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Espero que esta te encontre e que estejas bem: o resgate de uma história de amor através de suas cartas Brasil em Cena

Espero que esta te encontre e que estejas bem: o resgate de uma história de amor através de suas cartas

Com roteiro e direção de Natara Ney, documentário é o resultado de um longo processo investigativo

Fazendo pesquisas para outro projeto, na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro, a diretora e roteirista Natara Ney se deparou com um maço com 180 cartas, escritas num período entre 1952 e 1953. Nelas, uma história de amor, entre Lúcia e Oswaldo. “Após as ler, colocar em ordem cronológica, fiquei encantada e curiosa. O que havia acontecido com aquele casal apaixonado? Como terminara a história deles? E principalmente encarei como missão devolver aquela preciosidade para os seus verdadeiros donos”, conta a cineasta.

É a busca por esse casal o fio condutor de “Espero que esta te encontre e que estejas bem”, primeiro longa da cineasta, que faz sua estreia nesta semana nas cidades São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Porto Alegre, Manaus, Campo Grande, Brasília, Belo Horizonte, Balneário Camboriú e Aracaju. Natara falou com exclusividade ao Cinema em Cena sobre o filme, sobre amor e sobre a transformação das relações e das cidades, de muitas formas refletida no documentário.

Cinema em Cena – Antes de falar da história em si, eu gostaria que você falasse um pouco sobre a produção do filme e os desafios que você enfrentou até o lançamento, especialmente com a pandemia.

Natara Ney – O primeiro edital que nós vencemos para realizar o projeto foi para um curta e comecei a trabalhar com esse formato em mente. Depois, nós conseguimos recursos junto ao Funcultura, de Pernambuco, para um longa, e então mudei novamente o rumo do projeto. Como curta, ele iria se concentrar na história por trás daquelas cartas, ou seja, em Lúcia e Oswaldo. Com a mudança, entendi que precisaríamos inserir os contextos nessa história, e aí passamos a incluir um amplo trabalho de pesquisa e uso de material de arquivo. Enquanto as verbas não eram liberadas, foi como se a vida ficasse em suspenso para o projeto. Nesse período, fui maturando os textos. As verbas foram liberadas no meio da pandemia, e aí surgiram outros desafios. Desde a motivação para o filme – será que é hora de falar de amor em um período tão caótico como o que estamos vivendo? – até questões práticas mesmo, com as dificuldades de produzir um filme sem expor a equipe durante a pandemia. No final, eu me convenci de que era hora, sim, de falar de amor, e a produção se organizou, adiantando etapas que podiam ser feitas de forma remota. Afinal, conseguimos finalizar o filme sem expor nenhum integrante da equipe.

Cinema em Cena – A equipe que produziu o filme tem uma grande quantidade de mulheres: você, três produtoras, uma montadora, entre outras. Essa concentração de mulheres no projeto foi intencional?

Natara Ney – O audiovisual brasileiro tem uma forte presença de mulheres, isso é fato. Há muitas mulheres produzindo, dirigindo, escrevendo roteiros, fazendo montagens. Eu mesma estou no ramo desde a década de 1990, com uma longa carreira na montagem de filmes de ficção, séries e documentários. Mas, na minha atuação como cineasta negra, de uma geração que sofreu muito com o machismo e com o racismo, eu assumi a missão de ajudar a abrir caminho para novas cineastas negras que estão chegando ao mercado. É claro que a produção do documentário conta com profissionais homens, que são grandes parceiros inclusive nessa visão de equidade.

Cinema em Cena – “Espero que esta te encontre e que estejas bem” é definido como um filme de amor, inclusive porque é a história por trás de uma coleção de cartas de amor, mas você acha que ele também pode ser descrito como um filme sobre ausências (do ser amado, das cidades de antigamente, dos cinemas de rua, da memória etc.)?

Natara Ney – Eu nunca tinha pensado sob essa perspectiva! (risos) Mas pode ser, também. Acho que, mais do que ausência, o filme trata de estratégias para preencher os espaços de ausência. É sobre entender as ausências para abrir espaço para novas presenças. Esse filme funcionou, para mim, como uma estratégia de sobrevivência, um exercício contra a depressão.

A diretora, roteirista e produtora Natara Ney

Cinema em Cena – Depois que organizou as cartas, você percebeu que aquela história não pertencia a você. No entanto, você se coloca no filme, em primeira pessoa. Por que essa escolha?

Natara Ney – Esse foi um processo que demorou bastante. À medida que o projeto avançava, eu me convencia de que o filme precisava de uma voz off, para explicar alguns elementos da história. Minha primeira trava em relação a isso foi com meu sotaque pernambucano. Sou formada em jornalismo e, na minha época de faculdade, a gente aprendia que locução tinha que ser “neutra” e eu levei um tempo para perceber que sotaque não é problema. Mas, depois, surgiu outro entrave: eu tinha dificuldade de falar de um amor que não era meu, porque ele me colocava em contato com uma história minha, que não deu certo. Foi quando eu resolvi me colocar por inteiro, fazendo do filme também uma despedida desse amor, que não deu certo. Mas foi um longo caminho, porque envolvia insegurança, exposição e o desafio de escrever e interpretar um texto que não podia ser didático, mas emotivo na medida certa.

Cinema em Cena - Seguir o fio dessa história é uma tarefa intuitiva. Por que você optou por não identificar os entrevistados?

Natara Ney – Porque eu quis dar ênfase no que cada entrevistado estava falando, não em quem eram aquelas pessoas. Porque, de fato, aqueles personagens realmente se tornaram pontes para a investigação toda que envolve a história, mas a percepção e as reações deles às cartas são mais importantes do que saber quem elas são. Ao colocar as cartas nas mãos deles e pedir que eles lessem aquelas palavras permitiu um momento de protagonismo a cada um. No filme, cada um tem o seu solo.

Cinema em Cena - Histórias de amor com décadas de duração parecem coisa do passado, para você? Os casamentos duravam uma vida inteira porque o amor era diferente, ou porque as mulheres eram dependentes dos homens?

Natara Ney – Acho que muitas delas eram, sim, mantidas por uma espécie de contrato social, no qual o homem era o provedor e a mulher, a cuidadora da família, mas também percebo que existem uniões atuais que são longevas, e baseadas em valores diferentes desses do passado. Ao me colocar nessa história, em vez de frustração, eu me senti encorajada para colocar um ponto final em uma história que não era boa para mim. Hoje e no passado, há histórias de amor longas, curtas, felizes, ruins. Cada um vai construir e terminar a sua.

Sobre o autor:

Alessandra Alves é jornalista com múltiplos interesses. Além do amor pelo cinema, pela música e pela literatura, também atua no jornalismo esportivo e na comunicação corporativa. Paulistana, corintiana, feminista e inimiga de fascistas, assina a coluna "Brasil em Cena", de entrevistas e reportagens sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
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