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Festival de Berlim 2023 - Dia #03 Festivais e Mostras

Dia 03

7) John Wick fez escola e Kill Bok-soon está aqui para provar. Dirigido e roteirizado por Byun Sung-hyun, o filme se inspira no submundo secreto dos assassinos profissionais da série protagonizada por Keanu Reeves e a imagina com um pouco menos de rituais e muito mais mentalidade corporativa – e extraiam disso o significado que quiserem. Aqui, não há moedas secretas ou costumes antigos; modernidade é a palavra que os chefões (CEOs?) julgam a mais importante para seus negócios.

Resultado das regras criadas e implementadas pelo Diretor Cha (Sul Kyung-gu), esta modernização levou a consolidação de todo o mercado de assassinos a apenas seis ou sete empresas, sendo a MK, pertencente a Cha e co-dirigida por sua irmã (Esom) a maior e mais poderosa. Boa parte desta influência, por sinal, se deve à principal estrela da companhia, Gil Bok-soon (Jeon Do-yeon), que se tornou lendária entre os companheiros por jamais falhar em suas missões, sendo uma raríssima assassina classificada como “A” – a mais alta posição no ranking de matadores. Esta faceta impiedosa, contudo, cede lugar a outra quando Bok-soon está de folga: mãe de uma adolescente rebelde (que nem suspeita de sua profissão real), ela tenta se aproximar da garota, mas sem sucesso – e é então que sua situação se complica quando ela se recusa a eliminar um alvo, o que abre espaço para que Min-hee, irmã do Diretor Cha, possa persegui-la abertamente.

Apresentando seu universo ao espectador de modo divertido, Kill Bok-soon imagina a comunidade de matadores profissionais como uma autêntica confraria entre os funcionários das várias empresas, que se reúnem no bar de um colega aposentado enquanto seus chefes disputam o poder em salas de reunião que poderiam pertencer a um vilão de 007 – um visual que se contrapõe ao da sala do Diretor Cha, que, imponente em seu espaço amplo, traz sofás de um azul intenso que complementam as cores fortes dos ternos do executivo, sugerindo sua obsessão em controlar cada detalhe ao seu redor.

Com a naturalidade daquele mundo estabelecida, Sung-hyun pode retratar seus personagens nas situações mais atípicas, como ao encenar uma conversa confessional, delicada, em uma cena de crime enquanto um dos participantes altera a posição dos corpos para despistar a polícia. Já em outros momentos, o diretor se entrega a uma estilização maior e ao flerte com homenagens a gêneros específicos, como ao imaginar Vladivostok como uma cidade do Velho Oeste norte-americano durante uma missão executada pelo próprio Cha – um paralelo que os posicionamentos de câmera e a trilha ajudam a estabelecer. Do mesmo modo, as sequências de ação envolvem abordagens distintas, desde a luta inicial que traz um plano registrado através das janelas de um metrô que cruza a tela rapidamente (criando um efeito que remete ao zootropo e aos primórdios do conceito de Cinema) até a intensa batalha no bar, que já investe numa sensibilidade estética mais moderna – além, claro, dos confrontos envolvendo gun fu que reforçam a influência de John Wick.

Mas talvez o mais notável em Kill Bok-soon seja a performance de Jeon Do-yeon, que consegue criar uma personagem multidimensional mesmo trabalhando dentro de uma proposta absurda – e por mais que eu goste da série estrelada por Keanu Reeves, não creio ser injusto afirmar que Wick não é uma figura das mais complexas. Equilibrando-se com talento entre a natureza mítica da protagonista e sua faceta humana, atormentada por dramas familiares, Do-yeon ancora o longa com segurança, forjando uma dinâmica com o Diretor Cha de Sul Kyung-gu que sugere uma imensidão de subtextos instigantes.

Feitas estas considerações, é preciso apontar que um dos esforços temáticos do roteiro de Sung-hyun é sabotado por não perceber uma contradição óbvia: tentando traçar uma alegoria entre o sucesso profissional da personagem-título e as desigualdades no mercado de trabalho que prejudicam as mulheres no mundo real, Kill Bok-soon é hábil ao estabelecer a raridade da posição da assassina, reforçando também a importância da sororidade em sua relação com uma estagiária (sim, há matadores estagiários neste universo) – apenas para dar um tiro no pé ao recair nos piores estereótipos femininos ao criar uma vilã movida por ciúme e inveja.

Um tropeço que eu perdoaria com prazer caso um crossover entre este filme e sua inspiração fosse possível.

8) Ao contrário de muitos de seus colegas, o cineasta iraniano Mehran Tamadon nunca foi preso pelo regime de seu país, embora tenha tido seu passaporte confiscado temporariamente em uma ocasião. Claro que o fato de morar em Paris há muitos anos e de não ter voltado ao Irã durante este período explica sua falta de experiência com a repressão – e talvez este seja o motor para que tenha desejado realizar este Where God Is Not.

Entrevistando três antigos prisioneiros do regime iraniano (Homa Kalhori, Taghi Rahmani e Mazyar Ebrahimi), Tamadon se mostra determinado a extrair de seus personagens mais do que suas experiências, mas suas sensações – e, para isso, chega a reconstruir com a ajuda destes as celas nas quais foram aprisionados e a sala de tortura na qual marcas indeléveis foram criadas. Mais: um de seus entrevistados aceita recriar determinados elementos da tortura que experimentou, colocando-se tanto no papel de torturado quanto de torturador (neste caso, as vítimas são um manequim e o próprio diretor).

De um ponto de vista ético e moral, muito pode ser debatido com relação a Where God Is Not; as implicações destas sessões sobre os ex-prisioneiros não são difíceis de imaginar – e Kalhori, por exemplo, começa a chorar apenas ao ouvir o som de um maçarico que era usado em uma oficina da prisão. Em alguns momentos, aliás, é quase impossível não enxergar, no cineasta, um quase sadismo associado a uma frustração por não ter passado por aquelas dores como tantos de seus companheiros e que ele tenta sublimar ao se colocar no lugar de seus três personagens.

Ainda assim, aos poucos o documentário consegue justificar as decisões de Tamadon ao dar amplo espaço para que aqueles indivíduos possam expressar seus traumas, sua raiva e sua vergonha (Kalhori, sendo mulher e atacada pelos torturadores por ser “infiel”, passou a usar uma burka na prisão e a fiscalizar as companheiras, o que a faz sentir-se uma traidora de seus princípios).

Não sei se estes elementos positivos acabam por compensar a natureza preocupante da proposta do documentário, mas ao menos é possível perceber que o diretor demonstra sensatez suficiente para também não ter certeza sobre isso.

9) “Quem é Boris Becker?”, pergunta o diretor e narrador Alex Gibney logo no início de seu documentário Boom! Boom! The World vs. Boris Becker. Trata-se de uma indagação tão clichê que chega a surpreender ter partido de um documentarista tão experiente – e a explicação mais plausível para isto reside no fato de Gibney já saber que seu filme não conseguirá respondê-la, apresentando-a como uma espécie de álibi para sua falha.

Posicionando-se firmemente do lado do biografado desde os primeiros minutos, quando já o enfoca chorando mesmo que ainda não saibamos exatamente os motivos, o longa parte da tese de que Becker é um gênio e que suas falhas pessoais pouco mais são do que uma tentativa inconsciente de auto sabotagem – e embora o tenista talvez possa mesmo ser considerado um “gênio” no esporte (eu não saberia dizer e o filme não me convence disso ainda que estabeleça o grande talento do atleta), é difícil levar a sério qualquer tentativa de análise feita por um longa que, já em seu título, coloca seu protagonista na posição de vítima.

Os equívocos do projeto não param por aí, no entanto, já que a ideia de comparar tenistas a atiradores dos westerns é tão tola que serve mais para distrair do que para ilustrar algum ponto, tornando-se irritante a repetição do uso de temas musicais que remetem ao gênero e de elementos gráficos para apresentar os oponentes de Becker inspirados em Três Homens em Conflito.

Pontualmente divertido ao revelar detalhes sobre rivalidades importantes na carreira do protagonista (o depoimento de John McEnroe sobre uma partida marcada pelas tosses de Becker é um destaque), Boom! Boom! não consegue ocultar sua simpatia por seu (anti?)-herói – o que, embora compreensível já que Gibney quis abraçar o projeto, compromete sua credibilidade, bastando observar como mesmo ao apontar uma mentira contada por Becker o filme imediatamente tenta encontrar desculpas para que ela tenha sido dita.

Para piorar, a conclusão de que “o maior oponente de Boris Becker era ele mesmo” não apenas é – mais uma vez – clichê como é típica de figuras que tentam ao mesmo tempo se posicionar como complexas enquanto deixam claro que eventuais derrotas em sua área não ocorrem graças à superioridade de oponentes, mas à natureza torturada do derrotado.

Tanto Gibney quanto Becker – eu acho - mereciam algo melhor do que este documentário.

10) Gu Wentong é um homem solitário. Não que não haja ninguém em sua vida: ele é pai de uma garotinha que o admira e que mora com sua irmã e seu cunhado, com os quais ele também mantém uma relação afetuosa. De tempos em tempos, uma reunião com amigos da juventude ocorre para lembrá-los do que sonhavam no início da vida e de como se desviaram destas ambições, permitindo choros coletivos que funcionam como válvulas de escape bem-vindas. E há, claro, a fotógrafa Ouyang Wenhui, uma colega de trabalho que, 15 anos mais jovem, demonstra um interesse surpreendente por ele.

Nada disso, contudo, preenche o profundo vazio existencial que Gu parece cultivar com empenho. Caminhando lentamente em seus passeios diários por sua vizinhança humilde, ele ocasionalmente repete gestos feitos pelas pessoas ao seu redor, como se buscasse alguma conexão que pudesse salvá-lo de seu isolamento, mas nunca com muito sucesso. Sujeito de poucas palavras, ele aparentemente não vê a contradição entre seu silêncio e o fato de trabalhar produzindo palavras – no passado como poeta e agora como crítico culinário.

Não que isto tampouco desperte qualquer paixão, já que, ao longo de The Shadowless Tower, escrito e dirigido pelo chinês Zhang Lu, o protagonista raramente é visto discutindo comida ou mesmo demonstrando prazer ao visitar este ou aquele restaurante. Por outro lado, seu rosto sempre se abre num sorriso ao ver a filha, mas até estes instantes de alegria são passageiros, já que ele logo retorna ao seu quarto minúsculo, triste e sem personalidade.

Porém, apesar de toda esta apatia emocional do personagem, a performance de Bai Qing Xin traz calor suficiente para que aos poucos o espectador passe a se importar com aquela figura tão retraída, o que é essencial para que possamos compreender por que Ouyang (Yao Huang) experimenta o mesmo efeito – pois se inicialmente há a sugestão de que a garota quer apenas provocar o retraído colega (ela tira as fotografias que ilustram suas críticas gastronômicas), eventualmente seu interesse se revela autêntico e indicador de que talvez ela reconheça nele uma dor similar à sua.

Dores estas que têm raízes na infância de cada um e refletem suas inseguranças e comportamentos atuais – e que, no caso do Sr. Gu, acaba tendo como símbolo o prédio quase em ruínas no qual reside um idoso cuja ligação com o protagonista compreenderemos ao longo da projeção e que representa não só seu passado traumático, mas também – o mais assustador – a possibilidade bastante real de um futuro similar.

O que importa, contudo, é a coragem de confrontar este passado em vez de seguir a vida num piloto automático que se dirige lentamente a uma catástrofe, compreendendo que as sombras que projetamos revelam, em sua escuridão, a existência de uma fonte de luz logo à frente.

21 de Fevereiro de 2023

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Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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