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A abertura de ERA UMA VEZ NO OESTE Frame Sonoro

Nesta estreia de Frame Sonoro, vou abordar o que muitos consideram uma das grandes celebrações à arte do desenho de som (ou sound design, em inglês) de toda a história do Cinema: a antológica abertura de Era uma Vez no Oeste, obra-prima de 1968 do diretor italiano Sergio Leone.

O filme começa numa velha e arruinada estação ferroviária, abandonada no meio do deserto, onde três homens vestindo sobretudos surrados estão aparentemente aguardando a chegada do próximo trem. Não demora para o público descobrir que aqueles sujeitos são pistoleiros e, com certeza, não estão com a melhor das intenções.

A abertura toda dura pouco mais de 12 minutos, sem música "normal" ou diálogos, somente sons naturais e ambientes. Alguns trechos da parte sonora que vale a pena destacar:

- O onipresente rangido do enferrujado moinho de vento

- A goteira caindo no chapéu do personagem de Woody Strode

- A hilária captura da mosca feita pelo personagem de Jack Elan

- O estalar dos dedos do pistoleiro interpretado por Al Mulock

- A primeira porta que é aberta, nos segundos iniciais do filme, e que possui um som muito próximo ao tema da harmônica tocada pelo personagem de Charles Bronson

- O momento em que Jack Elan arranca os fios do barulhento telégrafo, e todos os outros sons também se silenciam

- O motor da locomotiva já estacionada, que cria a tensão necessária à cena.

Originalmente, a introdução do filme era para ser toda construída com música, mas acabou não funcionando e foi ideia do próprio Ennio Morricone (compositor responsável pela música deste e de muitos outros filmes de Sergio Leone), de criar toda a ambientação utilizando somente sons diegéticos. O próprio Morricone citou a música concreta contemporânea como influência. Ele partiu das ideias utilizadas por muitos compositores desta escola (John Cage, Stockhausen, Pierre Boulez, só para citar alguns), de que qualquer som, de qualquer natureza, pode ser utilizado em construções (ou desconstruções) musicais. 

O resultado é, até hoje, de um primor e criatividade que virou referência para estudiosos e cinéfilos. Só para ficar com um exemplo: o rangido do enferrujado moinho é ouvido em Rango, animação de 2011 de Gore Verbinski.

Todos os sons, tanto deste início como do restante do filme, foram gravados e editados por uma equipe italiana liderada por Fausto Ancillai (também responsável pela mixagem final do filme), na etapa conhecida como Pós-Produção de Som.

É também dentro dessa etapa onde são tratados os diálogos. Estes foram quase que inteiramente regravados em estúdio (processo conhecido como Dublagem) e isso é claramente percebido em alguns trechos, onde são evidentes as falhas de sincronismo labial. Mas para a época foi uma ousadia, até porque uma pós-produção tão extensa exige um orçamento bem maior que o normal..

Originalmente, todo o som do filme foi mixado em monofônico (ou simplesmente "mono"), mais tarde "expandido" para 5.1 quando lançado em DVD e Blu-Ray. A trilha orquestral de Morricone passou para estéreo e alguns poucos efeitos sonoros foram adicionados, preservando-se  a mixagem original (o que é a atitude correta nesses casos).

Além da introdução, no restante do filme a parte sonora continua sendo muito bem explorada. Note esses três momentos:

- Quando bandidos se aproximam sorrateiramente de uma fazenda, a família que lá vive percebe que algo está errado porque o canto das cigarras (tão em evidência até então) subitamente cessa

- A apresentação do personagem de Jason Robards (Cheyenne) é um primor de narrativa sonora: a viúva Jill (Claudia Cardinale) está numa espécie de taverna quando ouvimos o relinchar de cavalos, uma briga e alguns tiros. Abre-se a porta e Cheyenne entra na taverna. O público descobre que ele era um prisioneiro escoltado por um policial que consegue de alguma forma uma arma e mata esse policial. Tudo isso é contado somente com sons, a câmera permanece o tempo todo dentro da taverna.

- As subidas e descidas de Cheyenne no teto de um vagão de trem, utilizando como "escada" um puxador de descarga de privada. Quando ouvimos a descarga, sabemos que ele está por ali. Além de suas passeadas no teto desse mesmo vagão. A câmera permanece no interior do carro e só percebemos a sua presença pelo som de suas botas.

E, por último, não dá para deixar de citar a utilização inteligente e orgânica da música de Morricone. Além de ter criado temas específicos e marcantes para cada um dos personagens principais, ele tem neste filme um dos pontos altos de sua carreira como compositor para cinema. Milhares de linhas já foram escritas analisando e dissecando a música que ele criou para Era Uma Vez no Oeste e como ela interage com os personagens e situações.

Até a próxima edição de Frame Sonoro, e aproveitem para rever (e principalmente ouvir) a abertura antológica deste clássico:

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