Os clássicos que a Academia esnobou Clube dos Cinco

DivulgaçãoCantando na Chuva (1952), por Pablo Villaça

Na semana que trouxe a consagração de O Artista entre os indicados ao Oscar 2012, é curioso perceber que uma das grandes e óbvias inspirações do longa francês é o clássico Cantando na Chuva, que também conta a história de um astro do cinema mudo que busca lidar com a transição para os filmes sonoros. E por que "curioso"? Porque, embora tenha de fato se tornado um clássico indiscutível, o filme dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly foi solenemente ignorado pela Academia na cerimônia de 1953 (que homenageava as produções do ano anterior). E quando digo "ignorado", não é porque ele saiu de mãos vazias da premiação (e saiu), mas porque foi indicado em apenas duas categorias: Atriz Coadjuvante (Jean Hagen, que vive a estrela de voz insuportável Lina Lamont) e Melhor Trilha Sonora de Musical (uma categoria já extinta).

Mas talvez o pior seja saber que, naquele ano, o pavorosamente ruim O Maior Espetáculo da Terra, uma besteira inchada e oca de Cecil B. DeMille, tenha saído como o grande vencedor da noite, levando as estatuetas de melhor Filme e Roteiro. Tudo bem que as canções icônicas de Cantando na Chuva não pudessem ter sido indicadas, já que não eram originais, mas ignorar o filme na categoria principal, além daquelas voltadas à Direção, ao Roteiro, aos Figurinos e à Direção de Arte (e só a longa sequência envolvendo o filme-dentro-do-filme já deveria garantir esta última)? E o que dizer do fabuloso Gene Kelly como Ator e do hilário Donald O'Connor como Coadjuvante? 

O tempo, porém, corrigiu o equívoco: e se hoje não há um único cinéfilo que não conheça a cena que dá título a Cantando na Chuva, o mesmo não pode ser dito sobre O Maior Espetáculo da Terra, corretamente enterrado e esquecido por quase todos. Mas que este foi um tropeço monumental, não há como negar.

DivulgaçãoEra Uma Vez no Oeste (1968), por Tullio Dias

Uma das maiores injustiças do Oscar aconteceu não só com um dos melhores faroestes de todos os tempos, mas com uma das produções mais importantes da história do cinema: Era Uma Vez no Oeste, de Sergio Leone.

Enquanto a maioria dos cinéfilos acha um absurdo Cidadão Kane ter sido indicado em nove categorias, incluindo Melhor Filme e Diretor, mas ter saído da cerimônia apenas com o prêmio de Roteiro Original, quase não se fala ou se lamenta o fato de que Era Uma Vez no Oeste foi completamente ignorado pela Academia em 1970 (o filme é de 1968, mas foi lançado nos Estados Unidos somente no ano seguinte) e não recebeu nenhuma indicação. Nenhuma

A ausência de outros grandes clássicos na lista de indicados ao Oscar é notória (o próprio Leone pode ser citado novamente com Três Homens em Conflitos, que também não possui indicações), mas no caso de Era Uma Vez no Oeste é realmente assustador constatar que nem mesmo a trilha sonora de Ennio Morricone foi lembrada. Como nosso colega Paulo de Tarso comentou na coluna Frame Sonoro, só a introdução do longa-metragem já é um show de técnica e demonstra toda a genialidade do compositor (que só veio a ter seu trabalho reconhecido pela Academia dez anos depois, quando recebeu a primeira de suas cinco indicações pela música de Dias de Paraíso – no entanto, seu único prêmio é o Oscar honorário, com o qual foi agraciado pela Academia em 2007). 

DivulgaçãoO Iluminado (1980) e Nascido Para Matar (1987), por Heitor Valadão

Stanley Kubrick é, de forma inegável, um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos. E você sabe quantos Oscars Kubrick ganhou como diretor? Nenhum. Na verdade, ele ganhou em toda a sua carreira apenas uma estatueta da Academia, como Supervisor de Efeitos Visuais de 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Claro, ele foi indicado algumas vezes nas categorias Melhor Filme e Diretor, mas sempre ficou a ver navios.

Em seu lançamento, em 1980, O Iluminado chegou a ser ridicularizado e rendeu a Kubrick um feito inédito: a indicação ao troféu Framboesa de Ouro de Pior Diretor. Stephen King, que escreveu o livro em que o filme é baseado, despreza a adaptação e as mudanças que o cineasta fez na história. Hoje, O Iluminado é considerado uma das obras máximas do suspense, além de ser copiado, plagiado e homenageado à exaustão. Sabe quantas indicações ao Oscar o filme teve? Nenhuma.

DivulgaçãoOutro dos filmes mais icônicos de Kubrick viria a ser ignorado pela Academia sete anos mais tarde. Quando chegou aos cinemas, em 1987, Nascido Para Matar foi muito comparado a Platoon, de Oliver Stone, que tinha sido lançado apenas um ano antes. Uma comparação fútil, já que mesmo abordando o mesmo assunto, são filmes essencialmente opostos. 

A mídia, que é muito diferente da crítica especializada, muito banalizou e colocou o longa-metragem de Stone em um pedestal como "o melhor filme já feito sobre a Guerra do Vietnã". A Academia esnobou Nascido Para Matar, indicando o filme apenas a Melhor Roteiro Adaptado (já Platoon teve oito indicações e ganhou quatro Oscars: Melhor Filme, Direção, Montagem e Som). O público também não mostrou muito interesse, já que Platoon, que custou um quinto do filme de Kubrick, rendeu nas bilheterias quase três vezes mais. Isso quer dizer que Nascido Para Matar é um filme inferior ou que Kubrick, como de costume, fez um filme à frente de sua época? O tempo mostrou que a segunda opção é a correta.

DivulgaçãoLuzes da Cidade (1931), por Larissa Padron

Charles Chaplin, junto com Alfred Hitchcock e Stanley Kubrick, é uma dos injustiçados históricos do Oscar. Apesar de ter recebido alguns prêmios da Academia, dois dos maiores e mais conhecidos filmes do cineasta e da história do cinema foram desprezados pela premiação: Tempos Modernos e O Grande Ditador (que recebeu cinco indicações - Melhor Filme, Roteiro, Ator, Ator Coadjuvante e Trilha Sonora - mas não venceu). No entanto, talvez a maior injustiça que a Academia cometeu com Chaplin foi nem ao menos ter indicado Luzes da Cidade.

O filme, que conta a história de amor entre o Vagabundo e uma florista cega, é presença certa em muitas listas de melhores filmes de todos os tempos e também é considerado por muitos como o melhor trabalho de Chaplin (é, por exemplo, o filme preferido de Orson Welles). Mesmo sendo lançado na época da Grande Depressão, o longa fez um grande sucesso, mas não o suficiente para despertar a atenção da Academia.

Rumores dizem que Chaplin desprezava o Oscar, tendo usado como calço de porta a estatueta especial que ganhou na primeira cerimônia, em 1929 (homenagem da Academia pela versatilidade e genialidade de Chaplin em protagonizar, escrever e dirigir O Circo). Este seria um dos motivos pelo qual a Academia passou décadas sem indicá-lo novamente. 

Em 1972, aos 83 anos, Chaplin recebeu outro Oscar honorário pelo conjunto da obra. Mas foi só no ano seguinte que ele realmente se tornou vencedor de uma estatueta, ganhando o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original por Luzes da Ribalta (apesar de o filme ser de 1952, ele foi lançado nos Estados Unidos 20 anos depois, devido às perseguições políticas que o cineasta sofria). 

DivulgaçãoScarface (1983) e Os Intocáveis (1987), por Renato Silveira

Da turma de diretores americanos que agitaram Hollywood a partir dos anos 70, Francis Ford Coppola e Steven Spielberg foram os primeiros a ganhar o reconhecimento da Academia. Já Brian De Palma e Martin Scorsese passaram anos vendo seus filmes serem indicados em diversas categorias do Oscar, mas eles mesmos sempre ficavam de mãos vazias. Scorsese pelo menos foi indicado ao prêmio de Melhor Direção cinco vezes até finalmente ganhar por Os Infiltrados, em 2007. Mas De Palma, coitado, até hoje nunca teve a chance de estar entre os cinco concorrentes ao troféu.

Numa análise rápida da filmografia de De Palma, pelo menos dois filmes saltam aos olhos como clássicos modernos que a Academia ignorou. O primeiro, de 1983, é Scarface. O longa estrelado por Al Pacino no papel do traficante Tony Montana não recebeu uma indicação sequer ao Oscar. Nada mesmo. E assim como ocorreu com Kubrick por O Iluminado, De Palma ainda foi lembrado pelo Framboesa de Ouro, concorrendo, pasmem, ao troféu de Pior Diretor. O tempo passou e Scarface é tido hoje como um dos grandes filmes de gângster que Hollywood já produziu – e Tony Montana se tornou um ídolo pop.

DivulgaçãoTalvez Scarface só não possa ser considerado como o melhor filme que De Palma já realizou (classificação sempre vulnerável à dúvida, levando em conta que estamos falando do diretor que também fez Um Tiro na Noite e O Pagamento Final, dois outros filmaços que a Academia ignorou) porque quatro anos mais tarde Os Intocáveis chegou aos cinemas. Mais uma vez, o diretor entregou um épico policial arrebatador, com sua assinatura de cima a baixo. Se antes ele refilmou o clássico de Howard Hawks (Scarface – A Vergonha de uma Nação, de 1932, também esnobado pela Academia, assim como inúmeros grandes trabalhos de Hawks), desta vez De Palma criou uma nova versão da série de TV de mesmo nome que foi ao ar em 1959.

Além do extraordinário trabalho de direção (as sequências de tiroteio na escadaria da estação ferroviária e na casa de Jim Malone já justificariam a indicação), Os Intocáveis reúne diversos outros fatores que deveriam tê-lo tornado um dos grandes vencedores da história do Oscar. Mas o filme recebeu apenas quatro indicações: Melhor Trilha Sonora, para Morricone, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Ator Coadjuvante, para Sean Connery.

Apenas esta última estatueta ficou com o longa, que acabou fora da categoria Melhor Filme, preenchida por Atração FatalEsperança e GlóriaFeitiço da Lua, Nos Bastidores da Notícia e o grande vencedor, O Último Imperador. Destes, apenas Nos Bastidores da Notícia não foi indicado na categoria Melhor Direção. Quem ocupou a vaga de James L. Brooks foi Lasse Hallström, por Minha Vida de Cachorro. E, sim, meus caros, Adrian Lyne foi indicado ao Oscar e De Palma, não.

Injustiças, como vocês podem ver por esta nossa pequena lista, acontecem desde o início da premiação da Academia. Quantas mais virão?

Quer relembrar mais algum clássico que foi esnobado pelo Oscar? Deixe seu comentário e complemente nossa discussão!

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