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Festival de Cannes 2019 - Dia #09 Festivais e Mostras

DIA 09

29) Se os filmes de Ken Loach e dos Coen tivessem um filho, este seria Parasita. Dirigido pelo sul-coreano Bong Joon-ho a partir de um roteiro escrito por este ao lado de Kim Dae-hwan e Jin Won Han (e, por sua vez, inspirado no mangá de Hitoshi Iwaaki), o longa é uma denúncia da desigualdade social endêmica do capitalismo desregulado que faria o britânico orgulhoso, mas feita através de um viés de humor sombrio com personagens absurdos que poderiam estar numa história dos irmãos norte-americanos.

A primeira metade da projeção é, também a mais leve e divertida, apresentando-nos à família Kim, formada pelo patriarca Ki-taek (Song Kang-ho, colaborador habitual do diretor), sua esposa Chung-sook (Hyae Jin Chang), o filho Ki-woo (Choi Woo-sik) e a filha Ki-jung (Park So-dam), a mais esperta do clã e responsável por boa parte dos esquemas por eles colocados em prática. Pobres e vivendo no porão frio de um prédio num bairro miserável, eles sugam wi-fi dos vizinhos, aproveitam a fumegação das ruas para dedetizar o apartamento e fazem (mal) trabalhos ocasionais para uma pizzaria minúscula da região. Tudo muda, no entanto, quando um amigo de Ki-woo pede que este assuma a tutoria em inglês da filha de um rico empresário, o Sr. Park (Lee Sun-kyun) – e aos poucos, através de estratégias nada éticas, todos os integrantes da família Kim passam a trabalhar para os Park depois de causarem a demissão de seus antigos funcionários.

Bem-humorado ao retratar estes pequenos golpes que levam o espectador a simpatizar com a família Kim em função de sua criatividade – mesmo que esta se volte para objetivos suspeitos -, Parasita assume tons bem mais sombrios em sua segunda parte, quando uma série de revelações, conflitos e incidentes violentos dominam a trama (e não os revelarei, claro, pois um dos prazeres do longa é descobri-los). O que é possível apontar sem entregar detalhes específicos é que o roteiro exibe uma carpintaria dramática notável, já que, em retrospecto, cada elemento se apresenta importante, mesmo os comentários mais triviais (como aquele sobre o apetite da governanta).

Ressaltando o contraste entre os mundos frequentados pelas duas famílias, o design de produção de Lee Ha-jun concebe o apartamento dos Kim como uma caixinha de cimento fria e claustrofóbica com um banheiro tão pequeno que o vaso sanitário é colocado numa plataforma de concreto e azulejo que força qualquer um ali sentado a se dobrar no meio, ao passo que o lar dos Park é um monumento à arquitetura moderna, trazendo amplos espaços, portas de vidra que percorrem toda a parede, inundando tudo de sol, e móveis que, por si só, valem mais do que todas as posses dos empregados. Já a simetria entre as duas famílias (pai, mãe e um casal de filhos) força o público a comparar ainda mais suas realidades e dificuldades.

Igualmente fundamental é o fato de Bong Joon-ho jamais tentar retratar os Park como pessoas ruins, o que seria uma simplificação lamentável: ao contrário, temos mais simpatia pela ingênua Sra. Park (Cho Yeo-Jeong) do que pela rabugenta Sra. Kim – e mesmo o marido desta última concede gostar bastante do patrão, que vê como alguém gentil. Ainda assim, aos poucos os preconceitos velados e sutis do sr. Park se tornam difíceis de ignorar, como seus elogios a funcionários que “não cruzem a linha” ou seus comentários sobre o cheiro de quem usa o metrô. Além disso, o cineasta, mesmo enxergando a humanidade de todos os personagens, não deixa de apontar a discrepância cruel e inaceitável entre os que têm tudo e os que nada têm – como no instante em que corta de um amontoado de roupas doadas para os desabrigados em ginásio para o colossal guarda-roupas com os vestidos e sapatos da Sra. Park (uma passagem que pode não ser sutil, mas é brilhante ainda assim). Do mesmo modo, o filme lamenta a tendência – nada acidental – de que tragédias como enchentes, incêndios e deslizamentos afetem com mais frequência justamente aqueles que menos condições exibem de superá-las.

Neste sentido, Parasita é uma obra tão obcecada pela luta de classes quanto Expresso do Amanhã, que abordava a questão de modo bem mais aberto – e seu título, que inicialmente pode levar o espectador a relacioná-lo com a família Kim, logo evidencia sua complexidade ao demonstrar algo óbvio que muitos teimam em negar: que não são os mais pobres que tendem a viver e explorar o suor dos mais ricos.

Se Bong Joon-ho já não fosse o responsável por um de meus filmes favoritos, o magistral Memórias de um Assassino, este seu novo trabalho assumiria o posto de predileto entre seus trabalhos. Mas chega perto.

 

30) De acordo com o novo filme do experiente cineasta francês Arnaud Desplechin, a comunidade francesa de Roubaix, onde nasceu, é a mais pobre de seu país, com nada menos do que 45% da população vivendo abaixo da linha de pobreza, o que se reflete nas estatísticas de criminalidade. E é ali que se passa Roubaix, une lumière, que gira em torno dos detetives do departamento de polícia da cidade.

Inspirado por casos reais, o roteiro do próprio Desplechin acompanha em particular o capitão Daoud (Roschdy Zem), que, zeloso ao extremo, faz questão de se envolver pessoalmente em todos os casos assumidos por sua equipe. Criado na região e familiarizado com os membros da comunidade, ele vive de modo solitário e se entrega apenas a um sonho: comprar um cavalo para disputar as corridas no hipódromo local. Enquanto isso, o novato Louis Coterelle (Antoine Reinartz) tenta se adaptar à nova residência e impressionar o chefe, desanimando-se ao encontrar dificuldades para solucionar um caso envolvendo uma casa incendiada na qual o corpo de uma velhinha foi encontrado estrangulado. Completando o elenco, Léa Seydoux e Sara Forestier interpretam as duas vizinhas da vítima que, depois de chamarem a polícia, se tornam as principais suspeitas do crime.

Mais interessado nas atividades dos detetives do que em qualquer outra coisa, Desplechin expõe certa preguiça ao desenvolver os personagens, concedendo-lhes vestígios de caráter e vida interior pouco convincentes que se contentam em empregar ações superficiais (como as visitas ao haras ou as cartas que Louis envia ao pai) no lugar de uma investigação mais profunda de suas personalidades. Ainda assim, as composições de Seydoux e Forestier evocam uma dinâmica psicológica complexa entre suas personagens, com a primeira se apresentando manipuladora e dominante enquanto a segunda, com sua expressão sempre perdida, desperta pena pela mulher frágil, intelectualmente limitada e emocionalmente carente que interpreta.

De um ponto de vista narrativo, porém, Roubaix, une lumière pretende, em essência, ser uma versão em longa-metragem das séries policiais de TV que adotam o formato de procedurals, enfocando o que está envolvido no processo de investigação e indiciamento criminal. Assim, longos trechos da projeção são dedicados às estratégias de interrogatório, de análise da cena do crime, de apuração das provas e, mais tarde, à burocracia envolvida na condução de alguém à prisão (coleta de digitais, revistas, transporte, etc). Tudo isso pode ser retratado de modo envolvente, é evidente, mas aqui soa como mera muleta formal.

E a tentativa de forçar um tom de melancolia através da trilha sonora é triste não por alcançar seu efeito, mas por sua transparência ao buscá-lo.

 

31) A produção espanhola O Que Arde é estupenda por vários motivos: suas locações; a delicadeza ao ilustrar um modo de vida bucólico; a consciência ao demonstrar como é também duríssimo; e ao funcionar como um estudo de personagem que abre espaço para a ambiguidade. No entanto, nada que se compare à revelação que é a atriz – estreante aos 84 anos – Benedicta Sanchez, que imprime carisma e doçura à mãe do protagonista.

Dirigido por Oliver Laxe, cujo longa anterior (Mimosas) me trouxe uma impressão pouco positiva sobre sua competência, este O Que Arde segue Amador (Amador Arias), que retorna ao seu vilarejo nas montanhas depois de passar dois anos na prisão por ter provocado um incêndio. Tipo calado e introspectivo, ele ajuda a mãe idosa em suas tarefas diárias e evita manter muito contato com os vizinhos, que, apesar disso, o recebem de volta com simpatia.

Até que um novo incêndio ocorre na região.

Com um caráter quase meditativo ao seguir o ritmo cotidiano com que aquelas pessoas levam a vida, o longa faz comentários pontuais sobre como indivíduos humildes como Amaro se tornam insignificantes no sistema (é interessante como Laxe jamais mostra os rostos dos burocratas que manipulam seus documentos de soltura) e prega uma mensagem ambientalista já desde a primeira cena, que traz um trator derrubando dúzias de árvores em uma imagem aterradora. Todavia, pavor ainda maior é alcançado pela ótima condução do terceiro ato, quando o diretor nos atira para o meio das chamas enquanto os bombeiros e a população local procuram apagá-las, ilustrando toda a dimensão do estrago provocado pelo desastre ao mesmo tempo em que expõe a bravura dos que se arriscam a combatê-lo.

Dito isso, é mesmo Benedicta Sanchez que permanece na mente do público após o fim da projeção: cheia de energia e força apesar do físico aparentemente frágil, ela traz a autenticidade esperada por parte de alguém que de fato passou toda a vida desempenhando trabalhos braçais e percorrendo aquelas montanhas, praticamente roubando o projeto quando surge em cena.

Felizmente, em sua ausência O Que Arde permanece instigante.

 

32) O cineasta canadense Xavier Dolan é um artista autoral por definição: ainda que esteticamente brinque com a linguagem aqui e ali (como em Mommy), seus filmes contam com traços bem definidos e recorrentes, não apenas formalmente, mas tematicamente. Há, na carreira do jovem diretor (e é incrível como, já com uma filmografia notável, ainda pode ser classificado como “jovem”), uma preocupação constante com sentimentos sufocados, autoaceitação, amizades ameaças pela intrusão do desejo e, claro, com relações problemáticas com a figura materna. Assim, de certo modo, Dolan já fez este Matthias & Maxime algumas vezes, mas o que importa não é o retorno de temas, mas o frescor, a inteligência e a sensibilidade que o realizador quase sempre consegue imprimir ao material.

Aqui, Dolan (o moleque também é ator – e dos bons) vive Maxime, que divide o cotidiano entre trabalhos corriqueiros e a árdua tarefa de cuidar da mãe, viciada em recuperação e pessoa horrível em tempo integral. Em um fim de semana com os amigos de infância, ele aceita participar do curta-metragem estudantil feito pela irmã caçula de um deles, dividindo a cena com seu melhor amigo, Matthias (Gabriel D’Almeida Freitas), forçado a “atuar” depois de perder uma aposta. Surpresos com o fato de a cena em questão envolver um beijo, eles vão em frente com certo desconforto – que cede lugar a uma crise completa nas semanas seguinte à medida que Matt experimenta confusão crescente com relação ao que sente.

Hábil ao estabelecer um prazo para que aqueles conflitos se resolvam ao determinar que Max se mudará para a Austrália em breve, Dolan conduz a narrativa rumo à data da partida com uma tensão cada vez maior revelada não por confrontos, mas por uma frustração subjacente diante à incapacidade daqueles personagens – Matt, em especial – de se expressarem. Claro que esta dificuldade é fruto do fracasso em compreender e aceitar o que sentem, sendo essencial, para que este drama funcione, o trabalho feito pelo filme para estabelecer a dinâmica do grupo de amigos. Retratando os cinco rapazes como indivíduos que se conhecem desde a infância e se amam independentemente de qualquer coisa; mesmo quando brigam (fisicamente, em alguns casos), não demora até que a paz volte a reinar em sua dinâmica, o que torna o afastamento de Matt mais incômodo.

Freitas, por sinal, oferece uma performance eficaz graças à sua sutileza: Matt não é um sujeito explosivo nem introspectivo, externando o que pensa na maior parte do tempo e reagindo às provocações do grupo com bom humor. Contudo, há pequenos indícios de que talvez haja algo mal resolvido com relação ao que sente pelo amigo, já que, ao contrário deste, parece não lembrar (ou nega) de um rápido beijo trocado como experiência quando eram crianças, como se houvesse enterrado no inconsciente algo que poderia perturbar sua tranquilidade. Assim, quando Matt passa a se comportar de modo atípico e com certa frieza (e até agressividade), nós sabemos a causa disso antes mesmo que seus companheiros ou ele próprio, num exemplo perfeito de ironia dramática na construção do roteiro. É importante também o esforço que Dolan faz para minimar a homofobia como componente nesta dinâmica, já que inclui um integrante assumidamente homossexual no grupo e ilustra como todos (com exceção de Matt) se lembram do tal beijo no passado como algo curioso, mas não reprovável ou alvo de piadinhas.

Maxime, enquanto isso, é encarnado por Xavier Dolan como um rapaz de natureza gentil e dedicada que, tristemente habituado à agressividade da mãe, ainda assim dedica a esta uma atenção comovente mesmo constatando como esta manifesta preferência por seu irmão mais velho (e ausente) – uma dinâmica ilustrada na foto em que a mulher aparece rindo ao lado deste e com as costas viradas para Maxime (que também é o único de olhos fechados, como se ninguém se importasse se ele ficou bem no retrato ou não). Mais questionável é a decisão de Dolan de retratar Max com um imenso hemangioma no rosto, já que não há justificativa dramática para isso – com exceção de um único instante no qual ouve uma ofensa impulsiva que é resolvida rapidamente. (Outro tropecinho do filme é a forma caricatural como a cineasta que dirige o tal curta é retratada.)

Beneficiado por uma trilha incidental excelente (marca registrada de Dolan), Matthias & Maxime é também importante por demonstrar como o diretor não perdeu a confiança em si mesmo depois do massacre sofrido por É Apenas o Fim do Mundo (que considero injusto, já que o adorei), mantendo-se fiel aos seus temas e abordagens característicos e sugerindo uma maturidade admirável. Como se já não tivesse virtudes suficientes.

24 de Maio de 2019

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Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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