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Festival de Berlim 2024 - Dia #07 Festivais e Mostras

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Dia 07

21) Bastam cinco minutos para que Des Teufels Bad (The Devil´s Bath) desfira uma pancada no espectador que o manterá atordoado e ansioso pelo resto da projeção – e embora estejamos falando dos momentos iniciais deste excepcional longa austríaco escrito e dirigido pela dupla Veronika Franz e Severin Fiala, que já havia realizado o também impactante Boa Noite, Mamãe! e o tenso O Chalé, não me atreverei a revelá-los neste texto, já que merecem ser descobertos em seu próprio contexto. Dito isso, a atmosfera sufocante da narrativa é estabelecida também visualmente; a imagem da ponte que conduz a uma fortificação no meio da neblina, em especial, sugere mais sobre o que veremos do que uma dúzia de diálogos conseguiriam em um tempo similar.

Concluída esta introdução, porém, o tom suaviza enquanto acompanhamos Agnes (Anja Paschg), que se prepara para seu casamento com Wolf (David Scheid), um pescador que mora em um vilarejo (se é que chega a tanto) vizinho à região em que ela cresceu. Estamos no século 18 e os caminhos traçados no meio da floresta nem sempre são claros; perder-se indo de um ponto a outro não é ocorrência rara para alguém pouco familiarizado com a área – e esta é apenas uma das novas ansiedades que tomam conta da protagonista, que também deve se habituar a um cotidiano distante da mãe e do irmão e agora dominado por sua sogra, a rígida Mãe Gänglin (Maria Hofstätter). Ainda assim, há promessa na nova vida: Wolf é um marido relativamente gentil e, como indicam os signos presentes no ritual do casamento (um avental e um bebê de cera), Agnes agora poderá cumprir aquilo que considera seu propósito principal: tornar-se mãe e cuidar de sua família.

Fotografado por Martin Gschlacht como um universo triste, frio e de cores dessaturadas, The Devil´s Bath faz um trabalho de recriação de época excepcional, mergulhando o espectador em uma época marcada pela higiene precária, roupas que se preocupam exclusivamente com a funcionalidade e não com a estética e casas que são ao mesmo tempo desconfortáveis, claustrofóbicas e aparentemente expostas a todas as alterações climáticas. Aliás, o design da nova casa que a protagonista divide com o marido é particularmente eficiente como representação de sua situação, já que parece semienterrada e conta com um porão escuro e assustador que aos poucos se converte em uma manifestação do estado emocional e psicológico da personagem.

E é difícil imaginar como este estado poderia ser diferente, já que Agnes é sobrecarregada por uma série de tarefas estranhas à sua experiência – que, considerando as condições primitivas do período e do local em que vive, já eram exaustivas o bastante. Entregando-se ao trabalho durante todos os minutos em que está acordada (e isto apenas para sobreviver), Agnes, Wolf e os demais habitantes da área mantêm uma rotina rígida cujos poucos instantes de diversão são alimentados pelo excesso de álcool. Da mesma maneira, a brutalidade dos costumes e das superstições da época jamais deixa de chocar, seja em uma competição envolvendo uma galinha, seja no presente que Agnes recebe do irmão para atrair uma gravidez rápida.

A pressa em engravidar, por sinal, é um fator de instabilidade constante para a protagonista, já que Wolf, embora não violento (uma virtude naquele contexto), não se mostra interessado em sexo – e o longa sugere o motivo de modo sutil em alguns momentos. Sentindo-se cada vez mais solitária, Agnes vê cada mancha de sangue em suas roupas não como um fenômeno mensal natural, mas como um atestado de seu fracasso como mulher e – pior – como serva de Deus, sendo tomada por uma profunda depressão que seus contemporâneos só conseguem interpretar como fingimento, preguiça ou (o mais grave) ação demoníaca. E nenhuma das opções conta com soluções razoáveis.

Ancorado por uma performance absolutamente magistral da música Anja Plaschg, responsável também pela ótima trilha sonora, The Devil´s Bath comprova a precisão técnica da atriz não só através da instabilidade crescente que a personagem demonstra, mas por sua intensidade surpreendente nos inesquecíveis dez minutos finais.

Resgatando uma passagem horrenda da história do catolicismo na Áustria, o filme provavelmente despertará comparações com o excelente A Bruxa – embora não seja a rigor um exemplar do gênero “horror” – por dividir com aquele não apenas a ambientação similar (embora em outro continente), mas algo ainda mais essencial: seus monstros são reais.

22) Quando as palavras “livremente inspirado em A Volta do Parafuso de Henry James” apareceram nos créditos iniciais de Mãos no Fogo, a promessa de uma versão lusitana modernizada de uma história que já rendeu tantas adaptações – algumas boas, muitas ruins – soou intrigante, sendo reforçada pelos belos planos-detalhe de equipamentos cinematográficos sendo cuidadosamente embalados para uma jornada ainda não especificada. Seria possível qu

Não.

A promessa durou até o momento em que a primeira fala do filme foi pronunciada pela cozinheira Céu (Adelaide Teixeira) e repetida inúmeras vezes enquanto esta perseguia um peru a fim de matá-lo e assá-lo – e o problema não residia nas palavras em si, mas no tom da cena, na composição deselegante e no fato de a diretora Margarida Gil não se dar conta de como a passagem já havia se estendido bem mais do que o tolerável. Para piorar, logo em seguida toda a premissa da história original é descrita por Céu para a protagonista Maria do Mar (Carolina Campanela) em um monólogo expositivo que pouco espaço deixa para que a narrativa o explore

Assim, em vez de tentar encontrar uma abordagem interessante para a novela, o roteiro escrito pela realizadora se limita a recuperar os principais personagens, descartando suas nuances e forçando-os a ser coadjuvantes de uma protagonista entediante vivida por uma atriz que – talvez sabotada por sua diretora – não consegue nos convencer sequer de que a documentarista que interpreta sabe usar uma câmera. Aliás, se há um aspecto de Mãos no Fogo que merece créditos pela coesão, este diz respeito à homogeneidade das performances inexpressivas e unidimensionais.

Aparentemente sincero em sua intenção de criar uma atmosfera de horror, o longa se torna involuntariamente cômico nestes esforços graças à cafonice dos diálogos, ao tom melodramático da mise-en-scène e a planos como aquele em que dois personagens conversam no banco dianteiro de um carro enquanto um deles move o espelho retrovisor para que revele alternadamente os olhos de quem está falando em cada momento.

Mas nada supera o instante em que Margarida Gil, emulando Persona (intencionalmente ou não), recria a imagem clássica de Bibi Andersson e Liv Ullmann – uma de perfil, a outra encarando a câmera -, mas substituindo-as pela governanta interpretada por Rita Durão e... um peru.

Pobre Henry James.

23) Entre os longas selecionados para a Mostra Competitiva desta 74ª Berlinale, talvez o mais bonito de um ponto de vista puramente estético seja o franco-taiwanês Black Tea, dirigido por Abderrahmane Sissako a partir do roteiro que escreveu ao lado de Kessen Tall. Tomado por tons marcantes, o filme reflete esta tapeçaria multicolorida em sua narrativa igualmente multifacetada, criando uma experiência que pode ser difusa (e se fragilizar com isso), mas que é também difícil de esquecer.

Abrindo a projeção em uma cerimônia de casamento coletiva durante a qual os noivos são questionados rapidamente quanto à sua intenção de seguir adiante com o matrimônio para que a fila siga célere, Sissako logo chama a atenção do espectador para a rigidez de um casal na primeira fila, que parece pouco à vontade – e quando o homem mata com um gesto violento uma formiga que subia em sua calça, o olhar de sua companheira já denuncia uma frieza pouco promissora para o início de um compromisso tão sério. Assim, quando Aya (Nina Melo) diz “não” à tradicional pergunta que na maioria das vezes é mera formalidade, todos ao redor se espantam; já o filme encara aquilo como inevitável e imediatamente salta no tempo para revelar a protagonista agora morando em Cantão (Guangzhou), na China, trabalhando em uma pequena loja de chás e desenvolvendo uma relação com seu chefe, Cal (Han Chang), que já cruzou a fronteira do profissional para o pessoal sem que se dessem conta disso.

Uma das belezas da obra, contudo, é seu interesse em expandir seu olhar além da protagonista, dedicando tempo a personagens secundários ou mesmo a quase figurantes (como um alfaiate cujo trabalho acompanhamos pontualmente): assim, o policial que atua na área comercial na qual a maior parte do longa se passa tem a chance de explicar por que gosta de cortar o cabelo várias vezes por semana; uma senhora que busca um marido para a filha expõe suas preocupações; um casal que vive diante do apartamento de Aya tem sua rotina analisada; e uma ex-funcionária de Cal, cuja história poderia render seu próprio filme, ocupa a narrativa por alguns minutos. De modo geral, os dramas que compõem Black Tea têm pequena escala, não sendo menos importantes por isso; talvez o fato de o filho de Cal ficar magoado por este não compartilhar questões pessoais não seja um conflito grandioso, mas para aquelas pessoas é importante o bastante para causar angústia.

Contando com uma direção de arte belíssima de Véronique Sacrez, que concebe a loja de chá como um lugar elegante e aconchegante, e com figurinos (de Annie Melza Tiburce) que rapidamente estabelecem a personalidade forte de Aya através de seus designs com padrões marcantes e cores fortes, o longa tem estes seus aspectos ainda mais valorizados pela fotografia de Aymerick Pilarski, que investe numa paleta saturada e vibrante sem sacrificar a melancolia que frequentemente toma conta do subtexto da narrativa. Além disso, Pilarski reconhece a magnitude das locações que tem a chance de explorar, como a maravilhosa plantação de chá, que transforma cada colina em uma pequena obra de arte, e o vilarejo localizado entre as montanhas de Cabo Verde.

É uma pena que, apesar de todas estas virtudes, Black Tea se prejudique ao não perceber como sua história central é construída sobre uma base problemática: depois de nos apresentar à força da protagonista (que Nina Melo incorpora com carisma), o filme espera que torçamos por seu romance com Cal apesar de logo ficar claro como este não apenas foi um marido verbalmente agressivo como teve uma filha fora do casamento, abandonando-a por duas décadas (e que ele sinta remorsos por isso não é o bastante para redimi-lo). Como se não bastasse, o sujeito não tem sequer a decência básica de confrontar o racismo do ex-sogro mesmo sabendo que Aya pode ouvir os absurdos ditos por este – e a passividade de Aya diante de tudo isso acaba por torná-la mais frágil como personagem.

Ainda assim, é um prazer apenas olhar para a tela enquanto esta obra é exibida.

24) Ambientado em 1800, Gloria! é, em primeiro lugar, o reconhecimento trágico de uma multitude de talentos ignorados pela História depois de sufocados por instituições que só eram capazes de reconhecer e estimular pessoas cujos dons viessem acompanhados por um pênis – o que não era o caso, obviamente, das órfãs abrigadas pelo instituto católico Santo Inácio e que, treinadas musicalmente desde a infância, compõem uma orquestra limitada às missas dominicais do vilarejo próximo a Veneza no qual residem. Porém, ainda mais precária é a situação da jovem Teresa (Galatéa Bellugi), que, chamada de “Muda” e maltratada até pelas demais garotas, passa os dias realizando tarefas árduas sem que ninguém conheça seu amor e talento pela música.

Estas suas características são reveladas ao público logo na sequência pré-créditos, que, obviamente inspirada no clássico Ama-Me Esta Noite (1932), de Rouben Mamoulian, vê o cotidiano ao redor de Teresa se transformando em uma sinfonia através da harmonização dos ruídos que escuta, desde uma vassoura raspando no chão até o gemido de dor de uma freira ao espetar o dedo enquanto costura. Esta abordagem subjetiva da sensibilidade da protagonista é, diga-se de passagem, o que Gloria! tem de melhor – e observar a câmera se tornando fluida e flutuando no ambiente quando a moça começa a tocar um instrumento é testemunhar sua paixão pela música se manifestando e ganhando vida.

O instrumento em questão, vale apontar, não é qualquer um, mas um pianoforte doado pela filha de um músico falecido que admirava o talento das internas do Santo Inácio. Infelizmente, para as freiras que administram o instituto, o pianoforte é uma afronta em função da força do som que produz e, assim, passam a exigir que o padre Perlina (Paolo Rossi), maestro da orquestra, venda o presente para equilibrar as contas – e isto em um momento no qual o sujeito já se encontra pressionado para compor uma obra nova a fim de apresentá-la ao novo Papa, que os visitará em algumas semanas (como se não fosse o bastante, Perlina também tem presenteado um jovem músico, aparentemente um ex-amante, com grandes quantias). Mas se a ansiedade crescente do sujeito rende alguns bons momentos de humor (especialmente graças à performance de Rossi), estes não são suficientes para que ignoremos seu caráter repugnante e suas ações reprováveis).

Escrito por Anita Rivaroli ao lado da diretora Margherita Vicario, o roteiro – talvez temendo que sua premissa não fosse suficiente para carregar a narrativa – investe em mais subtramas do que o ideal, incluindo (além daquelas já mencionadas envolvendo Perlina) um romance trágico e um ato de violência sexual abafado por homens poderosos. Com isso, a necessidade de amarrar todas as pontas acaba por comprometer o filme em seus minutos finais, que são ainda mais prejudicados pelo esforço pouco orgânico para enviar o espectador para fora do cinema com uma sensação de que tudo parece ter dado certo ao final, mesmo que estas resoluções sejam implausíveis e traiam a seriedade do tema central (e a decisão de usar uma carta para preencher as lacunas é clichê e mal executada).

Memorável em sua energia quando está inspirado e focado no caminho que determinou em seus minutos iniciais, Gloria! acaba desapontando, mas apenas porque primeiro se apresentou como uma ótima promessa.

25) Todos os três documentários dirigidos por Martin Scorsese sobre sua paixão pelo Cinema e/ou por aqueles que o realizam (Uma Jornada Pessoal pelo Cinema Americano, Minha Viagem à Itália e Uma Carta para Elia) dividem características importantes: são profundos em suas análises (técnicas e temáticas), impecáveis na seleção dos trechos dos longas originais exibidos ao longo das dissertações do cineasta e contagiantes graças à forma como este se expressa. Pois ainda que Made in England: The Films of Powell and Pressburger tenha sido dirigido por David Hinton, é impossível deixar de enxergar a assinatura de Scorsese em cada escolha, refletindo seus papeis como produtor executivo, co-roteirista e narrador/apresentador da obra.

Admirador de Michael Powell desde a infância, o diretor viria a conhecê-lo pessoalmente depois de lançar Caminhos Perigosos, tornando-se seu correspondente em uma época na qual a troca de cartas ainda era uma forma importante de comunicação (com o bônus de servir como registro histórico) – e mais tarde, a amizade entre os dois autores levaria a uma ligação ainda mais essencial para Powell, que viria a conhecer e a se casar com Thelma Schoonmaker, montadora quase tão essencial às obras de Scorsese quanto o próprio.

Resumindo de forma didática a trajetória de Powell e Pressburger até se conhecerem e formarem uma das parcerias mais importantes da História da Sétima Arte, Made in England busca analisar o que tornava a dinâmica entre os dois artistas tão produtiva e como suas experiências pessoais moldaram suas sensibilidades artísticas, discutindo também como cada obra refletia as preocupações da dupla enquanto eram concebidas e como suas opções estéticas contribuíam para que seus objetivos fossem alcançados.

Com isso, o documentário serve tanto para apresentar a dupla para quem ainda não é familiarizado com clássicos como Os Sapatinhos Vermelhos, Contos de Hoffmann, Narciso Negro e Coronel Blimp quanto para lembrar aqueles que já a amavam de todas as razões que a tornaram tão especial.

23 de Fevereiro de 2024

Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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