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Festival de Tribeca 2016 - Dia 01 Festivais e Mostras

Dia 1

Normalmente começo as coberturas dos festivais com um pequeno texto explicando o que acho do evento, de seu clima, de sua curadoria, etc, mas vamos direto aos filmes do primeiro dia, que é o que interessa? 

No inicio da semana, quando cheguei em Nova York, decidi pegar o metrô a partir do aeroporto, localizado a uma distância considerável do coração da cidade, e observei algo óbvio, mas que ainda assim me provocou certa angústia e uma profunda tristeza: ao entrar no vagão, percebi que praticamente todos os seus ocupantes eram negros - e à medida que nos aproximávamos de Manhattan, quase uma hora depois de iniciada a jornada, a concentração de brancos aumentava consideravelmente. O significado era patente: bastava uma simples viagem de metrô para expor um verdadeiro apartheid econômico e social em uma das principais cidades do planeta e que relega as minorias à periferia enquanto as elites pálidas dominam as áreas mais caras e disputadas. O mesmo pode ser observado em qualquer grande centro urbano, obviamente, mas foi esta a imagem que me voltou à mente enquanto assistia ao longa britânico High-Rise.

Adaptado por Amy Jump a partir do livro escrito em 1975 por J.G. Ballard, o filme se passa em um arranha-céu cujos habitantes são distribuídos pelos andares de acordo com seu status econômico: enquanto os mais pobres ocupam os níveis mais próximos do chão, os pavimentos superiores servem de morada para os ricos e poderosos. É então que o fisiologista Robert Laing (Tom Hiddleston) se muda para o prédio, passando a morar em um andar intermediário e logo se envolvendo com uma mãe solteira, Charlotte (Sienna Miller), que se encontra dois níveis acima. Atraindo também a atenção do arquiteto do edifício, Anthony Royal (Jeremy Irons), que se instalou na luxuosa cobertura, Laing não demora a perceber a tensão que se desenvolve entre os moradores e que ameaça levar todos a um confronto sangrento.

Concebido pelo designer de produção como um ambiente opressivo e dominado pelo concreto, por uma simetria claustrofóbica e pelo depressivo cinza, o arranha-céu que dá título ao projeto é, claro, palco de uma alegoria que não se preocupa com a sutileza: se os apartamentos dos andares mais baixos se revelam pequenos e sufocantes graças aos móveis amontoados e objetos espalhados pelos cômodos (aquele pertencente à gestante vivida por Elisabeth Moss é particularmente pavoroso), a cobertura do sr. Royal (eu avisei que o filme não era sutil) é basicamente uma mansão, contando com imensos jardins que têm espaço suficiente para hospedar até mesmo um cavalo e aposentos amplos com paredes branquíssimas que se contrapõe ao chumbo do restante da construção - e, não por acaso, é precisamente este branco que Laing tentará copiar em seu próprio apartamento.

Porque o Dr. Robert Laing é, como podem imaginar, um integrante do mais frustrado entre todos os estratos sociais e que, receosos de terem seus privilégios tomados pelos que se encontram “abaixo”, forçam-se a estabelecer uma identificação com os interesses daqueles localizados “acima" por julgarem que logo estarão ali: estou falando, obviamente, da classe média. Assim, enquanto a sra. Royal (Keeley Hawes) insiste em usar roupas apropriadas a alguém pertencente à aristocracia do período vitoriano, o documentarista Richard Wilder (Luke Evans) surge com as mangas da camisa dobrada e o colarinho aberto, ao passo que Laing veste ternos e gravatas elegantes, mas baratos. Lisongeado por despertar a atenção do arquiteto, Laing busca se equilibrar entre a convivência pacífica com os vivazes vinhos dos andares inferiores e o fascínio pela vida na cobertura, aparentemente não percebendo que, em função de sua origem, jamais será aceito por aqueles que a ocupam - e não demora muito até que seja colocado à força em um elevador e enviado de volta ao andar ao qual “pertence”.

E não é este o drama mais comum - e jamais admitido - pela classe média: o sonho de ascensão que permanecerá como aspiração não realizada, já que o sistema é controlado pelos arquitetos que se certificam de manter os habitantes em seus andares originais, permitindo no máximo que galguem um ou dois níveis? Como driblar obstáculos que mudam de posição e altura de acordo com a determinação imediata dos poderosos que, por sua vez, sempre asseguram que suas próprias barreiras se mantenham minúsculas? “Ele está estuprando pessoas que não deveria!”, reclama um dos “aristocratas" do arranha-céu ao saber que um “plebeu" vem cometendo crimes que deveriam ser perpetrados com impunidade apenas pelos detentores do poder? (E é fascinante constatar como um dos integrantes desta elite é o âncora do telejornal local, que se encarrega de conferir cores particulares a cada notícia de acordo com os interesses de seus pares.)

O que estes indivíduos não percebem, contudo, é justamente algo que High-Rise compreende com clareza: que as tensões sociais e econômicas têm um limite e que, depois de algum tempo, até mesmo o mais passivo dos moradores dos níveis inferiores (sinta-se à vontade para substituí-los por “proletários”, “classe trabalhadora” e afins) perceberá que, sem luta, seu futuro e o de seus filhos continuarão acorrentados - especialmente quando, proporcionalmente, seus impostos são mais elevados do que o daqueles que poderiam (e deveriam) contribuir com muito mais (e, de novo, High-Rise ilustra isso com propriedade ao trazer a eletricidade nos níveis mais próximos do chão sendo cortada para beneficiar a cobertura apesar de todos pagaram exatamente as mesmas taxas).

Não que esta seja uma batalha fácil, pois não é. “É só jogarmos eles uns contra os outros”, explica um dos amigos do sr. Royal ao discutir a revolta dos vizinhos, expondo, com isso, uma tática antiga, mas geralmente bem sucedida para garantir a submissão dos miseráveis aos sacrifícios impostos por seus patrões - que, por sua vez, expressam surpresa constante diante da “ingratidão” dos empregados. “Por que eles são tão obcecados por dinheiro?”, indaga a sra. Royal ao ser confrontada pelas exigências dos subalternos.

E aqui High-Rise demonstra mais uma vez entender um fato revelador e deprimente: que só faz este tipo de pergunta quem nunca teve que se preocupar em garantir o salário do início de cada mês.

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Owen Suskind é um jovem de 24 anos que vive com os pais e se encontra prestes a completar a graduação, quando, então, se mudará para seu próprio apartamento. Mas Owen também tem uma particularidade: convive com o autismo que começou a se manifestar quando tinha 3 anos de idade e que o deixou emudecido por boa parte de sua infância.

LIfe, Animated é um documentário tocante que explica como o jovem e seus pais conseguiram reestabelecer a comunicação gradualmente. Em poucas palavras: graças às animações da Disney.

Obcecado por filmes como Dumbo, Peter Pan, O Rei Leão, A Pequena Sereia e O Corcunda de Notre Dame, Owen passava os dias revendo-os compulsivamente - até que, certo dia, seus pais perceberam que as palavras incompreensíveis que ele repetia sem parar (“jussavors”) eram, na verdade, uma citação de A Pequena Sereia: “Just your voice” (a fala da bruxa Ursula ao dizer o que deseja em troca do pedido que concederá a Ariel). A partir daí, a dinâmica da família é alterada radicalmente à medida que Owen começa a empregar passagens dos longas como forma de expressar os próprios sentimentos e sua percepção sobre o mundo que o cerca.

Dirigido com sensibilidade por Roger Ross Williams a partir do livro escrito pelo pai do rapaz, Life, Animated é daqueles filmes que comovem pela perseverança inspirada por um amor incondicional e inspiram ao nos lembrar de que este tipo de amor existe. Assim, quando ouvimos Ron explicar o que sentiu ao constatar que poderia voltar a conversar com o filho (“Ele ainda estava lá dentro. Ele não havia desaparecido”), percebemos por que a lembrança daquele momento ainda é capaz de levá-lo às lágrimas 23 anos depois. Ao mesmo tempo, os insights oferecidos pelo próprio Owen oferecem uma percepção impressionada sobre o autismo em si, sendo admirável que o filme transforme em animação as histórias criadas pelo rapaz e que giram em torno de uma criança que protege os personagens coadjuvantes das animações contra o terrível Lord Fuzzbutch - um vilão cujo poder é lançar uma névoa que isola a mente de suas vítimas, levando-as a enxergar o mundo como um lugar estranho.

Da mesma maneira, o documentário faz companhia a outra produção relativamente recente, Autism in Love, ao acompanhar o namoro do protagonista, que se apaixona por uma colega da instituição na qual estuda e que o obriga a aprender a lidar com sentimentos complexos e difíceis até mesmo para alguém que não precisa compreendê-los através do filtro imposto por um distúrbio que, entre coisas, tornam difícil a assimilação de sinais sociais.

E que Owen Suskind se mostre tão aberto a experimentar um universo tão mais hostil do que aquele que enxergamos é algo que, por si só, representa uma imensa lição.

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Perfeitos Desconhecidos (Perfetti sconosciuti) é um filme cuja simplicidade aparente pode facilmente enganar o espectador: ainda que se passe basicamente em um único ambiente e se concentre nos diálogos e na dinâmica entre os atores, esta produção italiana desenvolve temas consideravelmente complexos sobre as relações sociais apenas ao acompanhar uma noite entre amigos.

Escrito em parceria por cinco roteiristas (e não me espantaria caso descobrisse que há uma peça teatral na raiz do projeto), o longa traz sete amigos - três casais e um indivíduo cuja namorada se encontra doente - que, durante um jantar, decide fazer um jogo arriscado: dividir qualquer mensagem ou ligação recebida durante a noite por qualquer um deles. Aos poucos, revelações se tornam inevitáveis, conflitos se intensificam e relações beiram o colapso.

Absurdo? Ora, é fácil testar o conceito: como você se sentiria caso subitamente tivesse que compartilhar o conteúdo de seu celular com seus amigos? “Estas coisas se tornaram verdadeiras caixas-pretas de nossas vidas”, define um personagem ao observar como ali mantemos conversas, relações, contatos e mesmo imagens que, mesmo que representem interações apenas virtuais, provavelmente provocariam constrangimentos se inadvertidamente expostas. 

Assim, é natural que a cada mensagem ou ligação que acende um aparelho ao longo da projeção surjam novas discussões que revelam facetas inesperadas de cada indivíduo. E se o elenco constrói uma ligação orgânica entre seus personagens, o dinamismo da narrativa é mantido pela direção ágil de Paolo Genovese e pela montagem de Consuelo Catucci, que evitam a teatralidade excessiva através da câmera que registra detalhes precisos das ações e reações dos sete amigos, saltando de um para outro com inteligência e elegância.

Mas é mesmo o desfecho da projeção (que, claro, não pretendo revelar) que eleva Perfeitos Desconhecidos ao nível de pequena obra-prima, amarrando, de forma surpreendente mas lógica, os temas principais propostos pelo excepcional roteiro.

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Frustrando minha expectativa de encerrar o dia apenas com ótimas experiências nas salas de cinema, o documentário Win! comprovou que nem mesmo o acesso irrestrito aos bastidores de uma história potencialmente interessante pode garantir um resultado satisfatório.

Ao menos, foi isso que pude concluir ao assistir a este trabalho do documentarista Justin Webster, que em 2013 dirigiu um de meus filmes favoritos do ano, o fascinante Eu Serei Assassinado (I Will Be Murdered), que contava a história do advogado Rodrigo Rosenberg, que publicou um video no YouTube prevendo o próprio assassinato. Se naquele projeto Webster foi obrigado a lidar com horas e horas de imagens de arquivos e incidentes que desafiavam a compreensão do espectador, aqui ele tropeça ao lidar com uma proposta consideravelmente mais simples: acompanhar a criação e o primeiro ano da vida do New York City Football Club, que foi criado para ser o primeiro time de futebol de uma das principais capitais do planeta.

Investindo pesadamente na contratação de astros como David Villas, Frank Lampard e Andrea Pirlo, o ex-jogador Claudio Reyna, encarregado de estabelecer a franquia, é visto aqui enfrentando as dificuldades naturais de uma empreitada tão ambiciosa - e boa parte da projeção dedica-se também a acompanhar os treinamentos e as partidas do time treinado pelo determinado Jason Kreis.

É uma pena, portanto, que mesmo podendo entrar de forma aparentemente irrestrita nos campos de treinamento, nos vestiários e nas salas de reuniões dos executivos, o cineasta tenha atingido um resultado tão frouxo e sem foco, já que não sabe se quer se concentrar em Reyna, Kreis ou Villas, falhando até mesmo ao não explorar como um time novo é capaz de conquistar torcedores em número suficiente para se manter vivo.

Ao final da projeção, eu não poderia me importar menos com o sucesso ou fracasso daqueles indivíduos e da equipe que estavam ajudando a construir. E eu gosto de torcer por azarões.

Um grande abraço e bons filmes!

14 de abril de 2016

Assista também ao videocast sobre os filmes do primeiro dia do festival:

Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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