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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
01/01/1970 01/01/1970 1 / 5 / 5
Distribuidora

Andrés Não Quer Dormir a Sesta
Andrés no quiere dormir la siesta

Dirigido por Daniel Bustamante. Com: Norma Aleandro, Conrado Valenzuela, Fabio Aste, Juan Manuel Tenuta, Marcelo Melingo, Celina Font, Ezequiel Diaz.

O que dizer de um filme que começa como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e termina como A Profecia? Se o diretor Daniel Bustamante tinha a intenção, com este projeto, de criar uma obra esquizofrênica e moralmente ambígua (para usar um eufemismo), conseguiu; mas se pretendia criar um conto de moralidade que usa a ditadura argentina como pano de fundo para ilustrar a perda da inocência de uma criança (e, não sei, isso me parece mais plausível), fracassou gloriosamente.

Se sugere um tom lúdico já em seus créditos iniciais por apresentá-los com pequenas bolhas de sabão, o cineasta, trabalhando a partir de seu próprio roteiro, dá prosseguimento à abordagem ao enfocar o universo do protagonista, o pequeno Andrés (Valenzuela), que passa os dias brincando com os amigos sem aparentemente sequer se dar conta de que o país vive sob uma ditadura e que sua mãe (Font), recém-separada de seu pai, parece estar se envolvendo com a revolução através de seu namorado Alfredo (Diaz). Quando ela morre num acidente, porém, Andrés e seu irmão adolescente vão viver com o pai (Aste) e a avó (Aleandro), tendo que se adaptar ao jeito mais bruto do sujeito.

Sem trazer jamais um pingo de sutileza à narrativa, o cineasta carrega no melodrama quase desde o princípio da projeção, abusando da trilha sonora chorosa e de caracterizações exageradas (ao limpar o armário da cunhada, que acabara de morrer, uma personagem diz: “Já peguei o que me interessava!”, sugerindo que todo o resto poderia ser queimado sem problema). Para piorar, em vários instantes, Bustamante parece não saber exatamente o que pretende dizer – ou, se sabe, demonstra incapacidade de fazê-lo: observem, por exemplo, a cena em que Andrés manifesta insatisfação com o café-da-manhã enquanto recebe olhares impacientes do pai e os mimos da avó, e notarão que o diretor e seu montador Rafael Menéndez trazem planos recorrentes que enfocam a reação do irmão do protagonista – mas se esta reação é de enfado, frustração, ciúmes ou preocupação é algo que jamais conseguimos decifrar.

Mas talvez o maior problema do filme diga respeito aos personagens que o povam – e não há uma única figura neste longa (com exceção da mãe dos garotos, que logo morre) que desperte nosso interesse e simpatia. De uma forma ou de outra, todos os integrantes da família aqui retratada são dissimulados, agressivos ou cruéis – e se uma bomba explodisse naquela casa, os espectadores provavelmente comemorariam. Sim, as intenções de Bustamante são claras: a trajetória de Andrés representa a perda da inocência (algo simbolizado também pela imagem recorrente de bolhas estourando), mas assim que o menino passa a se identificar com os militares, usando até mesmo o isqueiro (leia-se: a arma) que recebeu de presente de um torturador, o filme perde de vez o único elemento que nos prendia – ainda que fragilmente – à narrativa, afundando irremediavelmente em sua abordagem imbecil.

Observação: esta crítica foi originalmente publicada como parte da cobertura do Festival do Rio 2010.

05 de Outubro de 2010

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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