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OZ: MÁGICO E PODEROSO Vestindo o Filme

Aviso: este texto contém revelações de detalhes da trama do filme.

Dirigido por Sam Raimi, Oz: Mágico e Poderoso (2013) funciona como um prólogo ao clássico O Mágico de Oz, de 1939. Explorando livremente o universo criado pelo autor L. Frank Braum, o filme conta como o mágico Oscar (James Franco) chegou à Cidade das Esmeraldas, capital do reino de Oz, bem como os acontecimentos posteriores à sua chegada.

O figurino, criado por Gary Jones em parceria com o ilustrador Michael Kutsche (responsável pelas ilustrações deste texto), é contido, mas esteticamente agradável. Sua proposta parece ter sido fazer um conjunto de roupas realistas, mesmo se tratando de um filme de fantasia.

O começo da história se passa no Kansas, onde Oscar trabalha como mágico em um circo itinerante. As cenas são em preto e branco, criando rima visual com o começo de O Mágico de Oz (cujo começo é em sépia). Oscar veste uma calça de cintura alta em risca de giz, com suspensórios, camisa branca, gravata, colete com abotoamento duplo e um fraque rasgado. Com exceção da jaqueta longa e do turbante, que utiliza em palco, essa será sua única roupa ao longo de todo o filme, acompanhada de uma cartola.

Após sua apresentação, ele se encontra com uma moça (interpretada por Michelle Williams), que aparenta ser uma antiga namorada. Ela usa um vestido simples de algodão xadrez, com decote quadrado, laço na cintura e babados na barra. Oscar comenta (em tradução livre):  “Você está linda! O que é isso? Xadrez?” E ela responde: “Você sabe que é”. Trata-se de uma clara referência ao famoso vestido que Dorothy veste em 1939.

Ao chegar ao reino de Oz, Oscar é encontrado por Theodora (Mila Kunis), a bruxa do Oeste. A personagem utiliza três roupas diferentes ao longo da trama. No começo, ainda simpática ao protagonista, seus trajes consistem em uma calça justa confeccionada em couro, com camisa branca trespassada e detalhes em renda e uma jaqueta longa de veludo vermelho, com lapelas amplas. Os acessórios são um chapéu de abas largas no mesmo veludo e botas pretas de cano alto. O traje remete aos vestidos de montaria da transição entre o século 19 para o século 20 e é o mais interessante da película. Embora Theodora não se apresente inicialmente como vilã, essa vestimenta já deixa isso subentendido, através de suas cores fortes e escuras e corte moderno.

 

Posteriormente, ela aparece com um vestido branco com saia rodada, estampada com desenhos geométricos cinzas e um corpete com acabamentos na mesma cor, acompanhado de uma capa vermelha. Na cena em que ocorre sua transformação em bruxa má, Theodora, em dor, arranca a parte superior do vestido, revelando que por baixo utilizava um espartilho preto: uma maneira não muito sutil de mostrar sua natureza interior. Após a transformação, ela passará a utilizar o icônico chapéu preto pontudo, o espartilho preto, mangas em couro, ombros adornados com garras e uma saia composta por tiras de tecido rasgado, mais longas atrás, sobre calças pretas feita com tecido texturizado e botas.

 

A irmã de Theodora, Evanora (Rachel Weisz), a bruxa do Leste, se apresenta com um lindo vestido verde esmeralda ajustado ao corpo, mas com tecido fluido, mangas em renda e detalhes em plumas negras nos ombros e nuca. Todo o conjunto é bordado de cristais e acompanhado por um colar com uma grande esmeralda. Evanora deixa claro que a Cidade das Esmeraldas é seu lugar. No terceiro ato da história, ela aparece com um vestido de corte idêntico, mas em tecido preto, deixando patente que agora ocupa o papel de vilã.

 

Glinda (Michelle Wiliams), a bruxa boa do Sul, também aparece em três trajes diferentes, que mostram sua evolução na história. Todos eles são brancos e com detalhe em formato de "V" profundo na frente, criando uma silhueta alongada. O primeiro, tradicional e etéreo, utilizado quando conhece Oscar, possui mangas em tom dourado adornadas com renda.

 

O segundo vestido, que Glinda veste para enfrentar as duas outras bruxas, possui mangas prateadas e seu corpo tem aplicações de penas brancas em forma de pétalas, com as pontas tingidas de prateado. O efeito de escamas desse adorno combinado ao recorte em "V" nas costas, que deixa à mostra a amarração do espartilho rígido que utiliza por baixo, transmite a ideia de uma armadura. 

 

Seu último traje, é um vestido bordado com pérolas, com decote canoa e saia de tule em camadas, sobre forro rosa. Ela o utiliza quando a paz retorna a Oz, de maneira que não mais precisa se vestir como guerreira. Com o mesmo sentimento, a multidão de Munchkins, que a princípio portam vestimentas majoritariamente em cor azul acompanhadas de tons terrosos, quando lotam a praça central da cidade, banhados por uma luz dourada como que de anoitecer, vestem-se principalmente em tons de rosa, pontuados por amarelo.

 

Oscar, que partiu do Kansas com seu fraque rasgado, aparece ao longo da trama com seu conjunto cada vez mais danificado e puído. Enquanto não acreditava em suas próprias capacidades sua roupa se deteriorou. Ao final, quando assume o papel de Oz, veste a mesma roupa, agora magicamente nova e restaurada. Sua autoafirmação como o grande mágico profetizado restabeleceu o bom estado de suas vestes. A única peça diferente é o colete, desta vez em tecido verde escuro (da cor da cidade), com listras finas amarelas e abotoamento simples.

O figurino de Oz: Mágico e Poderoso é bastante literal e não abre espaço para muitas interpretações. Mocinha veste roupas brancas e fluídas, vilãs vestem roupas escuras e modernas, o verde sempre remete à Cidade das Esmeraldas. A jornada do protagonista é facilmente lida no estado do que veste. Gary Jones optou por não ousar e apostou no tradicionalismo. Apesar disso, acertou no tom da criação e os trajes são suficientemente marcantes e interessantes, especialmente os das duas irmãs.

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Sobre o autor:

É antropóloga e doutoranda em Antropologia Social pela USP, apaixonada por cinema e autora do blog Estante da Sala.

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