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Festival de Cannes 2018 - Dia #06 Festivais e Mostras

DIA 06

22) A miséria em Lazzaro felice é extrema: ambientado em uma comunidade aparentemente presa a séculos de trabalho escravo – e que, por exemplo, é obrigada a dividir uma única lâmpada elétrica, que é repassada de casa em casa de acordo com a necessidade -, este longa italiano escrito e dirigido por Alice Rohrwacher é ao mesmo tempo uma fábula e um exemplar de realismo mágico povoado por uma gente sofrida que é mantida na pobreza por uma rica e implacável rainha do tabaco (vivida por ninguém menos do que Nicoletta Braschi).

Entre eles, contudo, há o jovem Lázaro, que, com uma expressão semicongelada num sorriso beatífico, é o burro de carga e a válvula de escape dos demais, que o tratam com a mesma crueldade com quem são tratados pela patroa em um caso típico de oprimidos que buscam esquecer a própria humilhação a partir da opressão daqueles ainda mais vulneráveis. Encarregado de realizar todo tipo de trabalho e mal tratado a ponto de não ganhar um local decente para descansar mesmo quando adoentado, o rapaz é vivido pelo estreante Adriano Tardiolo como um indivíduo que parece satisfeito em pertencer a qualquer grupo – menos por carência e mais por sentir um autêntico prazer de ajudar. O que eventualmente o conduz a uma tragédia.

Fazendo jus ao que seu nome exige em uma obra de arte (ninguém é batizado de “Lázaro” em uma ficção por acaso), o personagem-título ancora a narrativa com doçura, mas também com uma passividade enlouquecedora, não questionando sequer os resultados consequentes da surpreendente abordagem cronológica idealizada por Rohrwacher.

Trazendo ainda a talentosa Alba Rohrwacher (irmã da diretora) em um papel que explora bem sua habilidade de criar personagens multifacetadas (algo ainda mais imperativo considerando sua chegada tardia na trama), Lázaro felicce é um filme que, como seu protagonista, soa despretensioso e, sim, pontualmente entediante, mas que aos poucos revela uma força que vem não apenas de sua estranha perseverança, mas de sua capacidade de perceber que a esperança nem sempre (ou raramente) é recompensada e que, muitas vezes, a única coisa que resta é virar as costas e partir.

 

23) Assunto de Família é uma obra terna e sensível cujos personagens, adoráveis ao extremo, parecem movidos pelo afeto – e até mesmo quando discutem, seus desentendimentos partem de um lugar de amor. Até que, claro, o diretor e roteirista japonês Hirokazu Koreeda (Nossa Irmã Mais Nova) puxa o tapete sob os pés do espectador e nos leva a questionar não apenas o que víramos até então, mas também o que sentimos por aquelas pessoas e a curiosa resistência que temos de mudar nossa percepção sobre elas mesmo diante de todas as evidências de que esta percepção era resultado de engodos em sequência.

Centralizando a narrativa em torno do pequeno Shota (contenham-se), especializado em furtar pequenos itens de lojas e mercados da vizinhança enquanto é incentivado pelo pai Nobuyo (Sakura Andô), o roteiro logo nos apresenta também à sua mãe Osamu (Lily Franky) e à sua avó Hatsue (Kirin Kiki), que dividem com o garoto um casebre minúsculo que, apesar de tudo, evoca uma atmosfera familiar calorosa. Depois que testemunham a negligência parental à qual é submetida uma garotinha local (a adorável Miyu Sasaki), Nobuyo e Osamu decidem não apenas ajudá-la, mas “adotá-la” (leia-se: sequestrá-la, mesmo que bem intencionados e com a “anuência” da menina) – e é a partir da dinâmica entre estas pessoas que Koreeda constrói seu filme.

Aos poucos, porém, Assunto de Família vai introduzindo pequenas discrepâncias no cotidiano da família que nos levam a questionar se há algo errado (e o que seria) naquele retrato mesmo que admiremos o carinho entre aquelas pessoas e a franqueza com que conversam sobre moralidade, ética ou sexo. Além disso, Koreeda explora a graça dos pequenos golpes aplicados pelos personagens para que possam sobreviver – e a maneira como a “vovó” interpretada por Kiki emprega a própria fragilidade para ganhar alguma vantagem é divertida e chocante ao mesmo tempo. Enquanto isso, a interação entre Shota (Jyo Kairi) e a pequena Yuri estabelece uma dinâmica tão natural e gentil que qualquer tentativa de resistirmos àquela família – mesmo conhecendo seus piores segredos – se torna inútil.

O mais fascinante nesta belíssima obra, contudo, é a coerência interna de Osamu, Nobuyo, Hatsue e Shota, que, mesmo depois de todas as revelações sobre seu passado e seu presente (e manterei estas revelações em segredo para evitar spoilers), se mantêm os mesmos que eram desde o princípio; se algo muda, é apenas o fato de que apenas os vemos por um ângulo diferente.

E é por sabermos que elas seguem as mesmas pessoas que havíamos passado a amar nas duas horas anteriores que nos indagamos, curiosos, sobre nossos próprios sentimentos diante de tudo que descobrimos e o que estes dizem não só sobre aquela família, mas sobre nós mesmos.

Este é, sem dúvida, um dos melhores trabalhos desta edição do festival.

 

24) A dançarina e dramaturga (e atriz e diretora e roteirista) Andréa Bescond é uma revelação: adaptando sua própria peça para o Cinema, a artista cria, em Little Tickles, uma narrativa que aborda o mais pesado dos temas – abuso sexual infantil – com seriedade, complexidade e empatia ao mesmo tempo em que se mostra capaz de reconhecer o senso de humor que a protagonista desenvolveu como uma espécie de resistência e autoproteção para manter-se sã diante do horror ao qual se via submetida.

Impulsiva e angustiada, Odette (a própria Bescond) certo dia entra sem refletir no consultório de uma psicóloga sem marcar consulta ou saber exatamente o que procura, sentindo apenas a necessidade incontrolável de permitir que alguém possa dividir o peso que carrega há anos e que a impede de encontrar felicidade e estabilidade em sua vida.

Este peso, claro, é um segredo que guardou de todos – inclusive dos pais – desde a infância: os repetidos abusos sofridos nas mãos pervertidas de um dos amigos da família, Gilbert (o excelente Pierre Deladonchamps). Agora adulta, Odette parece saltar de um canto a outro sem saber exatamente o que procura, enfrentando dificuldades emocionais e financeiras que surgem como a manifestação de anos de negação, vergonha e humilhação diante do que passou, já que, criança e facilmente manipulável, foi levada por seu abusador a manter-se em silêncio sob o temor de prejudicar a família e de ser vista como cúmplice do próprio abuso.

Enriquecido por uma cronologia fluida na qual anos podem saltar subitamente com o abrir de uma porta, Little Tickles ainda usa a mise-en-scène como forma de representar visualmente a autodescoberta psicológica da protagonista, que pode alterar detalhes de suas lembranças – de falas específicas à cor de uma blusa – à medida que sua psicóloga/guia a conduz numa jornada dolorosa que reconhece o valor terapêutico de abrir antigas feridas a fim de permitir que cicatrizem. Ao mesmo tempo, Bescond reconhece a importância do humor para evitar que a experiência se torne insuportável para o espectador – o que tampouco a impede de, nos momentos necessários, abraçar o peso dos acontecimentos sem qualquer concessão.

Trazendo ainda sequências de dança expressivas que confirmam Bescond como um talento multifacetado, Little Tickles é um filme que soa pessoal – mesmo que a realizadora negue ser autobiográfico – e necessário.

 

 

25) Asako I & II conta uma historinha simples de forma simplória. Dirigido pelo japonês Ryûsuke Hamaguchi a partir do roteiro que escreveu ao lado de Sachiko Tanaka, o filme traz uma daquelas tramas que se encontrariam perfeitamente à vontade no horário das nove da televisão brasileira, adotando coincidências novelescas, personagens unidimensionais e revelações que qualquer espectador é capaz de antecipar com facilidade.

Encarnada por Erika Karata como uma jovem egoísta e inconsequente que torna difícil para o espectador a tarefa de torcer por sua felicidade, Asako é uma garota que se apaixona por Baku (Masahiro Higashide), um rapaz cuja natureza supostamente espontânea mal consegue despistar outra personalidade narcisista e imatura – e que o leva a simplesmente desaparecer certo dia. Dois anos depois, ainda abalada pelo abandono súbito e agora morando em Tóquio depois de deixar sua pequena cidade, Asako conhece Ryôhei, fisicamente idêntico ao ex-namorado (e, claro, também vivido por Higashide), mas com um temperamento bastante distinto. Não é difícil prever o que vem a seguir.

Dirigido por Hamaguchi com uma inconsistência alarmante (o uso aparentemente aleatório de câmeras subjetivas é apenas um exemplo), o filme busca ocultar, em sua cronologia não-linear, todas as fraquezas de um roteiro povoado por indivíduos antipáticos e irritantes, sendo um alívio quando, depois de intermináveis duas horas, somos finalmente libertados das garras de uma narrativa que, julgando-se dramaticamente densa, é apenas um amontoado de tolices e clichês.

23 de Maio de 2018

Assista também à cobertura diária do festival:

Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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