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Festival de Cannes 2023 - Dia #07 Festivais e Mostras

Dia 07

24) Um dos filmes mais lindos do ano concentra boa parte de seu tempo de projeção no ato de cozinhar: da preparação dos ingredientes à sua evolução através da combinação quase alquímica entre estes, O Sabor da Vida mantém o espectador hipnotizado em cada gesto das pessoas que estão produzindo pratos salgados, sobremesas, petiscos e iguarias que desafiam uma definição imediata – e os 40 minutos iniciais da obra são praticamente silenciosos, contendo no máximo comentários sobre a atividade na tela.

Dirigido e roteirizado pelo vietnamita Anh Hung Tran a partir do livro de Marcel Rouff, o filme nos apresenta ao chef Dodin Bouffant (Benoît Magimel), cujo renome o transforma em uma autoridade da gastronomia da França no final do século 19 e que tem, como braços direito e esquerdo, sua assistente Eugénie (Juliette Binoche) – que ele não hesita em reconhecer como uma cozinheira igualmente hábil. Aos poucos, percebemos que aquela relação tão eficiente e capaz de produzir tantas belezas vai além da profissional, envolvendo um romance bastante pragmático e que jamais é oficializado em matrimônio graças à resistência da mulher.

E basicamente é isso. Sim, há conflitos, obstáculos e perdas, mas em sua essência O Sabor da Vida é sobre aquele casal e o amor que compartilham pela gastronomia e por como esta estimula os sentidos, encontrando sensualidade nas cores, texturas e aromas de cada prato – e em certo momento Tran faz um corte inspiradíssimo de uma pera que faz parte de uma sobremesa para o corpo de Eugénie em sua cama, comparando as curvas e a beleza de ambas (e não como objetificação, mas como forma de estabelecer como ambas transcendem suas formas e se tornam algo maior).

Praticando uma autêntica democratização culinária, Bouffant insiste para que suas assistentes – da principal à aprendiz – consumam os mesmos pratos que os convidados para os quais os produziram, exibindo também um prazer imenso no processo de educar o paladar de uma jovem cujo amor e dom para a gastronomia ele e Eugénie reconhecem e nutrem. Por outro lado, o olhar caloroso e o sorriso de prazer do chef são imediatamente substituídos por desdém e mesmo raiva quando voltado para o trabalho medíocre de alguém que se aventura pela profissão – e ele é capaz de analisar os temas, a melodia e a narrativa de um menu com a mesma precisão com que um crítico literário estudaria um texto.

Enriquecido pela química perfeita entre Magimel e Binoche (que formaram um casal no passado, diga-se de passagem), O Sabor da Vida cria uma narrativa gentil como aquelas pessoas e que extrai sensualidade dos momentos mais inesperados (ao menos, para quem não é foodie, caso este seja o termo): quando Bouffant pergunta a Eugénie se pode vê-la comendo o que preparou para ela, a reação do espectador é de emoção, não de rir do que acabou de ouvir – o que comprova como Tran forja uma identificação poderosa com o que testemunhamos.

Longe de ser apenas food porn (embora não possa evitar sê-lo até certo ponto), este é um longa de sensações e, principalmente, de paixões profundas – e representa uma refeição cinéfila que espero repetir várias vezes no futuro.

25) É difícil compreender exatamente o que a diretora Catherine Breillat pensa estar fazendo em Last Summer (Culpa e Desejo), longa que roteirizou com a colaboração de Pascal Bonitzer – ou melhor: difícil mesmo é entender por que ela deseja fazê-lo. Equivocado ao buscar drama numa situação de horror e sensualidade no que é essencialmente abuso, o filme não consegue sequer criar motivações plausíveis para que sua protagonista tome metade das decisões vistas ao longo da narrativa, contando com a benevolência do público para preencher as imensas lacunas que sua história vai criando.

Estas decisões – e perdoem-me por não tê-las explicitado primeiro; a frustração me dominou – dizem respeito ao seu envolvimento sexual com o próprio enteado, filho adolescente de seu marido. Depois de uma vida atraída por homens mais velhos, Anne (Léa Drucker) cede, em certo verão, à tentação representada pela juventude e energia do rapaz, entregando-se a um caso composto por encontros repletos de desejo seguidos por culpa e declarações sobre como aquela “foi a última vez”. No entanto, se para ela, já experiente e dona das próprias decisões, aquela situação tem limites bem definidos (ainda que ela os cruze), para o jovem a intensidade e o prazer logo se transformam em amor (ou algo que ele percebe como amor, mesmo que seja uma paixão juvenil). Sem maturidade para compreender as variáveis e a seriedade de tudo, ele enxerga apenas a possibilidade de uma vida ao lado daquela mulher, criando situações inconvenientes que conduzem a dinâmica ao limite.

Claro que a definição de “inconveniente” diz exclusivamente respeito à maneira como Anne percebe a situação – e diante da potencial exposição e do embaraço, sua postura é não só irresponsável, como covarde e cruel. Em suma: uma série de abusos psicológicos e emocionais sobre aqueles sexuais.

Dito isso, é fundamental esclarecer que minha frustração com relação ao que Last Summer retrata não é de natureza moral; é perfeitamente possível apreciarmos uma narrativa quando discordamos de todas as posições dos personagens que retrata. Não, o que de fato incomoda neste longa é a covardia do próprio filme, que frequentemente demonstra indefinição com relação à situação que apresenta, revelando-se até benevolente com sua protagonista, como se evitasse enxergar a própria criação.

De modo geral, abusos cometidos por mulheres maduras contra rapazes muito jovens são vistos como algo trivial ou mesmo como algo positivo – “quem me dera ter sido “abusado” por uma mulher daquelas quando era adolescente”, diriam muitos homens salientando as aspas em torno de “abusado”. Isto, é evidente, é mais um sintoma do machismo sistemático que domina nossas relações – e, infelizmente, a impressão é a de que Last Summer não parece compreender a seriedade do que retrata, embora funcione ocasionalmente como thriller.

E o que retrata é uma violência colossal cometida por uma pessoa que não merecia a generosidade que o a narrativa lhe oferece.

26) Pior do que iniciar uma guerra e invadir um país sob falsas premissas é trair sua população com falsas promessas. Depois de remover o Talibã do controle do Afeganistão – uma das poucas consequências positivas da ação dos Estados Unidos na região depois que George W. Bush aproveitou os ataques de 11 de Setembro para expandir a dominância norte-americana em uma das áreas mais ricas em petróleo do mundo –, a ideia era a de que ao longo do tempo o país receberia recursos para poder se reerguer e se tornar capaz de manter a própria democracia em vigor sem a necessidade de constante presença estrangeira em seu solo. Porém, depois de duas décadas mantendo tropas na área enquanto era criticado internamente pela estratégia, o governo norte-americano, então sob a gestão de Joe Biden (comprovando como Democratas e Republicanos pouco diferem em sua irresponsabilidade e desumanidade), anunciou a saída de seus soldados do Afeganistão. Em questão de horas, o Talibã iniciou o processo de retomar violentamente o controle sobre o país, provocando um pânico que resultou em imagens chocantes como aquelas que mostram pessoas penduradas em um avião (e despencando para a morte) enquanto tentavam escapar dos fundamentalistas.

Que, como todos os extremistas religiosos, não demoraram a implementar medidas que reduzissem todos os direitos fundamentais que a população feminina pudesse ter conquistado ao longo do tempo.

Construído essencialmente a partir de registros feitos com câmeras amadoras, Bread and Roses retrata o horror imediato à derrubada do governo afegão pelos talibãs e a reação às proibições de que as mulheres exercessem suas profissões fora de casa, caminhassem na rua desacompanhadas ou sem os hijabs. Focando especialmente em três personagens (a dentista Zahra Mohammadi, a ativista Taranom Seyedi e a ex-funcionária pública Sharifa Movahidzadeh), o filme ilustra a resistência imediata de parte da população feminina àquelas decisões, que incluíam a determinação de que as escolas se tornassem espaços vedados ás meninas, impedindo-as de adquirir uma educação formal e empurrando-as, assim, à mera condição de futuras esposas.

Funcionando como uma espécie de vídeo-diários em diversos momentos, o longa nos aproxima em particular de Zahra, que não apenas segue atendendo em seu consultório (embora removendo seu nome da entrada) como usando o lugar para reuniões com outras mulheres enquanto organizam protestos e ações, demonstrando uma valentia notável. Só é uma pena que a montagem por vezes enfraqueça o foco ao priorizar certos vídeos, embora seja compreensível o impulso de não querer descartar qualquer material rodado sob tanto risco.

Dirigido por Sahra Mani e produzido por Jennifer Lawrence, Bread and Roses é um filme imperfeito, mas um registro impecável de um pesadelo que jamais deveria ser possível em pleno século 21.

23 de Maio de 2023

Sobre o autor:

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.
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