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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
03/12/2010 01/01/1970 5 / 5 5 / 5
Distribuidora

Abutres
Carancho

Dirigido por Pablo Trapero. Com: Ricardo Darín, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña, Gabriel Almirón.

Dono de uma filmografia curta, mas admirável, o cineasta argentino Pablo Trapero vem se especializando, em seus últimos projetos, em narrativas centradas em personagens moralmente ambíguos que praticamente desafiam o espectador a apreciá-los apesar de suas falhas óbvias de caráter. Além disso, através de seus fascinantes planos-seqüência (vide a introdução de Nascido e Criado ou o passeio pela penitenciária de Leonera), Trapero exibe um virtuosismo técnico que já leva o público a antecipar momentos de tirar o fôlego através da movimentação de sua câmera.

E em Abutres, o diretor não desaponta em nenhum destes aspectos: centrado no advogado Sosa (Darín, um dos melhores atores contemporâneos), o roteiro acompanha o cotidiano de um sujeito que vive da miséria alheia. Funcionário de um escritório especializado em indenizações por acidentes, ele é uma destas criaturas que correm atrás de ambulâncias para tentar transformar indivíduos que acabaram de se acidentar em clientes, possuindo até mesmo um rádio-comunicador em seu carro para que possa ouvir os chamados de emergência da cidade. Certa noite, em uma destas saídas, ele conhece a paramédica Luján (Gusman, esposa de Trapero e figura recorrente em sua filmografia), que tenta encontrar algum alívio diante de sua estressante profissão ao se dopar com anestésicos. Encantado pela moça, Sosa resolve mudar sua vida, mas passa a ser pressionado pelo chefe, já que, na realidade, o tal escritório é um centro de fraudes e de extorsão.

Com um olhar notável para os detalhes do universo de seus personagens, Trapero concebe várias seqüências que ilustram o cotidiano de Sosa e Luján com economia e verossimilhança, desde as conversas do primeiro com vários clientes em potencial até as dificuldades da segunda em convencer que um pronto-socorro aceite o paciente acidentado que ela acabou de socorrer. Da mesma maneira, o design de produção é impecável ao conceber o escritório triste, decadente e amontoado ocupado por Sosa e também ao ilustrar os espaços frios, opressivos e deixados sem cor pelas onipresentes lâmpadas fosforescentes do hospital no qual Luján atua.

E mais: ao optar por ilustrar de forma gráfica não só a violência, mas também a ação dos médicos em seu dia-a-dia, o cineasta expõe de maneira visceral a dor e o sofrimento daquelas pessoas, além de evocar com clareza o caos e a pressão que cercam a dupla central. Esta abordagem, porém, acaba sendo gradualmente substituída por um olhar mais doce e contemplativo a partir do instante em que Sosa e Luján encontram, um no outro, uma válvula de escape para todo aquele sofrimento, quando, então, Trapero passa a adotar planos mais fechados que refletem a proximidade física e emocional dos dois personagens.

Incluindo também os memoráveis planos-seqüência (ou mesmo planos simplesmente longos) que já se tornaram sua marca registrada, o diretor demonstra sua inteligência ao não empregá-los de forma gratuita, mas sim de maneira orgânica para criar tensão ou para surpreender – e merecem destaque aqueles que retratam uma colisão entre uma caminhonete e um carro e, claro, aquele que encerra a narrativa e que praticamente leva o espectador a um ataque cardíaco.

Beneficiado por duas atuações sensíveis e viscerais de Darín e Gusman, Abutres confirma a força do cinema de Pablo Trapero e sua posição inquestionável entre os melhores diretores da atualidade.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2010.

06 de Outubro de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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