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Uma Rua Chamada Pecado - parte 2 Cinemateca

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O elenco da versão fílmica: Vivien Leigh, Marlon Brando, Kim Hunter e Karl Malden.

LEIA A PRIMEIRA PARTE

O elenco de Uma Rua Chamada Pecado é o mesmo que Kazan dirigiu na Broadway, com exceção de Vivien Leigh. A atriz britânica já havia interpretado Blanche Dubois em Londres, em 1949, em uma montagem dirigida por seu marido, Laurence Olivier. Na Broadway, a personagem foi interpretada por Jessica Tandy. Tandy é lembrada, sobretudo, pelos seus últimos trabalhos no cinema, com destaque para Conduzindo Miss Daisy (1989) e Tomates Verdes Fritos (1991). Ao contrário de Leigh, ela jamais foi uma estrela de cinema. Jack Warner e o produtor Charles K. Feldman sentiam a necessidade de ter um nome de peso encabeçando o elenco; alguém que atraísse uma boa bilheteria. Antes de ser oferecido a Leigh, o personagem foi proposto a sua colega de E o Vento Levou (1939), Olivia de Havilland, mas as exigências da atriz impossibilitaram as negociações. Em uma entrevista, o ator Karl Malden afirmou que foi justamente a inclusão de Leigh no elenco que possibilitou que ele e os outros atores (desconhecidos do grande público até então) participassem do filme.

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Tennessee Williams e Elia Kazan.

Uma das coisas que inquietava Kazan com relação à peça era que o público se identificava muito mais com o personagem de Stanley do que com Blanche, ou seja, os espectadores amavam mais o carrasco do que a vítima. Isso ocorria, em grande parte, por causa do extraordinário desempenho de Marlon Brando, que parecia ofuscar Tandy. Em sua autobiografia, o diretor manifesta sua preocupação:

“A peça estava se transformando em um show de Marlon Brando. Eu evitava tocar no problema, porque eu não conhecia uma solução. Eu não poderia deixar que os atores percebessem minha inquietação. O que eu poderia dizer a Brando? Para ele ser menos bom? E a Jessie [Jessica Tandy]? Para ser melhor? Não, eu corria o risco de obter um resultado destrutivo, ainda mais para Jesssica”.

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Cena da peça na Broadway. Em primeiro plano, Jessica Tandy. Ao fundo, Marlon Brando e Kim Hunter.

Com essas questões o atormentando, Kazan recorreu a Tennessee Williams para saber o que, de fato, o público deveria sentir com relação aos dois protagonistas. O dramaturgo afirmou, então, que o público deveria sentir compaixão e piedade por Blanche, compreendendo o drama da personagem. Williams acrescentou que Stanley não deveria ser, no entanto, mostrado como um monstro. Para o autor, não é uma pessoa (Stanley) que destrói Blanche e, sim, uma “coisa”, a incompreensão:

“Stanley não vê Blanche como um ser à deriva, desesperado [...]. Uma pessoa jamais vê as outras como elas realmente são; julgamos o outro sob a luz dos nossos próprios defeitos”.

Quando finalmente aceitou dirigir Uma Rua Chamada Pecado no cinema, Kazan viu que esta era a oportunidade de explorar o personagem de Blanche, algo que ele sentia que faltara à peça. No filme, por exemplo, Blanche é a primeira personagem que vemos surgir em cena, algo que não ocorria nos palcos. Focalizar Blanche e seu universo era o desafio que animava Kazan ao trabalhar novamente com o mesmo texto. A substituição de Tandy também lhe pareceu, eventualmente, interessante, ainda que ele nutrisse grande afeição pela atriz:

“Para ser bastante franco, hoje, com um distanciamento, não tenho certeza de que, eu mesmo, não queria uma atriz diferente para o papel de Blanche. A peça tendo perdido o frescor para mim, eu tinha necessidade de um eletrochoque para me colocar nos trilhos”.

Sem dúvida, a chegada de Leigh foi um choque e tanto para o diretor.

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Vivien Leigh recebeu seu primeiro Oscar em 1940, por E o Vento Levou.

Leigh teve um percurso interessante no cinema. Após protagonizar E o Vento Levou (1939), um dos filmes mais populares de todos os tempos, e conquistar, merecidamente, fama mundial, a atriz optou por se dedicar ao teatro na Inglaterra, ao invés de permanecer sob os holofotes de Hollywood. Doze anos separam E o Vento Levou de Uma Rua Chamada Pecado. Nesse meio tempo, Leigh fez somente quatro filmes, apenas um deles em Hollywood. Mesmo não sendo uma figura recorrente nas telonas, o público americano jamais a esqueceu. Em 1969, o crítico Andrew Sarris comentou esse fenômeno. Segundo ele, a escalação da atriz como Scarlett O’Hara, no clássico de 1939, é um dos fatores responsáveis pelo imenso sucesso do filme e que Leigh vive em nossas mentes e lembranças como uma força dinâmica, ao invés de uma presença estática”. Uma das ironias apontadas por muitos é que os dois grandes personagens da carreira da atriz no cinema são southern belles (belas do sul norte-americano), sendo que a atriz era britânica. 

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Vivien Leigh como Scarlett e como Blanche.

A sombra de Scarlett O’Hara traz uma densidade ainda maior à Blanche Dubois. Além das duas personagens interpretadas por Leigh serem sulistas, Belle Rêve (fazenda de Blanche) evoca Tara (propriedade de Scarlett). Blanche parece refletir a imagem de uma Scarlett decadente, que carrega as marcas da desilusão e do tempo. Florence Colombani, escritora, crítica de cinema e cineasta, afirma, em sua obra Elia Kazan: Une Amérique du chaos (2004), que "explorando a memória inconsciente do espectador, Kazan dá uma espessura dramática excepcional a seu filme". Ela acrescenta: “a lenta queda de Blanche e seu calvário se tornam ainda mais pungentes, pois são o calvário e a queda de alguém que o público ama e conhece”. O trágico fim de Blanche é, portanto, ainda mais dilacerante já que nossa memória afetiva guarda a imagem da altiva e exuberante Scarlett. 

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Elia Kazan dirigindo Vivien Leigh e Kim Hunter.

A relação de Leigh e Kazan foi bastante complicada durante as filmagens de Uma Rua Chamada Pecado. O principal motivo de conflito entre a atriz e o diretor era a resistência da primeira às orientações do segundo. Leigh questionava sucessivamente as escolhas do diretor, comparando a direção de Kazan àquela de Laurence Olivier. Alguns fatores contribuíram para um mal-estar nos sets: a atriz era a única estrangeira, a única integrante do elenco que não havia participado da montagem na Broadway e que não tinha, portanto, familiaridade com os colegas. Além disso, Leigh não era adepta do Método (conjunto de técnicas de atuação associadas ao Actor’s Studio), o que fazia dela uma completa estranha no ninho. Reza a lenda que o diretor, percebendo o deslocamento da atriz, utilizou-o para acentuar o deslocamento de sua personagem na trama. Com o passar do tempo, Leigh e Kazan encontraram uma maneira de conviver, mas a animosidade continuou. Em sua autobiografia, Kazan morde e assopra ao falar da atriz:

“Ela [Vivien Leigh] tinha um pequeno talento, mas sua determinação de ser a melhor era incomparável. Ela andaria sobre cacos de vidro se isso fosse necessário para melhorar sua atuação”.

Dificilmente um reconheceria no outro o grande talento que, de fato, tinham, já que cada um possuía experiências e valores bem distintos no que tangia a formação artística: Leigh era filha do teatro clássico e Kazan foi um dos precursores do Método nos Estados Unidos.

O contraste entre teatralidade de Leigh e o realismo privilegiado por seus colegas é um dos pontos fortes do filme. Marlon Brando chegou a afirmar que a atuação da atriz britânica era superior àquela de sua ex-colega Jessica Tandy, algo que Kazan jamais admitiu. Leigh consegue transmitir magistralmente a inadequação de sua personagem ao mundo real e toda a complexidade do universo mental da protagonista. Blanche Dubois é um ser tão frágil que, muitas vezes, parece se revestir de uma personagem e de uma ilusão para poder enfrentar a vida e as pessoas a sua volta, como se fosse uma atriz em um palco. Por essa razão, às vezes, seus gestos e voz parecem tão artificiais. Quando ela se vê abatida pelo real, vemos a transformação e a desfiguração de Leigh. 

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Vivien Leigh tinha 36 anos quando interpretou Blanche.

Pauline Kael, em sua famosa crítica, afirmou que Leigh nos oferece uma dessas raras performances que verdadeiramente evocam piedade e terror e que ninguém, após Lilian Gish, nos primórdios do cinema, transmitiu tamanha vulnerabilidade e fragilidade feminina como Leigh o fez em Uma Rua Chamada Pecado. A atriz nos faz testemunhar a jornada de uma mulher em direção à loucura, nos revelando uma alma atormentada por ilusões e massacrada pela realidade. O trágico fim de Blanche encontra eco na vida pessoal da atriz. Posteriormente, a atriz teve dificuldades de se distinguir de Blanche. Alexander Walker, autor da biografia de Leigh, conta um episódio revelador da vida da atriz, que sofria de depressão e de transtorno bipolar. Em uma de suas crises, anos após Uma Rua, ela foi interpelada por uma enfermeira que disse para acalmá-la: Eu te reconheço, você é Scarlett O’Hara, ao que ela retrucou, furiosa: Eu não sou Scarlett O’Hara, sou Blanche Dubois!

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Marlon Brando e Vivien Leigh fumando no set de filmagem.

Como bem disse Pauline Kael, Uma Rua Chamada Pecado veicula o encontro de duas das maiores atuações vistas no cinema. Contrapondo-se brilhantemente a Leigh, o Stanley Kowalski de Brando é uma força da natureza. Em seu segundo filme, o ator opera uma revolução na forma de se atuar no cinema. Nenhum ator que o precedeu mostrou tamanha brutalidade, sensualidade, sex appeal e realismo em cena. Há algo de extremamente animalesco e fascinante na performance de Brando, algo que nos faz sentir repulsa pelo personagem, sem, no entanto, deixarmos de nos sentir atraídos por ele.

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Uma Rua Chamada Pecado foi o segundo filme de Marlon Brando. Ele tinha 27 anos quando o filme foi lançado.

Kazan manteve um rico diário sobre Uma Rua Chamada Pecado. Suas anotações revelam diversas reflexões interessantes sobre o seu trabalho. Talvez seja dele a melhor definição para o filme/peça:
 
“Esta obra é uma tragédia poética. Nós somos testemunhas da decadência final de uma pessoa de valor que, em um dado momento de sua vida, tem um grande potencial e que, mesmo em seu declínio, possui qualidades que superam aquelas dos ‘sãos’ e rudes que a destroem”.

O filme de Kazan é sem dúvida uma obra-prima, resultado de encontros insólitos e de um conjunto de golpes de sorte: o filme poderia não ter saído do papel se não fosse graças a Jack Warner; Kazan poderia não ter dirigido o filme se não fosse pela intervenção de Tennesse Williams; o filme poderia ter sido fatalmente amputado por causa da censura; Leigh poderia não ter participado, caso Olivia de Havilland tivesse aceitado o papel; etc, etc, etc. O filme, ainda nos dias de hoje, se revela um ousado retrato do combate entre a ilusão e a realidade, entre a sanidade e a loucura e entre o desejo e a morte.

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Em 2007, o American Film Institute classificou o filme em 47º lugar na lista dos 100 melhores filmes de todos os tempos. 
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