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SE MEU APARTAMENTO FALASSE Cinemateca

Movie-wise, there has never been anything like "The Apartment", love-wise, laugh-wise, or otherwise-wise! (Frase do cartaz original do filme.)

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Fran [prestes a chorar]: “Como pude ser tão burra? Você deve pensar: ela já deveria ter aprendido. Quando se está apaixonada por um homem casado, não se deve usar maquiagem.”

Às vezes parece difícil crescer numa empresa. Você se sente estagnado, sem falar na grande competitividade que existe entre os funcionários. No entanto, existem algumas maneiras de ganhar a simpatia do chefe, ser valorizado e, quem sabe, ser até promovido. Uma delas é trabalhar muito. Evidentemente, essa (exaustiva) alternativa não é garantia de sucesso. Se você vive esse dilema, a ideia inovadora de C.C. Baxter (Jack Lemmon) pode te ajudar. O moço descobriu uma nova forma de chamar a atenção do alto-escalão da empresa de seguros onde trabalha e se tornar indispensável na vida de algumas pessoas influentes. O solícito funcionário passou a ceder seu apartamento para que alguns dos seus colegas pudessem ter um lugar discreto e aconchegante para levar as amantes.

Claro que essa prática não é isenta de dores de cabeça. Você tem que lidar com a bagunça deixada no seu apartamento, com problemas de agendamento e revezamento entre os colegas, com o risco de dormir fora de casa quando alguém esquece de devolver a chave, com os olhares de reprovação do vizinho que acha que você é um mulherengo… Mas esses são os menores dos problemas. A situação se torna realmente grave quando você se apaixona pela amante do seu chefe e, mais grave ainda, quando ela tenta se suicidar no seu apartamento. Se você quiser saber se vale a pena fazer como C.C. Baxter, não deixe de ver Se Meu Apartamento Falasse.

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C.C. Baxter: “Eu costumava viver como Robinson Crusoé. Quero dizer… Como um náufrago no meio de 8 milhões de pessoas. Um dia eu vi uma pegada na areia e lá estava você.”

Em Se Meu Apartamento Falasse, o diretor e roteirista Billy Wilder trata (de uma maneira leve, mas crítica) a questão da ética no trabalho, mostrando como o sucesso no mundo corporativo está, muitas vezes, ligado à troca de favores. No entanto, o clássico de 1960 é, acima de tudo, a história de dois indivíduos desajustados, uma história de amor nada convencional. É interessante observar que Se Meu Apartamento Falasse é bastante diferente do hilário Quanto Mais Quente Melhor, imenso sucesso de Wilder, lançado apenas um ano antes. Se o clássico de 1959 é uma comédia de erros que conta com personagens travestidos, diálogos de duplo sentido e situações absurdas, o filme de 1960 é uma comédia dramática sentimental. Os dois filmes têm em comum a genialidade de Wilder, diálogos brilhantes e o talento de Jack Lemmon. 

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J.D. Sheldrake: “Você sai com uma garota algumas vezes, só para dar risadas, e ela já pensa que você vai se divorciar da sua esposa. Agora eu te pergunto: isso é justo?”
C.C. Baxter: “Não senhor, é muito injusto… Especialmente com a sua esposa.”

Se Meu Apartamento Falasse é centrado em personagens cativantes e humanos, interpretados por grandes atores. Jack Lemmon, que dá vida ao protagonista, é o anti-herói por excelência. A aparência do ator (que não corresponde a do típico galã), seu incrível timming cômico e sua expressividade lhe possibilitaram interpretar grandes papéis durante sua carreira e C.C. Baxter é, sem dúvida, um dos seus melhores trabalhos. Lemmon confere certa tristeza e melancolia ao personagem. Não se trata apenas do anti-herói engraçado, desajeitado e azarado. C.C. Baxter é também um homem de coração partido. Lemmon confere dignidade ao protagonista e, se rimos de suas desventuras, também nos compadecemos do seu drama.

O mesmo pode ser dito de Shirley MacLaine, que interpreta Fran e cria uma personagem tragicômica, uma suicida em potencial. A atriz comunica magistralmente o desamparo e vulnerabilidade de sua personagem. Talvez o maior charme de Se Meu Apartamento Falasse seja o de revelar, sob a aparente face de comédia, o drama desses indivíduos complexos. Fechando o triângulo amoroso, temos Fred MacMurray (como Jeff D. Sheldrake, chefe de C.C. e amante de Fran), galã e grande estrela da época, que é o perfeito contraponto de Jack Lemmon. 

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C.C. Baxter: “O seu espelhinho está quebrado.”
Fran Kubelik: “Sim, eu sei. Eu gosto dele desse jeito. Eu me vejo como eu me sinto.” 

Sentimental, sem ser sentimentalista, Se Meu Apartemento Falasse se passa, em grande parte, entre quatro paredes, o que revela a intenção de Wilder de criar uma narrativa intimista. O diretor focaliza a construção dos personagens e a interação entre eles. A relação de Fran e C.C. é a alma do filme (muito em função da ótima química entre Lemmon e MacLaine, ambos indicados ao Oscar). Essa relação não é baseada em uma atração física, mas numa simpatia de almas. Os dois personagens são problemáticos: ela é apaixonada por um homem casado que nunca deixará a esposa; e ele tem que lidar com um amor não correspondido, a humilhante submissão ao chefe cafajeste e o desejo de ascensão na empresa. O belíssimo final do filme (Wilder é o mestre em finais geniais) é a prova da sensibilidade do diretor, que opta por sugerir qual será o futuro do casal, ao invés de explicitá-lo. Mesmo que não testemunhemos o esperado beijo, Se Meu Apartamento Falasse continua sendo um dos filmes mais românticos de Hollywood. Ganhador de cinco Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Montagem, Melhor Roteiro e Melhor Direção de Arte), essa celebrada obra-prima é também prova da versatilidade de Wilder. Poucos filmes combinam com tanta maestria comédia, romance e drama.

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C.C. Baxter: “Você ouviu o que eu falei, Miss Kubelik? Eu absolutamente adoro você.”
Fran Kubelik: “Cale a boca e dê as cartas.”

Saiba mais sobre Se Meu Apartamento Falasse e outros filmes de Billy Wilder no Podcast Cinema em Cena dedicado à obra do diretor. Ouça aqui.

Copyright Cinema em Cena 2012LEONARDO ALEXANDER é crítico de cinema, criador e mantenedor do blog Clube do Filme, estudioso de Literatura e Cinema na Université Paris Diderot (França) e apaixonado pelo cinema clássico hollywoodiano. Na coluna Cinemateca, ele analisa obras, diretores e gêneros, além de dar curiosidades e informações sobre os grandes clássicos do cinema mundial.

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