JUVENTUDE TRANSVIADA
Isabel Wittmann
Crítico e colunista

Aviso: o texto a seguir contém revelações de fatos importantes da trama.
Vocês estão acabando comigo!
James Dean é um dos rostos mais icônicos da história do cinema. Mesmo quem nunca assistiu a um filme dele, facilmente reconhecerá sua imagem. Símbolo da juventude de uma época, faleceu jovem, aos 24 anos. Em Juventude Transviada, encarna justamente o sentimento de impotência, de dúvida e de falta de sentido dessa mesma juventude. O longa foi dirigido por Nicholas Ray e o figurino é de Moss Mabry, em um de seus primeiros trabalhos.
Os três personagens principais são Jim (interpretado pelo próprio James Dean), Judy (Natalie Wood) e John, apelidado de Platão (Sal Mineo). A história toda se passa em apenas um dia e os três se veem pela primeira vez em uma mesma delegacia durante a madrugada. Jim foi detido por estar bêbado causando desordem na rua. Judy foi encontrada vagando sozinha e Platão havia atirado em cachorrinhos. Apesar da prosperidade financeira da sociedade estadunidense de então, os adolescentes do filme tinham suas dúvidas e seus medos, em grande parte causados pelos próprios pais.

No caso de Platão, seus pais jamais estão em casa e quem toma conta dele é uma empregada doméstica (interpretada por Marietta Canty). A personagem é escrita de acordo com o estereótipo de uma Mammy e não possui sequer um nome.

O problema de Judy é relacionado ao seu pai. Ele ao mesmo tempo se recusa a aceitar o crescimento de sua filha e se nega a manter uma relação afetuosa em virtude dele. Judy relata que ao vê-la maquiada para sair, ele esfregou os lábios dela, espalhando batom vermelho em seu rosto e chamando-a de vagabunda. Foi por isso que ela estava andando sozinha de noite. Mas quando, mais tarde, ela o beija, ele a esbofeteia, afirmando que não tem mais idade para esse tipo de demonstração. A maturidade sexual da garota, que perturba o pai, é expressa em sua roupa completamente vermelha, destacando-a das demais pessoas da delegacia.

Jim, por sua vez, tem problemas em aceitar seu pai, a quem vê como um homem fraco, que se esforça para ser seu amigo e não assume o papel de uma figura de autoridade. Para ele, a postura condescendente da mãe e da avó é disfarçada por afeto superficial, respingado por mentiras. Quando os pais o buscam, vieram de um baile e o smoking, as peles e as joias externam sua condição financeira privilegiada. A dominação por parte da mãe é expressa através do próprio jogo de câmera, em um plano que a enquadra de baixo para cima, destacando seu lugar de poder.

O responsável por cuidar dos jovens na delegacia apresenta-se, a princípio, como mais um dos adultos, com seu insosso paletó marrom. Ele retira a jaqueta quando chama Jim para falar a sós e este tenta agredi-lo. Nesse momento, ele também ainda é enquadrado como uma figura de poder, visto de baixo pra cima, mas logo fica claro que é ele quem mais se conecta com os jovens. Lado a lado, sem o paletó, ele e Jim são iguais, ainda que o rapaz exiba a gola da camisa levantada, como marcador de diferença de geração. Para manter a postura diante dos pais, ele volta a vestir o paletó antes de reencontrar com eles.

Jim guarda o espelho de bolsa de Judy, que encontrou na delegacia. Esse momento vai se refletir posteriormente quando ele o devolver a ela, conectando os dois.

Em seu primeiro dia de aula na nova vizinhança, novamente é possível ver a boa situação financeira de Jim: ele veste uma camisa branca sobre uma camiseta e um blazer de lã, como um rapaz comportado de classe média. Suas roupas são muito mais formais e convencionais que as dos demais rapazes à porta da escola, com suas jaquetas de camurça e couro e seus suéteres. As garotas usam saias rodadas, rabos de cavalo, sapatilhas e sapatos Oxford com meia. Em determinado momento, o foco é dado aos pés dos membros da gangue de Buzz, namorado de Judy. O grupo faz uso de calças jeans, alguns com a barra dobrada para fora, além de botinas, de acordo com a imagem de rebeldia pretendida por eles.

Em mais uma briga com os pais, Jim, que mais cedo não havia se incomodado em ver sua mãe com um avental amarelo adornado com babados servindo o café da manhã, agora observa o pai com a mesma peça e irrita-se com isso. O fato de o pai não se encaixar no padrão hegemônico de masculinidade faz com que o filho o interprete como um covarde, e essa covardia é expressa no uso do avental materno. O pai é visto como subalterno e preso a casa. Isso é literalmente expresso pela câmera subjetiva representando seu olhar sobre a figura paterna. Jim pede ao pai que se erga do chão, como se limpar não fosse serviço adequado a ele.

Em outro momento, quando discute com os pais e confronta, especificamente, seu pai, o ângulo holandês externa que para Jim algo não está certo. A escada garante visualmente o posicionamento da hierarquia doméstica, com a mãe acima dos dois e o filho desafiando o pai.

Quando sai de casa, Jim finalmente externa seu descontentamento através das roupas. Ao invés da camisa anterior, veste apenas uma camiseta. A peça de vestuário até pouco tempo era considerada apenas uma roupa íntima, mas se tornou popular entre os jovens usada dessa maneira, à mostra, especialmente por conta do personagem de Marlon Brando em Uma Rua Chamada Pecado, cujo figurino já foi analisado aqui. Ao invés de blazer ou paletó, agora também veste uma jaqueta como os demais rapazes. O vermelho dela é uma maneira, também, de externar sua angústia.

Platão, por sua vez, continua usando camisa e gravata, mas dessa vez com uma jaqueta de veludo cotelê que parece muito grande para ele. Os ombros são mais largos que os seus próprios. É como se ela fosse emprestada de algum adulto, esses que quase totalmente se ausentam de sua vida. Ele parece mais jovem que os outros garotos, mas não por isso menos melancólico. Seus pais estão distantes, não tem amigos e sua homossexualidade, sugerida na narrativa, é literalmente escondida dentro do armário.

Jim, Judy e Platão fogem juntos para uma mansão abandonada. Este é o momento em que os três compõem uma família ao seu jeito, ainda que com interesses amorosos cruzados que se delineiam; e riem, sem o peso do mundo exterior sobre os ombros. Platão havia recusado o casaco que Jim lhe ofereceu na delegacia, mas agora aceitou a jaqueta vermelha que lhe foi ofertada. Esse é outro momento que espelha o contato inicial dos personagens.

Tudo acontece muito rápido no final. Platão possui um revólver e a polícia, a autoridade máxima dos adultos sobre os adolescentes, age primeiro para depois perguntar. O mundo de Jim novamente se desloca para um ângulo holandês, pois as coisas novamente deixam de fazer sentido, com ele e Judy desfocados em segundo plano enquanto Platão cai baleado. John, que viveu só, morreu entre aqueles que gostavam dele e Jim fecha a jaqueta vermelha para que possa continuar com ela, como um elemento que os uniu.

Todos os três personagens principais do longa têm boa situação financeira, mas não é dinheiro ou conforto que desejam. Querem compreensão e afeto. Querem externar sua raiva e sua angústia. Querem não ter medo do futuro e não ter que esperar por ele para que as coisas fiquem bem, afinal, dez anos é muito tempo, como salienta Jim. James Dean com sua jaqueta vermelha se tornou uma imagem marcante, símbolo de uma geração que realmente era rebelde sem causa, como indica o título original (Rebel Without a Cause). Eles não lutavam por direitos civis ou pelo fim de uma guerra. Eles queriam expressar sua individualidade e não serem como seus pais. Sessenta anos após a morte do ator, Juventude Transviada segue sendo um filme memorável.
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Comentários (3)
Não quero polemizar, Isabel, pois o seu texto me faz bem demais, e vem preencher um buraco imenso no Cinemaemcena, uma vez que o figurino, por vezes, é a alma de um filme. Uma mesma atriz com mudança de cabelo ou uso de uma roupa específica pode virar uma outra pessoa sem precisar texto nenhum para isso - Charlize Theron que o diga. Compreendo perfeitamente que não existe, sob quaisquer pontos de vista, gratuidade nenhuma em cada take, em cada tomada, em todo enquadramento, sob todos os ângulos de uma iluminação, em cada frame de um filme. Mas entenda que as análises desses elementos não podem fazer parte de 70% ou 80¨% de um texto crítico sobre uma peça de cinema, ou sobre uma obra de arte qualquer, sob risco de o texto pecar por esquematismo. O texto do Pablo melhora muito quando reserva um espaço pequeno na procura da intencionalidade dos elementos contidos na obra, e na busca quase bipolar de encaixar cada frame de um filme em determinado efeito emotivo milimetricamente orquestrado pelo diretor. Não sobra nada para o leitor nesse tipo de crítica. Lacunas, por vezes, são mais construtivas que uma costura de todo um quadro. E um crítico entra em declínio quando teima em impor um lugar para um filme, custe o que custar, jogando o problema para a audiência - como Ana Lúcia Andrade e Pablo fazem com "Magnólia": Ana Lúcia chega a dizer que quem não aceita, ou não gosta de Magnólia, não entende de cinema. Sinta que uma obra perdura, como é o caso de "Juventude Transviada", muito, quilômetros, sejamos razoáveis, para além de cada efeito pretendido pela produção. Comecei dizendo que o seu texto me faz bem demais, e encerro dizendo a mesma coisa: a sua elegância em escrever sobre cinema aprofunda nossas paixões pelos filmes.
Oi Natália! Obrigada por sua crítica construtiva. Sobre os textos postados aqui na coluna, todos eles são a minha interpretação em cima da obra. Não pretendo dizer que essa é a mensagem real do filme ou algo assim. Uma obra de arte, seja cinema, seja qualquer outra, está sujeita a isso: comunicar para quem a consome mensagens que podem diferir para cada um. A jaqueta de James Dean, por exemplo, pode não significar para outra pessoa a mesma leitura que tive. Mas de fato, o vermelho fotografa bem no Technicolor. Só que laranja também. Ele poderia estar de laranja. Ou poderiam todos estar de vermelho. Destacá-lo com a cor é uma decisão precisa. Essa gratuidade que você menciona raramente existe. Esses elementos, as cores, os posicionamentos e os enquadramentos geralmente são calculados. A jornalista Ana Maria Bahiana essa ,semana, cobriu um discurso do Guillermo del Toro na Academia e ele afirmou "Se você não está trabalhando a imagem como uma linguagem simbólica, você não está fazendo cinema.O som trouxe uma narrativa adicional ao cinema. A cor fez o mesmo,Todo uso de cor, para mim, vem carregado de códigos simbólicos". Quase sempre há alguma intencionalidade no que está sendo disposto, mas comunicar pode gerar diferentes interpretações e isso faz parte da apreciação da obra. Ainda bem que podemos entender e interpretar coisas diferentes de cada filme e com isso aumentar o debate sobre eles. Abraço! ;)
A obsessão em encontrar uma razão pra tudo, como se um filme fosse uma equação matemática; o modo cerebral de escrever sobre um filme, o abandono da gratuidade e da 'displicência´ das decisões de figurino, fotografia e direção tornam certas escritas sobre cinema previsíveis e... boring. Vejamos: Nicholas Ray, em entrevista, disse que assimilou o vermelho da jaqueta de Dean no filme pelo impacto que a cor teria no techinicolor: aqui já vira algo gran-di-o-so ('maneira de externar sua angústia'). A escada? Well, a escada é apenas uma... escada, mas aqui assume uma função antropomorfizada como se os diálogos e a estupenda interpretação da atriz já não fossem suficientes mecanismos de hierarquia como se vê aqui: "A escada garante visualmente o posicionamento da hierarquia doméstica". Uma gola levantada assume função de marcador de geração. O acaso, a desmemória e o cinéfilo não têm função nesse tipo de crítica. Isso pode ser visto também na ginástica memorável, mas estapafúrdia, quando Pablo defende um filme misterioso e inacessível como 'Magnólia'. Amo sua escrita, Isabel, mas a abordagem sobre uma peça de cinema precisa mais de ludicidade e menos de cérebro, melhor: um equilíbrio entre os dois.



