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Festival de Berlim 2024 - Dia #08 Festivais e Mostras

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Dia 08

26) Exausto, com os olhos fundos e aparência deprimida, o astronauta checo Jakub Prochazka se encontra há oito meses em uma missão solitária rumo a Vênus para investigar a composição da misteriosa nuvem de partículas Chopra, que algum tempo antes passou a ser vista da Terra. Motivo de orgulho para a República Checa, que transformou a expedição em uma fonte de renda ao transformá-lo em garoto-propaganda, Jakub só consegue lidar com a solidão graças às mensagens recebidas da esposa Lenk, que se encontra grávida – e quando estas param de chegar, seu estado emocional se deteriora até que ele se vê diante de uma aranha alienígena gigante cuja presença em sua nave só é menos estranha do que sua curiosidade pelas memórias do protagonista.

Ah, sim: por algum motivo, o personagem checo é vivido por Adam Sandler.

Humorista medíocre que construiu uma persona cômica baseada em um temperamento volátil justaposto a modos frequentemente infantis, Sandler se revelou um ator dramático surpreendentemente competente em filmes como Embriagado de Amor e Joias Brutas; sua escalação em O Astronauta sendo estranha não pela natureza sombria do projeto, mas pela nacionalidade da figura que interpreta e que acaba soando mais como distração do que como bem-vinda subversão de expectativas (e o mesmo se aplica aos demais integrantes do elenco). Há, claro, o fato de o roteiro de Colby Day ser uma adaptação do livro de Jaroslav Kalfar, mas isto não anula os problemas da versão cinematográfica – ao contrário: torna-os mais evidentes por se sobreporem à história em si.

Estreia na direção de longas do sueco Johan Renck, que construiu uma carreira sólida na televisão (comandando, inclusive, três episódios de Breaking Bad: Breakage, Más e Hermanos), O Astronauta nada exibe do vigor daqueles trabalhos, substituindo-o pela tentativa de criar uma narrativa cuja melancolia é expressada constantemente pela falta de energia de todos os envolvidos, que se comunicam sempre com voz baixa e fala arrastada – o que, por sua vez, deixa de ser significativo quando as palavras partem de Jakub, já que em vez de se tornarem reflexo de sua tristeza passam apenas a fazer parte do padrão geral do filme. Na realidade, este tom só funciona na composição de Paul Dano, que empresta a voz a Hanus (a aranha alienígena) com uma abordagem claramente inspirada na performance de Douglas Rain como o HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Por outro lado, a direção de arte de Jan Houllevigue é hábil ao criar um espaço claustrofóbico cuja verossimilhança é acentuada pela aparência datada e desgastada de equipamentos montados às pressas para que a nave pudesse ser a primeira a chegar à nuvem Chopra, o que inclui o “sanitário” barulhento que tanto atormenta o astronauta. Já a estrutura do roteiro, que envolve saltar do protagonista para seus colegas e sua esposa na Terra, permite que a narrativa respire, o que neste caso traz vantagens (como expandir a ação e nossa compreensão sobre a situação), mas às custas da atmosfera opressiva que poderia ser fortalecida caso permanecêssemos com Jakub mais tempo.

Dito isso, não creio que a companhia contínua do sujeito fosse ajudar muito o longa, já que Sandler, em sua tentativa de evocar a angústia e a ansiedade do personagem, carrega na composição a ponto de torná-la desagradável e cansativa. Em contrapartida, ele ao menos tem a chance de criar um personagem, já que o restante do elenco fica preso a figuras unidimensionais que pouco têm a acrescentar além de suas funções básicas (Peter acalma Jakub, Lenka o rejeita e a chefe da agência interpretada por Isabella Rossellini o manipula). Já Hanus é basicamente um psicólogo com vários olhos e pernas, convertendo a missão do checo na terapia mais cara da História.

Porque em sua raiz O Astronauta é um filme sobre um homem que precisa viajar milhões de quilômetros através do espaço para descobrir como sua frieza e seu distanciamento causavam sofrimento à esposa – um comportamento cuja origem é insuficientemente investigada pelos flashbacks/memórias esparsos sobre seu pai. Aliás, a abordagem visual do diretor de fotografia Jakob Ihre para estas passagens, adotando o soft focus e criando distorções na laterais, serve apenas para torná-las desagradáveis, o que é um equívoco se considerarmos que as imagens de Lenka deveriam representar também uma visão idealizada que desperta saudades em Jakub.

Com um desfecho vazio que tenta soar transcendental, O Astronauta é uma experiência tão exaustiva para o espectador quanto a viagem que retrata é para o protagonista.

27) Um dos elementos que transformam o Cinema em uma “máquina de gerar empatia” (como dizia Roger Ebert) é sua capacidade de mergulhar o espectador em outras culturas, de permitir que enxerguemos o mundo a partir do olhar do Outro – e, no processo, de nos fazer entender que por mais diferentes que sejamos, há uma universalidade na experiência humana que deveria nos aproximar.

Um belo exemplo disso pode ser observado em Shambhala, produção nepalesa dirigida por Min Bahadur Bham a partir de um roteiro escrito por este ao lado de Abinash Bikram Shah: ambientado no alto dos Himalaias, o filme gira em torno de Pema (Thinley Lhamo), uma jovem que, seguindo a tradição da poliandria adotada em sua região, se casa com três irmãos. Um deles – e o amado da protagonista – é Karma (Sonam Topden), que pouco tempo depois da cerimônia parte em uma viagem de meses para efetuar trocas de itens importantes com outros vilarejos, deixando a esposa a cargo do irmão caçula (e terceiro marido da moça), Dawa (Karma Wangyal Gurung). Durante a ausência do companheiro, Pema enfrenta a rebeldia do garoto pré-adolescente, que se recusa a estudar, o que a leva a convidar seu professor para jantar a fim de discutirem como lidar com a questão – e quando ela descobre estar grávida, boatos começam a se espalhar sobre a identidade do pai. Para piorar, Karma não retorna de sua viagem, levando a jovem a decidir partir à sua procura, sendo acompanhada na jornada por seu segundo marido, o monge Tashi (Tenzing Dalha).

Se a princípio Shambhala intriga graças aos costumes locais, logo nosso interesse se desloca para o dilema de sua forte protagonista e o contraste entre sua dinâmica com Karma e Tashi: se aquele se mostra gentil e carinhoso (até aparentemente abandoná-la sem aviso), este forja uma relação bem mais combativa com a cunhada/esposa, já que ressente o fato de ter que abandonar o monastério e seu mentor espiritual para buscar o irmão, sendo claro que o arco principal da narrativa se estabelecerá em torno da aproximação gradual do casal.

E “gradual” é a palavra-chave aqui: desenvolvido seguindo uma lógica contemplativa que não se apressa e nem tenta pontuar a narrativa com incidentes marcantes, o diretor permite que a extensão da jornada e as dificuldades envolvidas se convertam no centro do longa, empregando as impressionantes locações de forma eficaz para ilustrar o processo. Neste sentido, a fotografia de Aziz Zhambakiev é instrumental ao registrar a imponência da geografia dos Himalaias e sua beleza sem jamais tratá-la como mero cartão postal, encarregando-se de expor o perigo e a hostilidade que representa. Enquanto isso, Lhamo e Dalha evocam com delicadeza a volatilidade – mas também a compreensão mútua – entre Pema e Tashi, o que envolve não apenas conflito, mas humor.

Porém, a mesma estratégia narrativa que permite ao filme desenvolver com calma os personagens acaba por se tornar um problema ao resultar em um ritmo que nem sempre a beneficia e, com isso, nem sempre o longa consegue justificar seus 150 minutos de duração por mais que aquele universo desperte fascínio no público. O resultado é uma obra que nos conduz em uma visita memorável, mas que dificilmente teremos o impulso de repetir.

28) “Bom dia! Dormiu bem?”: é assim que a agente penitenciária Eva cumprimenta os prisioneiros de seu pavilhão todas as manhãs ao abrir suas celas. Responsável por uma área de segurança mínima, ela leva a sério o conceito de ressocialização, indo além de seus deveres ao comandar aulas de yoga e ao ajudar aqueles que se mostram dispostos a estudar. Certo dia, porém, ela acompanha a chegada de um jovem transferido de outro presídio e pede ao seu superior para ser transferida para a ala de segurança máxima na qual o rapaz se encontra, passando a impor a este todo tipo de indignidade imaginável, desde pequenos inconvenientes (como impedi-lo de fumar) até agressões que o levam à enfermaria.

Se o título dinamarquês original, Vogter, se refere à profissão da protagonista, a versão em inglês é mais explícita sobre sua mudança de comportamento: Filhos. Não que o próprio filme faça questão de transformar as motivações de Eva em um mistério; logo ao iniciar suas atividades na nova ala, seu superior (vivido pelo ótimo Dar Salim) resume a ficha do recém-chegado, Mikkel (Sebastian Bull), explicando como o sujeito havia assassinado outro jovem com dezenas de facadas na prisão anterior – e a reação da mulher ao ver as fotos da vítima não deixa dúvidas sobre a origem de seu ódio. Aliás, a performance de Sidse Babett Knudsen, uma atriz que jamais deixa de ser interessante, é composta mais por seus silêncios do que por seus diálogos, que em boa parte do tempo expressam sua incerteza sobre o que está fazendo e como a maioria de suas ações é improvisada (com exceção de uma, cujas repercussões guiam a segunda metade do longa).

Apresentando-se como um conto de moralidade não apenas por tentar enxergar todos os aspectos das atitudes de Eva, mas também por levar o público a se questionar quanto às reações que sente ao testemunhar o que ocorre na tela, Vogter sabe que, apesar de sua natureza violenta, Mikkel se encontra naquelas circunstâncias em total estado de vulnerabilidade, o que confere covardia (além das falhas éticas e morais) aos atos da protagonista. Neste aspecto, a composição de Sebastian Bull é precisa, já que não tenta suavizar o rapaz, que exala perigo, mas encontra espaço para sua imaturidade e para certa limitação cognitiva ao denotar sua dificuldade em processar o que está vivenciando, o que o leva a reações impulsivas que o complicam ainda mais.

Sem conseguir encontrar uma resolução satisfatória para a narrativa – possivelmente por não haver uma possível -, o diretor sueco Gustav Möller repete o equívoco que cometeu em Culpa, de 2018, ao tentar emendar um desfecho arbitrário e simplista depois de realizar um trabalho competente no restante do filme, enfraquecendo-o em retrospecto ao deixar claro como este não chega a lugar algum.

25 de Fevereiro de 2024

Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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