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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
18/03/2011 01/01/1970 4 / 5 / 5
Distribuidora

Jogo de Poder
Fair Game

Dirigido por Doug Liman. Com: Naomi Watts, Sean Penn, Michael Kelly, Noah Emmerich, David Andrews, Adam LeFevre, Ty Burrell, Jessica Hecht, Brooke Smith, Tom McCarthy, Liraz Charhi, Khaled Nabawy, Bruce McGill e Sam Shepard.

No clima de luto e paranóia instaurado nos Estados Unidos logo após o 11 de Setembro, questionar as atitudes do governo Bush era considerado algo antipatriótico por muitos e até mesmo um ato de traição por alguns outros – e era comum que os poucos que se arriscavam a criticar publicamente o presidente e seus asseclas fossem taxados de “comunistas” ou acusados de “não apoiar as tropas”. Com isso, criaturas mal intencionadas como Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Karl Rove ganharam a oportunidade de explorar o medo da população com objetivos próprios e bem mais obscuros – e o fato dos dois primeiros serem historicamente ligados a empresas que ganhariam centenas de milhões de dólares com as guerras que se seguiriam não se tratava de mera coincidência.

Pois foi neste contexto complicado que, certo dia, o diplomata Joseph Wilson assistiu inconformado ao discurso no qual George Bush declarava que Saddam Hussein havia obtido urânio para a construção de armas de destruição em massa – uma afirmação que levaria os Estados Unidos à guerra com o Iraque. Ora, Wilson sabia que a informação era inverídica, já que ele havia sido o responsável por investigá-la, e assim não hesitou em publicar um artigo no New York Times denunciando a mentira. A resposta do governo Bush? Uma campanha para desacreditá-lo junto à opinião pública que culminou na exposição da identidade de sua esposa, Valerie Plame, como espiã empregada pela CIA – o que na prática encerrou a carreira desta junto à agência e potencialmente custou a vida de vários de seus contatos de campo em países instáveis.

Pois é justamente esta alarmante passagem da história política recente dos Estados Unidos que o roteiro de Jez e John-Henry Butterworth busca retratar em Jogo de Poder, construindo uma narrativa que funciona simultaneamente como drama familiar, estudo de personagens e thriller de conspiração. Lidando com figuras reais (e poderosas), a produção se mostra tão confiante na força de seus argumentos e fatos apresentados, aliás, que se dá ao luxo até mesmo de usar os nomes reais dos envolvidos, de Scooty Libby (Andrews) a Karl Rove (LeFevre), passando por Cheney e Bush, que surgem em imagens de arquivos. Além disso, há a preocupação admirável até mesmo da aproximação física dos intérpretes, desde os já citados coadjuvantes Libby e Rove até chegarmos aos personagens principais vividos por Sean Penn e Naomi Watts.

Com a relação entre Wilson e Plame servindo de centro narrativo, o filme é hábil ao explorar as diferenças nas personalidades da dupla: vivida por Watts como uma mulher pragmática e discreta, Plame é cética e questionadora – dois atributos valiosíssimos em um profissional da área de Inteligência. Assim, ao ver-se diante do relatório repleto de falhas de um colega, ela imediatamente dispara uma série de perguntas que expõem os buracos do trabalho por ele desempenhado, mantendo esta postura direta e ética também ao lidar com seus informantes e contatos no exterior e ao se negar a expor seus ex-superiores mesmo depois de já ter sido abandonada pela CIA. Em contrapartida, Wilson é encarnado por Penn como um homem extremamente sério que não costuma ver com facilidade humor naquilo que o cerca – e, assim, mesmo entre amigos não resiste ao impulso de corrigir (até com certa grosseria) as barbaridades ditas em conversas casuais e que revelam o desconhecimento de seus interlocutores acerca do Islã e da política externa norte-americana. Com um olhar agudo sempre disparado por cima da armação de seus óculos, Wilson é dono de uma autoridade inquestionável – o que é fundamental para que o espectador tenha plena confiança em suas conclusões acerca do yellowcake (urânio concentrado, puro) supostamente vendido pelo governo de Níger a Hussein.

Estabelecendo uma dinâmica entre seus personagens que sugere a intimidade de anos de casamento, Penn e Watts (que já haviam contracenado em 21 Gramas, diga-se de passagem) trazem uma importante leveza ao casal em momentos como aquele no qual Wilson dá uma trombada proposital na esposa enquanto caminham por um corredor ou quando combinam detalhes do dia-a-dia relacionado aos filhos – e, assim, quando o casamento começa a implodir sob a pressão do escândalo promovido por seus inimigos, sentimos a importância do que está em jogo. Da mesma forma, o filme se esforça para retratar o desprezo que Wilson sente por Hussein, tornando ainda mais admirável seu apego aos fatos ao não permitir que este sentimento molde a realidade e ilustrando com competência por que as mentiras óbvias ditas por Bush, Cheney e companhia são tão enlouquecedoras para um homem intelectualmente íntegro.

Ciente de estar lidando com um material que, calcado nos diálogos, poderia facilmente se transformar numa experiência entediante, o cineasta Doug Liman (A Identidade Bourne, Sr. & Sra. Smith) mantém sua câmera sempre em movimento a fim de salientar a agilidade dos pensamentos e das discussões dos personagens, mas sem jamais recair no exagero. Além disso, o diretor é hábil ao estabelecer certas idéias de maneira econômica, como ao revelar o descaso do governo pelo relatório de Wilson ao mostrar os agentes comendo despreocupadamente enquanto o sujeito explica o que viu em sua viagem. Já em outros instantes, Liman consegue conferir tensão à narrativa ao nos manter presos ao ponto de vista dos personagens – como, por exemplo, na seqüência envolvendo um tiroteio e durante a qual acompanhamos tudo a partir do banco de trás do carro de um cientista.

Obviamente orgulhoso da veracidade dos fatos retratados no filme, Liman ainda emprega várias imagens de arquivo ao longo da narrativa, chegando a demonstrar coragem ao trazer, em certo momento-chave, a verdadeira Valerie Plame prestando depoimento. Enquanto isso, sua fotografia (sim, feita pelo próprio diretor) estabelece um contraste revelador entre a frieza dos ambientes de Washington e, por exemplo, o calor sufocante (ressaltado pela superexposição da imagem) das seqüências em Níger. Da mesma maneira, o design de produção merece elogios pelo trabalho cuidadoso de recriação dos ambientes e pela atenção aos detalhes, como, por exemplo, ao trazer um escritório cujas paredes revelam as marcas de quadros e estantes removidos e que expõem, assim, a natureza improvisada com que foram realocados para servir de palco para as entrevistas ameaçadoras feitas por Scooter Libby com os funcionários da CIA.

Pois não há como negar que os grandes vilões de Jogo de Poder não se encontram no Afeganistão ou no Iraque, mas na Casa Branca: determinada a invadir o Iraque a qualquer custo, a cúpula do governo Bush (especialmente Cheney) busca na CIA não os fatos que apontem na direção a ser tomada, mas sim qualquer indício que sirva de sustentação à história que já decidiram vender à opinião pública e que trará Saddam Hussein como uma ameaça imediata aos Estados Unidos. Assim, quando percebe que nenhum analista de Inteligência ético irá colaborar com as teorias pré-fabricadas pelo governo, Libby não hesita em cooptar justamente o autor de um relatório sabidamente falho como base de sua denúncia, forçando politicamente uma guerra que não tinha sustentação factual ou moral para ocorrer – e é revoltante acompanhar os discursos de Bush e Cheney nos quais citavam certos tubos (já descartados como evidência pela CIA) para afirmarem as intenções malignas de Saddam Hussein.

O componente político, porém, jamais funcionaria sem o apoio da mídia – e Jogo de Poder não ignora este aspecto, ilustrando como a manipulação da opinião pública através de emissoras de extrema direita como a Fox acabam influenciando diretamente a população (e são vários os momentos nos quais vemos figurantes acompanhando atentamente os âncoras da emissora de Rupert Murdoch ou repetindo sem qualquer filtro crítico as afirmações feitas por estes). Assim, quando estes mesmos veículos passam a ser utilizados na guerra de informações que visa destruir o casal Wilson-Plame, já conhecemos sua capacidade destrutiva e tememos – justificadamente – por eles.

Aliás, não só por eles, mas pelas milhões de vidas que viriam a ser destruídas por uma guerra perfeitamente evitável e que só ocorreu pela falta de caráter de um dos governos mais moralmente corrompidos da história recente do planeta. E a prova desta falta de integridade vem nos letreiros finais do longa, que revelam as ações revoltantes de Bush para proteger seus capangas e que traíam frontalmente a confiança de seus já mais do que abalados eleitores.

18 de Março de 2011

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Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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