27 ANOS
Conversa de Cinéfilo

87 - Por que Cancelei a Netflix e Acredito que Você Também Deveria - Parte II

Pablo Villaça

Pablo Villaça

Crítico e colunista

87 - Por que Cancelei a Netflix e Acredito que Você Também Deveria  - Parte II

POR QUE CANCELEI A NETFLIX E ACREDITO QUE VOCÊ TAMBËM DEVERIA FAZÊ-LO – PARTE II

Na primeira parte deste artigo, deixei claro que o lançamento da série O Mecanismo representou apenas a gota d’água em um processo que já me levava há muito tempo a considerar o cancelamento da Netflix. Estas razões abrangem o mal que a corporação vem fazendo ao Cinema tanto como experiência individual quanto comunal – e, não por acaso, o Festival de Cannes, o mais prestigiado evento internacional da Sétima Arte, baniu os filmes da plataforma.

Os problemas começam no próprio catálogo do serviço: embora se venda como uma forma de democratizar o Cinema, facilitando o consumo por espectadores que normalmente não têm tempo ou dinheiro para ir a uma sala de exibição ou comprar DVDs, a Netflix na realidade vem estreitando as opções disponíveis para seus clientes, que, pela comodidade, se conformam em assistir produções que são negociadas em pacotes com o propósito principal de despejar títulos e mais títulos que possam manter os assinantes presos ao site. Aliás, a Netflix usa a “sobrecarga de escolhas” (termo cunhado por Alvin Toffler) justamente para manter a ilusão de oferecer um número colossal de opções quando, de fato, estas são incrivelmente reduzidas. Isto traz, obviamente, sérias consequências de um ponto de vista cultural – como explicou o professor de estudos cinematográficos Stephen Prince, da Virginia Tech, em artigo da Newsweek: “A conveniência predispõe os espectadores ao Cinema mainstream e torna os filmes do passado ou de outras culturas menos visíveis”.

E o pior é que, com a dominância da Netflix (que é basicamente um monopólio hoje no Brasil), qualquer obra que não conste de seu catálogo está fadada ao esquecimento. Já perdi a conta, por exemplo, de quantas vezes recomendei filmes para leitores apenas para ouvir a inevitável pergunta “Tem na Netflix?”. Isto é um impedimento real para que espectadores casuais se tornem apaixonados pela arte, já que ninguém nasce cinéfilo, tornando-se um à medida que surge a curiosidade de ir além do que as distribuidoras lançam nas salas toda quinta-feira. Para ilustrar, lembro de meu caminho na cinefilia, que começou com as Sessões da Tarde, Supercine e outros espaços para filmes na TV, expandiu-se com as idas às salas de exibição e culminou nas prateleiras de clássicos nas locadoras de vídeo. Infelizmente, a Netflix se equivale, neste aspecto, a uma pequena videolocadora de bairro, que comprava apenas os lançamentos por não acreditar que filmes “antigos” atrairiam os clientes. E se com a Internet surgiu a oportunidade de assistir a qualquer obra lançada em toda a História do Cinema com um clique, até mesmo os torrents se tornaram quase esquecidos por exigirem algum esforço.

(Não, não estou advogando em prol da pirataria, mas apenas apontando como a Netflix vem criando espectadores preguiçosos.)

Pois vocês sabem quantos filmes brasileiros existem na Netflix Brasil? 59.

Quantos documentários? 679 – um número que parece satisfatório até descobrirmos que, destes, nada menos do que 624 foram produzidos de 2010 para cá e incluem uma infinidade de bobagens produzidas aparentemente por 10 reais e jamais exibidas em uma sala de cinema, abordando temas como a existência do Pé-Grande (Discovering Bigfoot), a possibilidade de que a Gênese tenha realmente acontecido como descrito na Bíblia (Is Genesis History?) ou simplesmente visitas guiadas a prédios famosos (Secrets of Westminster). Além, claro, das séries lançadas em canais de tevê insignificantes por não terem nada de interessante a oferecer, como Die Trying, que mostra “aventureiros” entrando em crateras vulcânicas ou buscando “superursos”.

Aliás, sabem quantos filmes anteriores a 1985 a Netflix Brasil tem em seu catálogo? 69. Sim, dos aproximadamente 4.000 títulos oferecidos pela filial brasileira (um número ridículo em si mesmo, bastando dizer que uma das últimas lojas da BlockBuster - que funciona no Alaska - oferece nada menos do que dez mil títulos), cerca de 3.930 foram produzidos de 85 para cá. Para deixar mais claro ainda: mais de 98% de todo o catálogo da Netflix Brasil foram produzidos a partir de 1985. E não, a Netflix dos EUA não é muito melhor, oferecendo apenas 5.658 obras.

Em matéria publicada no New York Times, o (excepcional) crítico Matt Zoller Seitz é citado afirmando: “Eu me preocupo que a dominância cultural da Netflix, que não se importa com filmes mais velhos, esteja destruindo a cinefilia como a conhecemos”. Esta falta de preocupação com o Cinema como Arte é manifestada também pelo recurso de “saltar os créditos iniciais” implementado há algum tempo pelo sistema: se a ideia faz sentido para séries, já que durante o binge-watching ninguém quer assistir aos mesmos créditos uma dúzia de vezes, para o Cinema é absurda. Além de ignorar como os créditos frequentemente introduzem a atmosfera do filme, há rimas visuais que são destruídas (em artigo publicado no The Guardian, é revelado que todo o voo da pena branca no início de Forrest Gump é pulado), informações importantes que são descartadas e, claro, a própria e rica arte envolvida na criação destes créditos é ignorada. Para tornar tudo pior, a única “curadoria” (na falta de uma palavra melhor) existente na plataforma é completamente automatizada – e grande parte dos assinantes aceita a primeira recomendação oferecida ao entrar no site. É cômodo? Sem dúvida. No entanto, também traz efeitos deletérios: em um estudo publicado por dois executivos da Netflix em 2016, já é possível notar a prioridade da empresa no título: “Algoritmos, Valores de Negócio e Inovação”. Nada sobre a qualidade artística do que é oferecido e que deveria ser, suponho com ingenuidade, o centro de um negócio devotado a distribuir conteúdo artístico.

Aliás, ao comentar o estudo para a revista Filmmaker, o produtor Dan Schoenbrun discute o empobrecimento cultural resultante deste tipo de abordagem e do fato de que, na prática, um algoritmo se tornou o “mais influente curador desta geração”. O problema com isso? “Este é um curador que não busca provocar ou desafiar ou educar ou expandir nossa compreensão sobre Arte. Não busca apresentar ao espectador trabalhos desafiadores. Não busca dar espaço às questões políticas e sociais de nosso tempo. Em vez disso, os únicos objetivos deste curador são comerciais: continuar alimentando os clientes com o que querem e, em troca, ajudar a Netflix a continuar a crescer e se fortalecer como negócio. (...) Tudo isso resultará num crescimento de nosso consumo e dos lucros da Netflix. E uma queda em nossa exposição a qualquer tipo de arte fora de nossa zona de conforto”.

Pois eu iria além e alteraria parte da passagem acima para “continuar alimentando os clientes com o que julgam querer”, já que nada de novo lhes é apresentado.

E não posso esquecer de mencionar que mesmos estes algoritmos são limitados, agrupando filmes completamente diferentes, por exemplo, apenas porque são protagonizados por intérpretes negros – o que representou uma surpresa para a cineasta Gina Prince-Bythewood, que viu seu drama Nos Bastidores da Fama ser recomendado ao lado da comédia romântica Meus Cinco Favoritos. Outro exemplo apontado pela Paste é o fato de o triste e socialmente relevante Fruitvale Station, que aborda a violência policial contra negros, ser listado como similar à sitcom oitentista A Different World.

Mas a Netflix está também desempenhando um papel triste não só ao apagar os clássicos, mas ao dificultar imensamente a experiência do Cinema nas salas de exibição, em telas grandes. Aliás, igualmente grave: a empresa está dificultando as carreiras de pequenas produções em festivais internacionais, onde teriam a chance de serem descobertos por público e crítica. Em entrevista à Variety, Robert Olla, diretor executivo de um fundo de coprodução europeia, revela que a corporação vem abordando realizadores ligados a coproduções envolvendo mais de um país e oferecendo para comprar os filmes – com a condição de que, com exceção do país responsável pela maior parte do dinheiro, todos os outros territórios serão exclusividade da Netflix. Ah, sim: e o projeto está proibido de ser exibido em mais de cinco festivais ao redor do mundo. “Com isso, o filme vai parar no poço sem fundo da Netflix, com visibilidade zero”, diz Olla. (Um outro problema que, diga-se de passagem, discuti na primeira parte.)

Este desrespeito pela experiência pública do Cinema também já foi manifestado pela Netflix ao insistir em desafiar regulamentações internacionais ao ignorar o período determinado por lei entre a exibição nos cinemas e a disponibilização via streaming, o que contribuiu para seu banimento do Festival de Cannes e a frustração crescente entre grandes cineastas: em várias ocasiões, o diretor Christopher Nolan expressou sua antipatia à intransigência da Netflix, dizendo ao IndieWire que “...a Netflix tem essa aversão bizarra a apoiar a exibição nos cinemas. (...) Já a Amazon está feliz em não repetir este erro, concedendo uma janela de 90 dias entre cinema e streaming. É um modelo perfeitamente usável. É ótimo”. Enquanto isso, Steven Spielberg declarou recentemente que os títulos lançados diretamente na Netflix (ou exibidos rapidamente apenas para se tornarem elegíveis) não devem concorrer ao Oscar: “Certamente que, sendo um bom trabalho, merece um Emmy. Mas não um Oscar. (...) E não acho que filmes que aparecem em uns dois cinemas por menos de uma semana deveriam se classificar para o Oscar”.

Para concluir, é fundamental notar que há uma razão para a Netflix estar investindo tão pesadamente em produções originais que, como também apontado anteriormente, colocam a duração acima da ambição artística: como boa parte de seu catálogo é constituído de obras licenciadas dos grandes estúdios, a empresa está, na prática, nas mãos destes. A Disney, por exemplo, está preparando sua própria plataforma de streaming e, com isso, os dias de seus filmes e séries na Netflix estão contados.

E aqui vale lembrar que a Disney é dona também da Pixar, da Marvel, da franquia Star Wars e, em breve, da Fox.

Oh-oh.

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Minha intenção inicial era explicar, em um único artigo, quais foram os vários motivos que me levaram a cancelar a Netflix, já que muitos atribuíram a decisão apenas ao lançamento da série O Mecanismo. No entanto, assim que comecei a escrevê-lo, percebi que eram em número bem maior do que eu havia me dado conta. Assim, depois de publicar a primeira parte, julguei que abordaria o restante na segunda.

Errei novamente. Aqui, consegui concluir apenas minhas razões como amante do Cinema. Há, ainda, as questões éticas da empresa e que envolvem práticas sociais e comerciais questionáveis e, claro, outras ainda mais graves relacionadas aos escândalos da indústria que começaram a vir a público em outubro do ano passado.

E que abordarei na terceira – e última – parte, que publicarei no início da próxima semana.

Um grande abraço e bons filmes!

31 de Março de 2018

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Comentários (17)

Alan Ferreira
Alan Ferreira10 de abril de 2018 às 13:30

"Infelizmente, a Netflix se equivale, neste aspecto, a uma pequena videolocadora de bairro, que comprava apenas os lançamentos por não acreditar que filmes “antigos” atrairiam os clientes." Você está enganado, Pablo. É ainda pior: como já digo desde a estreia desse serviço, a Netflix se equivale à VITRINE de uma pequena locadora de bairro. Pois as velhas locadoras ainda mantinham as fitas nas prateleiras até se desgastarem completamente, enquanto a Netflix remove um título mais antigo do catálogo para cara novo título que disponibiliza. Já perdi a conta de quantas vezes removeram seriados enquanto eu estava assistindo. É como o garçom arrancar o prato enquanto você está comendo - comédia pastelão.

Raul Gil do CS
Raul Gil do CS5 de abril de 2018 às 11:39

Pablo, deixa no final de uma parte o link para a próxima, por favor. Foi difícil chegar aqui depois de ler a primeira.

GringaBel
GringaBel4 de abril de 2018 às 19:02

No dia 16/06/2016 fiz a assinatura de 1 mês grátis da netflix , até ai tudo ok então no dia 06/07/2016 eu efetuei o cancelamento da assinatura, recebi um email de confirmação do cancelamento, e informando que o cancelamento entraria em vigor a partir do dia 16/07/2016 quando faria 1 mês da assinatura, quando chegou essa data recebi um outro email informando do cancelamento e que se eu quisesse retornar entrasse no site e reiniciasse a assinatura, porém eu não quis pois já uso a netflix pela conta do meu irmão, porém quando eu achei q realmente tinha sido cancelada, eis a surpresa quando abri a fatura do cartão estava lá a cobrança da netflix que até então seria grátis, o valor de 30,00 R$ foi cobrado, mesmo me sentindo enganada paguei pra não ter dor de cabeça, então hoje no dia 30/08/2016 quando chegou a fatura do meu cartão e abri eis outra surpresa, mesmo a assinatura estando cancelada a mais de 1 mês veio cobrando novamente, então para não ter que ir ao procon atrás dos meus direitos quero que a netflix veja esse erro e possa me ressarcir desses dois valores cobrados na minha fatura, pois não estou usando o serviço, esta cancelado eu tenho os emails do cancelamento e ainda continuo sendo cobrada, espero que eles me deem uma resposta, ou vou atrás dos meus direitos. O que eu faço agora?

Patrick Pessoa
Patrick Pessoa3 de abril de 2018 às 23:42

Fala Pablo, tudo bem? Não me considero tão inteligente quanto você para rebater seus apontamentos a respeito do quão má é a Netflix, mas ainda sim, me parecem apontamentos forçados para justificar que o motivo do cancelamento é de que você não concordou com o que O Mecanismo mostrou. Talvez se a série não existisse, esse boicote também não. Assisti o primeiro episódio e não gostei, achei chato, não me chamou atenção em nada, e a narração em off do personagem principal, além de baixa em relação ao volume das cenas, não é muito clara. E olha que sou muito fã do Selton Mello e do Padilha, mas enfim, não assistirei os outros episódios. Como amante do cinema, e com a qualificação que tem, talvez fosse melhor, na minha opinião, você simplesmente contra indicar a série, e aproveitar para indicar os bons filmes que a plataforma tem no seu catálogo. Por exemplo, depois de ler o Poderoso Chefão, no qual você escreve na contra capa, tive vontade de reassistir, aproveitei e convidei minha namorada a assistir pela primeira vez, ambos ficamos satisfeitos e conversamos por horas sobre o filme. Por mais que as 4 mil opções disponíveis, sejam na sua maioria ruim (aparentemente por serem de 85 pra cá), são ainda assim, 4 mil filmes para que as pessoas possam assistir e se entreter, se emocionar, se divertir e se questionar, não? Supondo que todos cancelem a Netflix, isso não afastaria ainda mais as pessoas do cinema? E mesmo que haja outras opções de streaming, cancelar uma não me parece ganhar em qualidade. Enfim, essa é minha opinião, e mesmo não concordando com você nesse caso, estou SEMPRE lendo suas críticas. Abraços.

VINICIUS SIRVINSKAS FERREIRA
VINICIUS SIRVINSKAS FERREIRA2 de abril de 2018 às 14:52

Olá. Concordo em muito com os artigos. Faz um tempo que as séries da Netflix vem me incomodando. As tramas estavam me parecendo estranhas, com muitos "mistérios" para te prender, mas sem de fato dizer o que o roteiro pretendia realmente. Me soava desonesto, no mínimo. Porém, não sei ao certo se são motivos para cancelamento. Aguardo as alternativas que o autor falou que iria citar na parte 2, por favor não esqueça de cita-las na 3. Abs.

Aline Cristina Silva
Aline Cristina Silva2 de abril de 2018 às 14:31

Pablo, na terceira parte você vai indicar alternativas à Netflix?

Márcio
Márcio1 de abril de 2018 às 15:27

Essa sua conversa não cola. Todos sabemos que esse malabarismo mental que tu vem fazendo há uma semana deve-se única e exclusivamente por você ter algum bandido de estimação retratado na série O Mecanismo, série essa que debochou de Aécio(PUTA VELHA), Temer, Cunha, STF, PSDB,doleiros,empreiteiros, e como não podia deixar de ser, com Lula e Dilma, o que deixou você pistola e putinho. Tu é tão burro que ataca uma das empresas com o maior cunho progressista na atualidade. Um monte de série que tenta ''lacrar'' e chocar o público, com viés raso da esquerda etc etc. No mais, o desespero de muita gente da indústria cinematográfica que tenta impedir o crescimento da Netflix é normal... sempre aconteceu na história do mundo. Foi assim no surgimento da TV (radialistas desesperados), da TV a cabo (donos de locadoras desesperados a partir da segunda metade da década de 90, mas não foram as TVs a Cabo que destruíram o mercado de locação, que fique bem claro). Taxistas x Uber etc etc A Netflix é o que é, uma empresa que não está imune a falhas, de fato o catálogo tem problemas, mas por menos de 1 real por dia você ter acesso a milhares de títulos não é uma coisa ruim. Viva a democracia (que Pablo Villaça tanto odeia). Aliás, Pablo, tu é tão burro que faz campanha contra 2 aliadas tão grandes como a emissora do lacre (Globo) e Netflix. Não sabe nem reconhecer quem pensa como você, né, cara pálida?

João Paulo Longo
João Paulo Longo1 de abril de 2018 às 00:58

Boa noite, Pablo Trabalho com tecnologia e gostaria de propor uma discussão entre seus leitores: Frequentemente faço questionamentos parecidos a respeito das grandes corporações tecnológicas que hoje dominam a interação com o usuário final, tais como Google, Facebook e Twitter, e sempre chego à conclusão que, no fundo, pouco se diferenciam do Netflix e suas táticas. Tem sido muito comum, especialmente em plataformas agregadoras de conteúdo como o Facebook, a perseguição a páginas e/ou grupos formados por minorias pelo simples motivo de desagradar um outro grupo dominante que, por estarem em maior número, conseguem não só derrubar o conteúdo como suspender o acesso à plataforma pelos seus responsáveis. Sob a lógica de que o valor do usuário e o conteúdo por ele criado está na capacidade do mesmo de gerar tráfico, não é de se espantar que minorias sejam oprimidas por grandes grupos, conteúdo falso seja difundido sem maiores consequências e discurso de ódio não seja combatido dado sua crescente popularidade. É preciso consciência que, ao usarmos tais plataformas, somos responsáveis diretamente pela continuidade das mesmas, e isso inclui suas práticas. Se utilizamos uma página do Facebook para divulgarmos algo e temos um retorno, tenha certeza que a plataforma consegue um retorno ainda maior, seja expondo seus usuários a propaganda, coletando seus dados de forma antiética, fazendo testes comportamentais através de alterações visuais, etc. Pagar a mensalidade da Netflix para a mesma ter recursos para produzir uma série como o Mecanismo não é diferente de ser utilizado pelo Facebook como gerador de tráfego, e consequente matéria prima, para que o mesmo mantenha no ar todo tipo de conteúdo questionável. Uso o Facebook como exemplo dado que o mesmo está atualmente no centro de uma crescente discussão a respeito de questões de privacidade, porém é preciso ficar sempre atento a esses serviços tecnológicos num geral em relação às suas práticas sob a ótica da conivência. Não se trata de ser inocente acerca da busca pelo lucro dessas empresas, mas saber se aliar àquelas que possuem o mínimo de comprometimento com seus usuários. Somos, direta ou indiretamente, como usuários, responsáveis por essas plataformas e suas atitudes, e devemos nos impor por aquilo que acreditamos ser o certo. A opção do Pablo de cancelar sua assinatura da Netflix é, além de um direito seu como consumidor pagante, uma decisão que entendo perfeitamente dado os motivos que o mesmo apresentou. Pessoalmente, a Netflix é um dos poucos serviços que posso arcar financeiramente e que oferece conteúdo diferenciado como Dark, série alemã, Rita, série dinamarquesa, e a nossa 3%. Utilizo ocasionalmente outros serviços, como Crynchyroll, Viki e DramaFever, porém o Brasil segue completamente negligenciado pelas grandes produtoras de conteúdo, vide a ausência de serviços como o Hulu, a precariedade das legendas em português do Prime Video, da Amazon, e os problemas da plataforma HBO Go. Tenho um Roku – aparelho parecido com o Apple TV – e acesso a aplicativos diversos através de uma conta americana, incluindo um com filmes clássicos da Warner que, claro, está indisponível aqui. Não é como se a Netflix tivesse feito muito esforço para se tornar a dominante não só no mercado nacional como em outros. É completa falta de interesse e boa vontade das demais.

Pedro Miranda
Pedro Miranda31 de março de 2018 às 23:06

Torrent e downloads em geral não é pirataria, Pablo, segundo a nossa legislação. O art. 184 do Código Penal prevê lucro direto ou indireto para tal caracterização. Por outro lado, caracteriza, sim, infração a direitos autorais. Mas, como downloader contumaz de filmes da internet, em especial via torrent, alongo a conversa que você teve com hipotético leitor, quando, depois de indicar certo filme, ele pergunta: "Tem no Netflix?". Você responde que não tem, mas sugere qual via para ele assistir a este filme? Porque eu, com o fim das locadoras e redução dos lançamentos de filmes (especialmente antigos) em DVDs, acabo baixando mesmo. E você? No aguardo da dica. Muito obrigado.

Ana Maria Corso
Ana Maria Corso 31 de março de 2018 às 22:36

Muito bom! Precisamos de informações deste nível. Parabéns!