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SCORPIO RISING, de Kenneth Anger Curta em Cena

Contracultura, iconoclastia, fetichismo, ocultismo, transgressão, homoerotismo, religião e até nazismo estão entre os temas abordados no experimental Scorpio Rising (1964), de Kenneth Anger, cineasta underground que produz curtas-metragens desde 1941 e que lançou seu filme mais recente, Airships, em 2013.

Rodado de forma quase documental, Scorpio Rising cumpre sua tarefa de retratar alguns dos jovens dos anos 60 passando por rituais que exigem cuidadosas preparações até serem postos em prática (a construção da moto, a uniformização, a utilização dos acessórios). A ebulição do período e a sexualidade estão presentes em várias cenas em que a câmera lentamente sobe pelas pernas do motoqueiro para revelar seu torso nu. Um dos rapazes é aficionado por atores que traduzem esse estilo de vida e se tornaram ídolos de uma geração: em sua parede há fotos de James Dean (Juventude Transviada), mito trágico e angustiado, e sua televisão exibe O Selvagem (1953), em que o rebelde Marlon Brando faz parte de uma gangue de motoqueiros.

A atitude contestadora e a falta de respeito por autoridades e tradições consolidadas também aparecem na produção. Jovens usam drogas, possuem armas e desafiam a morte, transitando entre prazer e dor. O subversivo filme de Anger choca com suas suásticas e imagens de Adolf Hitler, ao mesmo tempo em que questiona símbolos religiosos como a cruz e a menorá. Além disso, há espaço para momentos cômicos, como quando o diretor intercala os motoqueiros saindo de casa com imagens de Jesus e seus apóstolos caminhando ao som de “He's a Rebel" (“Ele é um Rebelde”, em português), do The Crystals, relacionando os dois grupos contestadores da ordem estabelecida. Mas a combinação também é provocativa quando Anger une pela caótica montagem sequências do Messias com cenas dos jovens simulando posições sexuais e fazendo outras referências homossexuais.

A música, aliás, é imprescindível para acompanhar o curta que não tem diálogos. Há ótimas canções como "Fools Rush In (Where Angels Fear to Tread)", de Ricky Nelson, “My Boyfriend's Back", do The Angels, "(You're the) Devil in Disguise", de Elvis Presley, "Hit the Road Jack", de Ray Charles, "Point of No Return", de Gene McDaniels, e "Blue Velvet", de Bobby Vinton. A fantástica trilha sonora também explica por que Scorpio Rising impressionou e influenciou os jovens Martin Scorsese (conhecido pelo uso preciso de composições pop dessa época em seus longas) e David Lynch (que usa "Blue Velvet" como a base de seu Veludo Azul).

Após suas primeiras exibições na década de 60, a polícia confiscou o curta de Anger alegando obscenidade e pornografia, mas o cineasta conseguiu a liberação quando o caso chegou à Suprema Corte da Califórnia, um episódio que se tornou um marco para o ideal libertário. Até mesmo o Partido Nazista dos EUA denunciou Scorpio Rising por achar que sua bandeira estava sendo insultada.

Para poder ser apreciado completamente e para que sua força continue a mesma, o filme deve ser analisado considerando o contexto em que foi realizado. Aquilo que Anger atinge é uma mistura de fascinação e fúria, principalmente em seus minutos finais.

Confira (somente para maiores de idade, ok?):

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