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Festival de Cannes 2022 - Dia #05 Festivais e Mostras

Dia 05

14) Era uma Vez um Gênio é uma fábula protagonizada por uma mulher que as estuda, mas que foge de histórias em sua própria vida; uma figura de racionalidade que se vê confrontada por fantasia e que acaba por entrar em um conto de fadas com a precaução de quem conhece as armadilhas que a esperam. Inspirado no conto de A.S. Byatt e adaptado pelo diretor George Miller ao lado de Augusta Gore, este filme é como se Cinderella visse a fada-madrinha e dissesse “não, obrigada; este sapatinho de cristal vai acabar quebrando e cortando meus pés”.

Protagonizado por Tilda Swinton em mais uma de suas caracterizações físicas que oscilam entre o absurdo e o plausível (mas tendendo ao primeiro), o longa traz a atriz como a acadêmica Alithea, especialista em mitos e em suas versões ao longo dos séculos, e que durante uma conferência em Istambul acaba comprando uma garrafa antiga em um mercado local e – claro – libertando o gênio que se encontrava aprisionado há três milênios. Aliviado por se ver livre novamente, o djinn (Idris Elba) concede à mulher os três desejos protocolares, mas é surpreendido quando esta se nega a fazê-los, já que acredita que, como na maior parte das histórias, eles resultarão em desastre. Para convencê-la, o ser mágico reconta os incidentes que o levaram à garrafa e todos os encontros que teve desde então.

Estruturalmente falando, portanto, Era uma Vez um Gênio gira em torno, em última análise, da conversa entre dois indivíduos e dos embates argumentativos entre estes – e o mais interessante é constatar como o drama principal é motivado não pelas ambições da protagonista, mas pela ausência destas; para Alithea, manter sua rotina previsível é mais valioso do que todas as possibilidades oferecidas pelo djinn, configurando uma situação jamais enfrentada por este. Não à toa, um dos momentos mais impactantes da narrativa surge não em uma ocorrência mágica, mas quando a mulher engole em seco, traindo uma reação a algo que ouve e que seu interlocutor percebe imediatamente – e que algo assim se destaque em uma história recheada de incidentes fantásticos é um testemunho da compreensão de Miller sobre como, no fim das contas, são os personagens e suas emoções que capturam a imaginação do espectador.

Não que o longa ignore as possibilidades imagéticas contidas na trajetória do djinn; ao contrário, o design de produção de Era uma Vez um Gênio é espetacular, colorindo a tela com cenários e figurinos imaginativos e criando vários momentos de imensa beleza. Da mesma maneira, Miller e a montadora Margaret Sixel concebem transições elegantes, eficazes e dinâmicas, como no raccord gráfico que converte o trem de pouso de um avião nas rodas do carrinho de bagagens ou aquele, sonoro, que flui do suspiro da protagonista à risada da plateia que ouve sua palestra.

Mas o realizador é sensível também ao desacelerar a narrativa no terceiro ato para acompanhar, com um tom quase melancólico, o período posterior ao desejo feito por Alithea e que ao mesmo tempo confirma seus medos e os desafia, culminando numa resolução satisfatória que não trai a premissa e tampouco se contenta com saídas fáceis. E que, de quebra, ainda faz um comentário certeiro sobre como o excesso de estímulos do mundo contemporâneo pode nos anestesiar para aqueles que são de fato essenciais.

15) Inspirado em um caso real ocorrido em 2003 na Austrália, O Estranho é um filme que traz similaridades com o dinamarquês A Noite do 12 ao demonstrar interesse em retratar em detalhes os procedimentos policiais envolvidos na caçada a um criminoso e não necessariamente em abordar o crime em si. Aqui, por exemplo, o homicídio que move as investigações ocorreu anos antes e só conhecemos seus detalhes através das falas dos personagens que buscam trazer o culpado à justiça; em vez disso, o roteiro de Thomas M. Wright (baseado no livro de Kate Kyriacou) se concentra na complexa operação organizada pela polícia para cumprir a tarefa.

Quando a projeção tem início, somos apresentados a dois homens que viajam em um ônibus: um deles, Mark Frame (Joel Edgerton) está se mudando para a região na qual a maior parte da trama se passa e na qual o outro, Henry Teague (Sean Harris), já mora há algum tempo. Logo, eles trocam contatos e se tornam próximos a ponto de Mark apresentar Henry aos integrantes de uma grande quadrilha para a qual trabalha e que executa trabalhos misteriosos e bastante lucrativos. Designado para operar sob a liderança do novo amigo, Henry diz apenas não aceitar trabalhos que envolvam violência e logo cria intimidade com o novo parceiro, que parece interessado em fazê-lo se destacar na organização. Que – e este é o ponto central revelado ao início do primeiro ato – não existe, sendo parte de uma farsa para levar Henry a confessar a autoria do assassinato de uma criança no passado.

A natureza da operação é algo que o diretor-roteirista expõe já nas primeiras conversas entre Mark e Henry, quando os diálogos são ouvidos claramente apenas quando ambos se encontram dentro do carro (no qual há uma escuta instalada), tornando-se abafados quando saem do veículo. Além disso, em diversos instantes acompanhamos o protagonista enquanto faz seus relatórios para os superiores e passa por entrevistas com o psicólogo do departamento para que se assegurem de que sua posição de infiltrado não o afete excessivamente.

Ator capaz de oscilar entre a gentileza e a ameaça com habilidade, Edgerton cria aqui o retrato de um homem torturado pela tensão da situação que vive, mas que a enfrenta por não ter alternativa, deixando-se afetar aos poucos pela natureza sombria do homem com o qual é obrigado a conviver – e é a tensão constante do policial que nos leva a perceber como a natureza aparentemente inofensiva de Henry é só a máscara de um monstro (e que Harris encarna bem, permitindo que enxerguemos a insanidade nos olhos de Henry mesmo quando este se mostra vulnerável).

Registro de uma operação policial cuja escala é surpreendente por si só – em especial por ter como objetivo a apreensão de um único indivíduo -, O Estranho é um thriller que também flerta com o estudo de personagem, o que pode comprometer seu ritmo aqui e ali, mas sempre com bons motivos.

16) A vida dos plebeus não permitia o tédio: ou há trabalho ou há exaustão, mas raramente tempo livre suficiente para se pensar em como este poderia ser empregado de forma mais divertida. Já a aristocracia e a monarquia tinham todo o tempo do mundo para experimentar o enfado da inutilidade absoluta, buscando preenchê-lo com festas, viagens ou intrigas palacianas.

Nada disso era o bastante, porém, para entreter a Imperatriz Elizabeth (Vicky Krieps), que na Áustria do século 19 é obrigada a desempenhar suas funções protocolares (leia-se: aparecer em público) sem criar controvérsia – embora isto se mostrasse impossível quando, na falta do que fazer, todos projetavam na monarca toda sorte de intenções ao vê-la mais magra, mais gorda, mais cansada, mais ativa, mais melancólica, mais alegre ou qualquer outra variação imaginável. As fofocas têm pendor à homogeneização. Assim, a inquietação da Imperatriz, que a levava a fugir do comportamento esperado, aos poucos se transforma em um problema para seu marido, o Imperador Franz Joseph (Florian Teichtmeister), que ainda vê com alarme os esforços da esposa de transmitir sua curiosidade intelectual para a filha do casal, o que traria apenas mais perturbações.

O contraste entre os dois monarcas, por sinal, pode ser resumido pelas suíças postiças que o Imperador usa sempre que está em público e com as quais demonstra um conforto que a rainha jamais alcança com os apertados corpetes que é forçada a usar para calar os boatos persistentes sobre sua flutuação de peso – algo que também a obriga a ignorar as iguarias que todos consomem nos suntuosos jantares e que ela pode apenas observar com inveja. É natural, portanto, que ela busque preencher seu tempo com visitas ao hospital psiquiátrico que assumiu como causa particular, prestando particular atenção às mulheres detidas por “histeria”, adultério ou outros comportamentos que em um homem não representariam problema algum, demonstrando identificar-se em especial com as pacientes que ficam aprisionadas em jaulas improvisadas sobre suas camas enquanto permanecem amarradas em tempo integral.

Por outro lado, é claro que sua situação está longe de ser a mesma: a rainha pode até se sentir enjaulada, mas as grades em seu caso são de ouro e as celas têm o pé-direito altíssimo (o que, por sinal, leva a uma imagem inspirada concebida pela diretora e roteirista Marie Kreutzer, que situa a personagem em um cômodo miniaturizado que reflete seus sentimentos de sufocamento). Além disso, ela própria exibe um profundo egoísmo ao impedir que sua principal acompanhante se case, já que isto a privaria de sua presença – e aqui, mais uma vez, Krieps é habilidosa ao ilustrar as ações reprováveis de sua personagem de forma natural, como se jamais ocorresse à rainha uma outra possibilidade depois de uma vida inteira de confortos e mimos que estragariam até a mais razoável das pessoas.

Usando o que essencialmente é um estudo de personagem para observar também a triste atemporalidade do comportamento de quem encara seus privilégios como um direito natural e contribui para a opressão alheia mesmo enxergando a si mesmo como “esclarecido” ou “generoso”, Corságe é melhor em suas partes constituintes (figurinos, direção de arte, performances) do que em seu todo, mas ainda assim é uma obra que sabe a preciosidade que tem em Vicky Krieps e a utiliza bem.

23 de Maio de 2022

Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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