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Festival de Berlim 2020 - Dia #04 Festivais e Mostras

DIA 04

16) O Pinóquio do diretor italiano Mateo Garrone não é uma releitura, modernização ou subversão da fábula original de Carlo Collodi, mas uma adaptação fiel que reconhece a imensa imaginação da jornada do boneco de madeira e a onta com energia, humor (com toques de horror) e um senso estético memorável. E se ao final da projeção não vimos nenhum detalhe que já não conhecêssemos, a verdade é que há um motivo para que as crianças gostem tanto de ouvir as mesmas aventuras repetidas vezes, já que um bom contador de histórias sempre confere incute ar de novidade ao que já era clássico.

Sem perder tempo com prólogos desnecessários, posto que dificilmente haverá um espectador que não faça ideia do que irá ver na duas horas seguintes, o roteiro escrito por Garrone e Massimo Ceccherini rapidamente nos apresenta a Gepetto (Roberto Benigni), um carpinteiro pobre e faminto que, inspirado por um teatro de bonecos itinerantes, decide fabricar sua própria marionete, usando (sem saber) um tronco de madeira encantado que parece ter vida própria. O interessante é que ninguém na pequena vila manifesta grande espanto quando Gepetto apresenta Pinóquio ao mundo, o que, compreenderemos depois, se deve ao fato de que todo aquele universo é povoado por criaturas fantásticas, algo que o filme só revela aos poucos e sem alarde. Esta, aliás, é uma decisão inteligente de Garrone, que, com isso, facilita a entrada do espectador em seu mundo para só então escancarar sua proposta.

Este nosso mergulho na narrativa, claro, também é facilitado bastante pelo excepcional trabalho de maquiagem de Mark Coulier, que se equilibra bem entre toques sutis que apenas sugerem um elemento fantástico (como as orelhas pontudas e os bigodes do Gato e da Raposa) e próteses que modificam por completo os rostos e corpos dos atores (como os médicos-corujas e a... hum... mulher-lesma?) – além, é obvio, da concepção do protagonista, cujo físico de madeira não elimina a expressividade do jovem ator Federico Ielapi (e os efeitos sonoros, que adicionam um ranger a cada movimento, ajudam a vender a ideia). Enquanto isso, o design de produção se esmera na concepção de cada ambiente, imprimindo personalidade à casa da Fadinha, à vila de Gepetto e até ao interior da baleia que engole os personagens, atingindo seu auge na cidade que promete uma vida de diversões às crianças e traz um imenso parque de madeira em seu pátio central. Para completar, os figurinos de Massimo Cantini Parrini combinam bem os elementos que dão ao mesmo tempo a impressão de um passado distante, mas palpável, e uma realidade puramente fantasiosa.

Segunda visita de Garrone às fábulas (ele também dirigiu o bom O Conto dos Contos), Pinóquio reflete a sensibilidade de seu realizador, que evidentemente pinta a história com tons sombrios, incluindo a forte imagens do personagem-título pendurado pelo pescoço em uma árvore depois que dois vilões tentam matá-lo. De modo similar, a cena no semidestruído Palácio da Justiça, com seu juiz-macaco que insiste em prender inocentes, traz subtextos claros (cof-cof), enquanto a sequência que envolve a transformação do herói em um jumento é concebida para despertar terror e tristeza – além de resultar no plano mais bonito (e apavorante) do filme: aquele que traz um burro amarrado pelo pescoço (pois é, de novo) a um peso que o mantém submerso com o objetivo de afogá-lo.

Mas Pinóquio também oferece várias passagens de humor, leveza e redenção, permitindo a Roberto Benigni, por exemplo, explorar tanto a solidão e miséria de Gepetto quanto sua doçura e dedicação – e, se tratando de Benigni, não é surpresa que o personagem ganhe um toque de insanidade (aliás, é curioso lembrar que o ator viveu Pinóquio em sua própria adaptação da fábula). Acima de tudo, no entanto, o interesse da obra é manter um ritmo intenso de aventura, saltando de um episódio a outro a fim de incluir todos os acontecimentos clássicos da fábula sem cometer o erro de tornar a experiência desconjuntada, como se apenas riscasse itens de uma lista, sendo bem sucedida na maior parte do tempo.

Abraçando até as lições de moral básicas das histórias infantis (mentir é feio; é preciso respeitar os pais; estudar é importante), mas que estas soem condescendentes, esta nova versão de Pinóquio é tudo que as refilmagens live-action dos clássicos da Disney têm tentado fazer sem sucesso: um filme que respeita e segue os passos do original, mas oferecendo razões próprias para existir.

 

17) Em Transit, seu filme exibido no Festival de Berlim de 2018, o cineasta alemão Christian Petzold desenvolvia uma trama da Segunda Guerra ambientando-a em certos aspectos nos dias de hoje, combinando passado e presente de um modo engenhoso para comentar como o mundo segue estático em diversas questões apesar de todos os avanços tecnológicos. Pois isto faz um interessante paralelo com Undine, seu novo trabalho, através de uma cena na qual a personagem-título (Paula Beer), que trabalha como guia em uma exposição sobre a História de Berlim, discute como uma edificação do século 18 está sendo recriada na cidade atual, numa repetição cíclica do que ficou para trás.

Aqui, contudo, isto se reflete não em incidentes grandiosos, determinantes no curso da humanidade, mas na jornada pessoal da mulher. Mais especificamente, em sua vida amorosa. Quando o longa tem início, Undine está sendo deixada pelo companheiro, Johannes (Jacob Matschenz), expressando sua dor pelo abandono e prometendo matá-lo caso siga em frente; momentos depois, porém, ela já inicia um novo relacionamento com Christoph (Franz Rogowski), dando início a uma nova sequência de ansiedades amorosas, dores e decepções provocadas ou sentidas.

Trata-se de uma comparação engenhosa ao apontar como cada novo amor é construído sobre as ruínas do anterior, sendo moldado ao menos em parte por este – o que tem seus aspectos positivos e negativo -, e como problemas estruturais básicos, de alicerce, comprometerão todos os fundamentos futuros. Ainda assim, claro, insistimos na reconstrução, sempre promissora em seus primeiros tijolos; e Petzold retrata bem este processo da paixão nascente, permitindo que o espectador o divida com o casal (e Beer e Rogowski, que já haviam feito par romântico no longa anterior do cineasta, incorporam e expressam lindamente este caminho sentimental).

Infelizmente, é aí que Petzold decide apostar todas as fichas em algo apenas sugerido no primeiro ato: o realismo fantástico (ou de vez, quem sabe, no sobrenatural), fragilizando a obra em seu enfoque lírico sem ganhar algo de relevante em seu lado fantasioso. Com isso, Undine vai esfarelando à medida que a narrativa vai abraçando um teor mitológico, substituindo o simbólico pelo literal ao converter a personagem em uma ninfa real (e a ameaça de morte da cena introdutória é extraída diretamente daí).

Uma decisão que lança o filme em um caminho sem volta de finais múltiplos, frágeis e insatisfatórios.

 

18) Durante a ditadura militar na argentina, boa parte das maiores corporações do país colaboraram com os militares através de apoio financeiro e logístico para prender, sequestrar e matar trabalhadores que se tornavam inconvenientes através de seu ativismo sindical. Muitos foram entregues à repressão dentro das sedes das fábricas e transportados por suas vans depois de serem denunciados pelos empresários que, assim, aumentavam sua margem de lucros com a ajuda do governo repressor.

Depois de uma longa investigação por parte de um comitê do congresso da Argentina, um livro contendo informações detalhadas sobre o papel destas corporações foi produzido em 2015, mas jamais publicado – e é dele que o diretor Jonathan Perel extrai as passagens que apresenta ao público no documentário Responsabilidad Empresarial. Trata-se, como nem seria necessário dizer, de um arquivo importante que o cineasta torna público em uma abordagem minimalista, estacionando seu carro diante das fábricas mencionadas no relatório e lendo os dados contidos no livro sobre a empresa em questão enquanto enfoca sua fachada.

O problema é que esta estratégia acaba também por diminuir consideravelmente o impacto de todo o horror narrado, o que é lamentável.

 

19) Este é um equívoco cometido também por What Remains / Re-visited, documentário de Clarissa Thieme, uma realizadora alemã que, em 2009 visitou vários locais da Bósnia e Herzegovina que foram palcos de crimes de guerra durante os conflitos ocorridos no início da década de 90 e os apresentou no curta-metragem What Remains. O objetivo era mostrar como aquelas paisagens que abrigaram incidentes tão horríveis haviam se modificado ou permanecido imutáveis. Pois agora, Thieme retornou aos mesmos pontos (daí o “Re-visited” do título) e os filmou enquanto banners com imagens retiradas do curta são erguidas diante deles para que o espectador possa comparar as duas versões.

Simbolicamente, esta é uma ideia cheia de potencial ao trazer, lado a lado, passado e presente (eco curioso com o que discuti há pouco sobre o filme de Petzold), permitindo que vejamos como aquele molda este; na prática, porém, isto torna a narrativa rígida, fria e lenta demais, em mais um exemplo da forma prejudicando um conteúdo importante.

 

20) O que nos traz ao brasileiro Vil, Má, de Gustavo Vinagre: resgatando a figura de Wilma Azevedo, escritora que nas décadas de 70 e 80 fez imenso sucesso com suas histórias envolvendo sadomasoquismo e outros fetiches sexuais, o documentário é beneficiado de imediato por uma personagem interessante com uma trajetória fascinante, merecendo créditos pela iniciativa. Por outro lado, sua abordagem careta, que se limita a entrevistar a mulher e a ilustrar certas passagens com fotos de seu arquivo pessoal, não faz jus ao seu caráter transgressor, deixando de explorar também as curiosas contradições entre seu liberalismo sexual e sua moralidade religiosa conservadora. Uma discussão que por si só já sustentaria o filme inteiro caso este tivesse um pouquinho mais de ambição.

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Sim, os textos de hoje foram mais enxutos. É o cansaço. Espero que compreendam.

24 de Fevereiro de 2020

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Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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