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As Mulheres nos filmes de Lars Von Trier Assinantes

[Introdução: este é o primeiro artigo publicado neste espaço que foi escrito por um assinante do site. Espero que vocês curtam e - mais importante - que enviem também os seus para que tornemos este espaço ainda mais ativo. - Pablo]
Muita gente, mas MUITA MESMO, considera Lars Von Trier um misógino, machista, insano, uma fraude, um cara que odeia mulher e não sabe fazer cinema. Quanto a isso, eu concordo apenas com um item: insano. Insanidade é o que não falta na obra deste cineasta dinamarquês que, mesmo que como pessoa seja um cara quase que intratável, como artista ele é, sem dúvida, um dos grandes de sua geração.
Dono de uma filmografia até que curta, mas admirável (são 13 longas para cinema), Lars Von Trier consegue abalar as estruturas de seu espectador ao entregar obras física e mentalmente viscerais, que incomodam, que tiram as pessoas do lugar comum e da sensação de segurança. Seus filmes são invasivos, por vezes ofencivos, mas nunca exemplo de péssimo cinema. Ao contrário, ele está sempre buscando formas variadas de encenação e criação cinematográfica, colocando-se inclusive diante de desafios técnicos, como a eliminação de recursos tradicionais, por exemplo, no seu "Dogma 95" (movimento artístico que criou ao lado de Thomas Vinterberg), ou a transposição metafórica de sua terapia para tratamento de depressão que resultou em ANTICRISTO.
Mas como o assunto aqui é sobre as mulheres que protagonizam sua obra, vamos deixar a enrolação de lado e partir para o que realmente interessa.
A primeira coisa que tem que ter em mente em relação a obra de Lars é que ele NÃO ODEIA MULHER. Ao contrário. Ele as admira e respeita - graças a imagem misteriosa e hipnótica que tem de sua mãe. Por isso mesmo é que seus filmes colocam as mulheres em situações opressoras, limítrofes. Justamente para mostrar o quanto elas vêm sofrendo represálias morais e físicas por parte do mundo (regrado por um machismo nocivo e desenfreado). Suas personagens são mulheres solitárias que tentam se estabelecer na sociedade, tentam vencer na vida, tentam não se desvirtuar da bondade que (segundo a obra do cineasta) é inerente ao espírito feminino.
Para não me estender tanto (de novo. Vivo prometendo isso…), fiz uma lista das principais figuras femininas da obra do dinamarquês:
 
A primeira grande personagem a ser estudada é MEDEIA. Interpretada com absoluta entrega por Kirsten Olesen, a clássica criação de Eurípedes é a personificação da "paixão" da mulher ("paixão" no sentido de ser muito mais ligada a sentimentos do que razão). Ela, cega pela tristeza e indignação diante da traição do marido, mata os filhos como uma forma de feri-lo e fazê-lo experimentar a dor de ser apunhalado pelas costas. Lars Von Trier, neste filme, mostra o quanto o sentimento de mágoa pode se transformar em fúria, mas faz questão de destacar a dor com que Medeia realiza o infanticídio. Essa dualidade a torna tão fascinante, tão digna de pena e repreensão (dualidade esta estendida a nós mesmos) que fica difícil julgá-la. Mesmo que seja um ato imperdoável, não conseguimos ("nós" no sentido de espectadores mais sensíveis, porque tem uns moralistas por aí que vou te contar…) determinar Medeia como uma mulher fria. Justamente o oposto! Ela é extremamente quente por causa de sua paixão desenfreada!
 
A segunda grande mulher da obra "Von Trieriana" é Bess McNeill, interpretada por Emily Watson, em ONDAS DO DESTINO. Esta é uma das mais encantadoras e tristes personagens de toda a obra do cineasta. Intensificando seu modo quase selvagem de direção de atores, Lars Von Trier conseguiu extrair da já suficientemente talentosa Emily Watson a melhor interpretação de sua carreira. Bess é uma mulher de bom coração, devota a Deus e obediente diante da opressão de sua pequena comunidade. Mas ela sofre terrivelmente de uma instabilidade emocional por causa da morte de seu irmão. Ela conhece o amor através de Jan Nyman, um estrangeiro completamente desprovido da rigidez dos homens do vilarejo. Este filme é uma obra-prima do início ao fim e Bess conquista totalmente o coração do espectador através de seu jeito quase infantil e seu amor incondicional a Jan (os olhos de Emily Watson nunca estiveram tão expressivos!).
 
Em seguida temos Selma Jezkova, papel da cantora Bjork no musical DANÇANDO NO ESCURO. A prova que a rigidez de Von Trier dá resultado é este filme. Vencedor do prêmio de melhor atriz e da Palma de Ouro (o prêmio máximo) no Festival de Cannes, o filme é absolutamente sombrio e pessimista. Selma sofre de uma doença degenerativa nos olhos e descobre que seu filho também está condenado a perder a vista aos poucos. Determinada a pagar o caro tratamento de seu filho, a mulher trabalha duro e junta centavo por centavo para que seu filho não tenha o mesmo destino. Neste meio tempo, Selma consegue relaxar um pouco ao assistir, auxiliada por sua melhor amiga Kathy (a brilhante Catherine Deneuve), a musicais que a fazem escapar um pouco da dura realidade. Aos poucos, Selma se entrega a seus próprios musicais, imaginando um mundo muito mais brando ao seu redor. Bjork sofreu um esgotamento físico e psicológico tão grande durante as filmagens que um dia simplesmente fugiu sem deixar pistas de seu paradeiro, retornando graças a insistência de seus amigos. O resultado se vê na tela: uma mulher que é quase uma santa, tamanha a entrega e sacrifício por seu filho. EMOCIONANTE, DEVASTADOR e OBRIGATÓRIO!
 
 
Grace Margaret Mulligan vem em seguida para desestruturar tudo com seu jeito misterioso e de boa samaritana. Interpretada de maneira sensacional por Nicole Kidman em DOGVILLE e por Bryce Dallas Howard em MANDERLAY, Grace é a protagonista da ainda não finalizada "Trilogia da América", cujo terceiro filme, WASINTON (trocadilho de "Washington" e "Sin") ainda se encontra em desenvolvimento. Grace é a personificação das personagens citadas acima. Se ela possui a bondade e abnegação quase divina de Selma e Bess, ao mesmo tempo conseguimos ver certo ódio reprimido que remete diretamente a Medeia. Não posso revelar praticamente nada sobre a trama destes filmes, pois seria um estraga prazer.
 
Depois de enfrentar um fracasso de crítica (O GRANDE CHEFE) e uma onda devastadora de depressão, Lars Von Trier inicia sua parceira com Charlotte Gainsbourg em ANTICRISTO. Interpretado uma mulher sem nome que perde o filho enquanto fazia sexo com o marido (também sem nome), Gainsbourg mata a pau ao retratar"Ela" afundando na dor e passando a se auto-punir fisicamente por ser tão negligente. Muito mais simbólico, este filme apresenta a mulher como uma face emocional da alma/mente humana (o "id", talvez) em confronto direto com a razão (o "ego", o homem). Aqui é necessário dizer que os conceitos de "razão" para homem e "emoção" para mulher não querem dizer, em absoluto, que a razão seja melhor que a emoção. O ideal é sempre o equilíbrio entre os dois. Vou escrever futuramente sobre este filme em particular para dissecá-lo tematicamente (e isso vai levar uns trinta parágrafos). "Ela" é a Grace ainda mais selvagem e instável. Gainsbourg venceu o prêmio de atuação em Cannes, provando que os métodos exaustivos do cineasta trazem resultados avassaladores e artisticamente gratificantes.
 
Justine e Claire são as próximas da lista. Protagonistas de MELANCOLIA, estas irmãs precisam lidar com seus conflitos internos ao mesmo tempo que encaram a possibilidade do fim do mundo devido a colisão da Terra com um outro planeta muito maior. Esta ficção científica é muito interessante por fazer paralelo da tragédia de proporções bíblicas com os conflitos sociais, familiares e internos das personagens. Interpretadas de maneira inspirada por Kirsten Dunst (mais um prêmio de melhor atriz em Cannes) e Charlotte Gainsbourg, estas mulheres são fascinantes e imprevisíveis. Novamente a razão e emoção se digladiam nesta obra maravilhosa e metafórica.

 

 
Por último, temos a NINFOMANÍACA Joe. Na pele de Charlotte Gainsbourg (mulher maluca! Trabalhou com Von Trier de novo?!) e Stacy Martin, ela é mais um olhar racional, frio e analítico sobre a depressão do que todas as outras mulheres na filmografia inteira de Lars Von Trier. É interessante ver como esta personagem segue à margem das outras, como se olhasse de fora tudo o que as anteriores fizeram de bom e de ruim. Talvez isso tenha gerado certo banho de água fria nos espectadores que esperavam algo mais visceral (como o que foi visto em ANTICRISTO, por exemplo). Acho que a cena que exemplifica perfeitamente isso é aquela em que Joe observa de maneira distante, quase que com a curiosidade de alguém que observa um animal desconhecido, o desabafo triste e assustador de uma esposa diante da traição do marido (e feito com incrível força por Uma Thurman).
 


 

 
 
 
 
 
Além destas personagens incrivelmente poderosas, vemos inúmeras coadjuvantes que conseguem retratar a complexidade e mistérios da mulher como poucas no cinema. Mas eu vou parar por aqui porque este texto já se estendeu demais. Espero que tenham gostado.
 
Postagem originalmente publicada no blog BRAIN DAMAGES, onde escrevo com frequência.
 
;)

Sobre o autor:

Ator, dramaturgo e encenador teatral, além de futuro cineasta.

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