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Açúcar: a casa grande e a senzala que habitam dentro de nós Brasil em Cena

A diretora pernambucana Renata Pinheiro certa vez teve um sonho: um barco à vela navegando, mas não no mar, e sim por um vasto canavial. A imagem abre o longa Açúcar, que ela dirigiu em parceria com Sergio Oliveira, também de Pernambuco. O filme teve sua estreia no Brasil programada para 30 de janeiro. Açúcar retrata um período na vida de Bethânia (Maeve Jinkings), que retorna a um engenho de cana, do qual é herdeira, e que vive um franco processo de decadência. Nesse regresso à propriedade da família, ela se vê confrontada com os habitantes das terras, descendentes de escravos que trabalharam na região e colocam a própria identidade da protagonista em cheque.

“Quando tivemos a ideia de abrir o filme com essa imagem, percebemos que aquela terra era onde começou o ciclo econômico da cana, e também onde o advento da escravidão se iniciou”, aponta Sergio. “Ou seja, aquela imagem significava muita coisa: os portugueses chegando em caravelas, a cana-de-açúcar, primeira economia brasileira fora do extrativismo, e o fato de ela ter sido muito bem-sucedida por causa da mão de obra escrava”, acrescenta Renata.

Construído em torno da personagem Bethânia, interpretada por Maeve Jinkings, Açúcar é uma metáfora da sociedade brasileira, que busca uma identidade, na maioria das vezes rechaçando suas origens. Renata, Sergio e Maeve falaram com exclusividade ao Cinema em Cena.

Cinema em Cena – Qual foi o ponto de partida para a criação do filme?

Renata Pinheiro – Começou com um sonho que eu tive, com um barco à velha navegando em um imenso canavial. Açúcar é um filme sobre a casa grande, sobre esse ciclo econômico nefasto que trouxe a escravidão para o Brasil. É um tema recorrente na poesia, na literatura e também no cinema. E é um tema que precisa sempre ser revisitado, porque é uma ferida ainda aberta. Nossa sociedade é doente nos dias atuais. Sofremos um retrocesso, em que os trabalhadores perderam muitos direitos, então acho que sempre é preciso voltar ao ponto de partida para analisar o tempo presente.

Sergio Oliveira – Filmamos em 2014, um período de uma transformação positiva da nossa sociedade, com um pouco de reparação com as cotas raciais, na questão da cultura, e também o incômodo que isso trazia para quem é da elite falida, se sustentando em nada. Açúcar é um filme que retrata as vítimas históricas, no caso os negros afrodescendentes, de forma muito mais resolvida do que essa elite falida que não tem onde segurar a não ser nesse status quo vazio.

Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, diretores de Açúcar

Cinema em Cena – A figura de Bethânia é uma alegoria de elementos, como a miscigenação brasileira, a casa grande e a senzala, o erudito e o popular?

Renata Pinheiro – Bethânia é a herdeira dessa terra, uma mulher à deriva na vida, que tem uma crise existencial grande, por conta justamente disso que colocamos como metáfora da sociedade brasileira. Ela busca entender quem ela é, ao mesmo tempo em que nega sua origem, mas naquele momento específico da sua vida, essa identidade racial se impõe diante dela.

Sergio Oliveira – Essa negação é muito comum na sociedade brasileira. Tanto dos horrores da escravidão quando da origem negra do nosso povo. Há precedentes históricos. Rui Barbosa mesmo foi um cara que tinha poder na época da abolição e mandou queimar documentos que se referiam à escravidão, dizendo que seria para apagar esse passado nefasto. Na verdade, eles tiveram medo de os proprietários processarem o governo para receber indenização. Isso aconteceu no Brasil. Chico Buarque costuma fazer uma conta para mostrar que não é possível a um brasileiro não ter sangue negro, qualquer brasileiro. E ele faz isso baseado no número de habitantes negros e brancos no passado, provando que não era possível que todos os ascendentes fossem brancos.

Maeve Jinkings – Bethânia, assim como grande parte da sociedade brasileira, não está interessada, à procura dessa identidade racial. Isso se impõe diante dela. Para compor Bethânia, usamos como referências muito da história da própria Renata, cuja família é daquela região. Eu sou de Brasília, mas cresci em Belém do Pará. E embora em Belém não exista esse imaginário do engenho de cana, há uma relação da aristocracia com as camadas populares, principalmente com muito preconceito racial em relação ao índio. Mais tarde, fui morar em Pernambuco, e ali conheci muitas “Bethânias”, mulheres que aspiram à casa grande, mas que no fundo sabem que sua origem também remonta à senzala. Nesse contexto, é muito comum naturalizar a maneira de explorar o outro, que Bethânia tem. Ela é essencialmente um ser inadequado e, embora com linguagens diferentes, fui buscar nos clowns essa inadequação dela. Bethânia não é Giulietta Masina, mas eu me inspirei nessa veia clownesca para compor algumas ações da Bethânia, que é patética, mas também é triste.

Maeve Jinkings (à esq.) e Dandara de Morais: necessidade da "sinhazinha" em se reafirmar

Cinema em Cena – Ao mesmo tempo em que rechaça suas origens, Bethânia demonstra uma atração pelo universo daqueles trabalhadores, até do ponto de vista físico. Como vocês explicam essa contradição?

Renata Pinheiro - Acho que o desejo da Bethânia pelo Zé Neguinho (Zé Maria) remonta a uma fase de infância. Nesse ambiente rural, quando criança, não há muita separação de classe, elas estão todas juntas. Fica claro que eles já se conhecem há muito tempo, cresceram juntos e, em determinado momento, se separaram. Existia uma certa paixão recolhida entre eles, que aflora nesse momento de extrema crise dela.

Maeve Jinkings – Como atriz, não vejo como interpretar um personagem sem olhar para a sombra dele. Isso é um ponto de partida, que eu falo inclusive em abrir meus porões. Quando fiz “O Som ao Redor”, por exemplo, eu lembro de uma cena na qual o Kléber (Mendonça Filho, diretor) me pediu para “resgatar a sinhazinha que havia em mim”. E realmente existe uma sinhazinha em mim! Eu lembro de quando era adolescente, inconscientemente, reproduzir relações de classe que eu cresci vendo, que eu vejo na Bethânia, essa personagem que tenta desesperadamente se agarrar e tentar manter uma relação de poder que não é mais viável. Ela precisa sempre reduzir a personagem da Alessandra (Dandara de Morais) ou do Zé Neguinho, reproduzindo estruturas de poder que já não são atuais. O mundo está mudando e ela não tem mais onde se apoiar, e eu acho que isso é a cara da elite brasileira hoje e nos últimos quinze anos. Gente que reclama porque não consegue mais pagar uma empregada, aeroporto virou rodoviária, e por aí afora. Então, eu também tentei olhar muito e foi muito horroroso lembrar de episódios da minha adolescência em que eu reproduzia esse tipo de relação!

Cinema em Cena – Vocês poderiam falar também sobre o papel do som e da trilha sonora em Açúcar? Como vocês chegaram a esse resultado?

Sergio Oliveira – A maior parte da trilha é composta por músicas recolhidas na região pelo Mário de Andrade. Ele catalogou essas músicas nos anos 1930 e tivemos a ideia de usar essas canções.

Renata Pinheiro – Essas músicas tinham, no mínimo, 150 anos quando foram recolhidas. São muito ligadas à questão do trabalho, do plantador de cana. Esse material já reflete uma terra trágica e era tudo de lá mesmo, de Pernambuco, Zona da Mata, e também da Zona da Mata da Paraíba. Quando gravou esse material, o Mário de Andrade usou um gravador e fazia uma coisa maravilhosa: colocava todos os nomes de quem tinha cantado, e respeitamos isso. E é domínio público.

Maeve: "se, em 2014, alguém imaginasse um secertário de Cultura citando Goebbels diríamos que isso era apenas um roteiro ruim"

Cinema em Cena – Como vocês avaliam o momento atual do cinema brasileiro e as perspectivas, com as ameaças do Governo Federal?

Sergio Oliveira – O cenário é aterrorizador. Estão desmantelando tudo. Um bom exemplo é dos projetos com temática LGBT, sobre o qual inclusive o presidente da república fez uma live, quatro ou cinco meses atrás, falando de alguns projetos específicos. Recentemente, saiu o resultado do edital e esses projetos não foram incluídos. Coloca-se o artista como criminoso. Há pouco tempo, li que a primeira coisa que um governo farsesco faz é atacar os concorrentes, que são os artistas. E é exatamente o que eles estão fazendo. É inegável o avanço que o cinema brasileiro teve nos últimos quinze anos. Os resultados estão aí: o Brasil premiado com dois filmes em Cannes, Bárbara Paz em Veneza, agora Petra Costa indicada ao Oscar...

Maeve Jinkings - Eu acho que hoje o risco é pior do que foi na ditadura, porque vem travestido de outra coisa. Pensando em um filme como Açúcar, filmado em 2014 e lançado em 2020, poderia ser um filme que ficou velho e não, segue muito atual. Estamos falando de um filme em que a gente se volta para o passado, no qual tem alguém que resiste à passagem do tempo e à mudança das coisas e em que há uma elite agarrada a uma estrutura de poder, que é o que a gente está vivendo, uma volta ao passado. Vamos continuar fazendo cinema? Em que condições que isso vai se dar? Com que tipo de recurso? Há até uma visão de que essa situação possa ser um estímulo para a criatividade, mas há limitações, quem faz cinema tem que pagar as contas. O que estamos vivendo hoje é surreal! Se, em 2014, alguém dissesse que em 2020 a gente estaria vendo um secretário de cultura homenageando Goebbels, iriam dizer que isso era só um roteiro ruim.

 

 

 

Sobre o autor:

Alessandra Alves é jornalista com múltiplos interesses. Além do amor pelo cinema, pela música e pela literatura, também atua no jornalismo esportivo e na comunicação corporativa. Paulistana, corintiana, feminista e inimiga de fascistas, assina a coluna "Brasil em Cena", de entrevistas e reportagens sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
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