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Fotografação: um diálogo de imagens Brasil em Cena

Com mais de cinquenta filmes no currículo, como diretor de fotografia, Lauro Escorel está de volta às salas de cinema, agora como diretor do documentário "Fotografação", que propõe um olhar sobre a fotografia brasileira, desde seu surgimento aos dias atuais, passando pelos principais nomes dessa arte, até o impacto das novas tecnologias e da fotografia digital na sociedade contemporânea. Na base de seu novo trabalho (ele também dirigiu os longas "Sonho sem fim" e "A fera na selva", em parceria com Paulo Betti e Eliane Giardini) estava o desejo de compartilhar imagens históricas com o público. 

Lauro Escorel falou com exclusividade ao Cinema em Cena.
 

Qual foi o ponto de partida para a realização de “Fotografação”?

O filme nasceu da minha vontade de compartilhar essas imagens com o público. Sendo um frequentador de exposições de fotografia, conhecendo os acervos de várias instituições e, muitas vezes, observando o encantamento das pessoas diante dessas fotografias, comecei a pensar na ideia de fazer um filme sobre isso. No começo, a ideia era fazer um filme que contasse a história da fotografia no Brasil e de seus precursores. Eu comecei a preparar esse material, com foco em alguns editais, e fui conversar com o José Carlos Avellar, que ainda estava vivo e trabalhava no Instituto Moreira Salles (IMS), no início de 2015. Nessa conversa, eu disse que estava com uma ideia maluca sobre um filme, e a resposta dele foi ótima: “As ideias malucas são as melhores. Qual é a ideia?” Expliquei, ele gostou muito, mas disse que não tinha muito como ajudar, a não ser apresentando pessoas do próprio instituto, que talvez pudessem contribuir. A conversa continuou e, no final, ele me disse que tinha uma pequena verba e me propôs fazer um curta metragem, para ver se a ideia prosperava.

E prosperou?

A evolução dessa conversa foi o curta-metragem chamado “Improvável encontro”, que ficou pronto em 2016 e é um diálogo entre as fotografias do Thomaz Farkas e do José Medeiros. Fizemos uma sessão no próprio IMS. Quando acabou, as pessoas de lá elogiaram, mas disseram que aquilo era uma série de televisão e que eu deveria fazer mais episódios. Fui, então, conversar com a minha produtora, Zita Carvalhosa, para mudarmos o projeto. Com o novo projeto pronto, procuramos o Canal Brasil, que aprovou a ideia e eu me preparei para começar essa série, que se chama “Itinerários do olhar”, que foi ao ar em outubro de 2019. Quando nós estávamos prontos para embarcar na série, saíram os resultados de dois editais para o longa-metragem. Com isso, o filme e a série ficaram prontos em 2019.

Escorel: influência das fotos no trabalho cinematográfico

O conceito do curta, portanto, é a base do longa?

Sim, porque esse diálogo era meu maior interesse. Como o trabalho de um fotógrafo dialoga com o trabalho de outro fotógrafo? Se eu experimentei isso com Farkas e Medeiros e deu certo, então no longa-metragem eu optei por uma abordagem mais ampla. Fiz um recorte extremamente pessoal, deixei de fora muitos grandes fotógrafos, que não entraram. Por trás dessa ideia do diálogo, estava a ideia da construção da imagem do país, ou seja, como o Brasil passou a ser representado pela fotografia e como a imagem de país que a gente imagina está alimentada pelas imagens desses fotógrafos. Essa ideia foi o ponto de partida para escolher os fotógrafos, as fotos que tinham a ver umas com as outras, não só no mesmo período, mas através do tempo. E, por último, eu agreguei uma camada mais pessoal, porque eu fui me dando conta de que eu também era influenciado por essas imagens. Então, eu senti a necessidade de, em alguns momentos, dar a referência de como essas imagens tinham dialogado com o meu próprio trabalho como diretor de fotografia.

O filme mostra períodos muito distintos, nos primórdios da fotografia, quando fotografar era um ato raro e até solene, e no presente, no qual a profusão de fotos é avassaladora. Para um fotógrafo profissional, essa condição atual é um copo meio cheio ou meio vazio?

Essa pergunta está no ar. O filme não é uma tese que eu queira demonstrar sobre isso. Ele tem um percurso e, de alguma maneira, eu demonstro que até a minha própria maneira de observar esse fenômeno foi se enriquecendo e se transformando ao longo da própria feitura do filme, quando me vi filmando, eu mesmo, com o meu celular, certas coisas para incluir no filme, fica muito evidente que eu faço parte desse processo, dessa mudança. Eu acho uma loucura, como como o antropólogo Milton Guran fala no filme, esses milhões de imagens que são feitas hoje. Como digo no filme, todo mundo quer estar em cena, o tempo inteiro. Mas, ao lado disso, é o fato de que hoje existe muita gente fotografando, e muito bem e me apresentando novos olhares sobre esse mundo que me cerca. É enriquecedor, na verdade, mas é muito difícil separar o joio do trigo.

Foto de José Medeiros, um dos artistas abordados em "Fotografação"

Em seu panorama sobre a história da fotografia no Brasil, o filme mostra a revista “O Cruzeiro” como grande formador de opinião de uma determinada época. Por que a opção por esse período?

Minha opção por esse recorte, focado em “O Cruzeiro”, tem a ver com a intenção de mostrar esse diálogo entre os trabalhos de um grupo de fotógrafos da mesma geração. Eles eram amigos, tinham interesses em comum, se visitavam, porém, a escolha não foi só por serem contemporâneos, mas pelo fato de que, ali, houve de fato uma transformação na fotografia brasileira. Eu tenho muito interesse na história e em recuperar a história. Fico espantado como muitas pessoas não conhecem o que já foi feito e acham que estão inventando a roda. Lembro de alguns exemplos de enquadramentos e técnicas, nos anos 1990, tidos como a reinvenção da roda, e tudo isso já estava na fotografia moderna do início do século. Acho que a gente precisa prestar mais atenção ao que já foi feito. Se a gente conhece essa conversa do passado, esse diálogo que proponho resgatar, a gente consegue participar melhor dessa conversa.

Trabalho de Marc Ferrez, com índios brasileiros

Com mais de cinquenta filmes como diretor de fotografia, como você analisa a chegada das câmeras digitais ao cinema?

Eu absorvi naturalmente e gradualmente, à medida que o digital foi correspondendo às minhas expectativas em termos de qualidade de imagem. Essa transformação na tecnologia, que representou também uma transformação nos equipamentos, no peso desses equipamentos, na sua sensibilidade, tudo isso se revelou uma novidade muito boa, porque aumentou as possibilidades. Elas preservaram o método e muitas coisas que eu pensava que não seria possível de serem feitas viabilizaram-se com o digital. Então, ficou muito mais fácil fotografar hoje do que era no passado. Mais fácil no sentido de que eu tenho mais possibilidades, então eu não tenho nenhuma nostalgia do filme. Tenho nostalgia de uma textura, com a qual eu nasci, com a qual eu convivi, mas mesmo essa diferença está desaparecendo. Hoje, há tantos recursos e possibilidades para buscar determinadas texturas, que o resultado final pode ser muito semelhante ao que se obtinha com a película, a ponto de que um espectador possa ficar em dúvida se aquela imagem é resultado de um processo digital ou fotoquímico. A gente tem que lidar com essa mudança, que não é só minha, como fotógrafo, mas também do espectador, que está vendo coisas diferentes. Esse filme, “Fotografação”, por exemplo: eu gostaria que a maioria das pessoas assistissem na tela grande, pela beleza das imagens, mas muita gente vai vê-lo no celular. Eu acho que esses vão aproveitar menos o filme, mas ao mesmo tempo, justamente por ter essa possibilidade, ele vai ser mais visto do que se estivesse restrito às salas de cinema.

Como você analisa o cinema brasileiro dos últimos anos e o momento atual?

O cinema brasileiro não parou de evoluir, de se enriquecer, de se transformar. Estávamos vivendo um momento muito rico, com as leis de obrigatoriedade de conteúdo nacional, levando a produção a uma franca expansão, crescendo e amadurecendo. Com problemas, claro mas em um processo de crescimento. Mas, quando a gente se depara com um governo que considera a cultura, o cinema, as artes em geral como seus inimigos, e resolve boicotar essa atividade através de uma asfixia financeira, há uma interrupção desse processo que não faz sentido. Mas eu acho que as pessoas vão continuar fazendo filmes, inclusive porque a tecnologia digital facilita isso. Já tivemos aquele absurdo que aconteceu com a Embrafilme, na época do Collor, mas nós vamos dar a volta por cima. Não vamos deixar de fazer. O brasileiro sempre usa situações adversas para resistir e dar o seu recado. É um momento muito difícil, mas nós vamos sair dele, e vai ficar claro o absurdo que foi feito com o cinema brasileiro no último ano. Já há canais que estão sendo obrigados a repetir programas, porque as novas temporadas não ficaram prontas por falta de recursos, que não saíram. Mas há muita gente querendo filmar, contar suas histórias, e de alguma forma esses filmes vão surgir.

Sobre o autor:

Alessandra Alves é jornalista com múltiplos interesses. Além do amor pelo cinema, pela música e pela literatura, também atua no jornalismo esportivo e na comunicação corporativa. Paulistana, corintiana, feminista e inimiga de fascistas, assina a coluna "Brasil em Cena", de entrevistas e reportagens sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
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