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Críticas por Pablo Villaça

Datas de Estreia: Nota:
Brasil Exterior Crítico Usuários
30/06/1951 30/06/1951 3 / 5 / 5
Distribuidora

Pacto Sinistro
Strangers on a Train

Dirigido por Alfred Hitchcock. Com : Farley Grange, Robert Walker, Ruth Roman, Leo G. Carroll, Patricia Hitchcock, Marion Lorne, Robert Gist, Laura Elliot.

Certas coisas são extremamente difíceis de se dizer, principalmente quando estamos falando de unanimidades. No entanto, o que torna um crítico diferente de outro é justamente a variedade de opiniões e a forma com que o indivíduo é afetado por determinados filmes. Pacto Sinistro é um clássico, sendo por muitos considerado um dos melhores filmes de Hitchcock. Infelizmente, o filme não funcionou comigo.

Não que haja alguma coisa errada com o filme: a história é muito boa e potencialmente tensa. Guy Haines (Grange) é um tenista famoso que, por acaso, acaba conhecendo Bruno Anthony (Walker) em um trem. Depois de algum tempo de conversa, Bruno acaba fazendo uma proposta assustadora a Guy: ele mataria a esposa do tenista, que não quer conceder-lhe o divórcio, enquanto Haines assassinaria seu pai, um velho aborrecido que insiste em lhe dificultar a vida. `Trocando` de crimes, eles evitariam as suspeitas da polícia. Julgando tratar-se de um louco, Guy não presta a devida atenção a Bruno, que, no entanto, mata a esposa do outro. Agora, o tenista deve provar sua inocência ao mesmo tempo em que enfrenta a insistência do assassino para que cumpra `sua parte` no acordo.

O filme tem um começo extremamente interessante: somos logo apresentados aos dois personagens principais, à proposta de Bruno e ao assassinato. O conflito se estabelece quase que de imediato e, a partir daí, acompanhamos o drama de Guy frente aos acontecimentos.

Talvez este seja um dos motivos pelos quais Pacto Sinistro acabou me cansando. O desenvolvimento do filme acontece de uma maneira lenta demais para os padrões de Hitchcock. É claro que o diretor nunca marcou sua obra por uma narrativa frenética. Um Corpo Que Cai (meu favorito) mescla cenas de `ação` com outras de puro suspense psicológico e, no entanto, a história é contada de maneira envolvente. Em alguns pontos de Pacto Sinistro, contudo, senti-me frustrado ao perceber que o que eu estava vendo não ia levar a lugar algum. A festa na casa do Senador, por exemplo, tem como único objetivo proporcionar à personagem de Ruth Roman uma oportunidade para descortinar a verdadeira relação entre Guy e Bruno, um fato importante para a história, claro. No entanto, a forma com que isso é feito (Bruno entra em uma espécie de `transe` ao ver Barbara Morton e quase estrangula uma mulher com quem conversava amigavelmente) é infeliz e forçada. Hitchcock era normalmente mais sutil.

Além disso, Farley Granger tem uma atuação fraquíssima neste filme. Seu olhar inexpressivo compromete bastante a história, já que ele é o protagonista, o herói. É por ele que temos de torcer, é sua vida que está em jogo. Não consigo deixar de pensar que James Stewart teria feito um trabalho excepcionalmente melhor em seu lugar. Granger, aliás, acabou provando ao longo de sua carreira que não passou de uma promessa, um galã sem expressão (apesar de que, justiça seja feita, apreciei seu trabalho em Festim Diabólico).

No entanto, a brilhante interpretação de Robert Walker compensa um pouco a falha de Granger. Walker, com seus olhares irônicos e debochados - e, ao mesmo tempo, ameaçadores - nos proporciona os melhores momentos do filme, como aquele em que diz para Guy: `Não se preocupe, não vou atirar em você. Poderia incomodar minha mãe.` É uma pena que Walker tenha falecido apenas um ano depois do lançamento deste filme, com 32 anos de idade. O ator poderia ter se tornado um astro maior do que Robert Mitchum - outro que era capaz de construir personagens absolutamente perturbados.

Ruth Roman, que interpreta o interesse amoroso do herói, também tem bons momentos em Pacto Sinistro, além de estar muito bonita. Além disso, a fotografia de Robert Burks é excelente (tendo sido indicada ao Oscar, inclusive), bem como a montagem de William H. Ziegler.

O clímax do filme é, também, extremamente inspirado. Uma das maiores virtudes de Hitchcock sempre foi conseguir extrair suspense a partir de coisas completamente inofensivas. Foi assim com o telefone de Disque M Para Matar, cujo toque nos levava a recear o destino de Grace Kelly; com os pássaros que atacavam Tippi Hedren em Os Pássaros; e, aqui, com o carrossel no qual se enfrentam os dois inimigos. Detalhe: a seqüência na qual um homem atravessa por baixo do carrossel foi realizada sem nenhum tipo de trucagem, e o próprio Hitchcock afirmava que foi uma das tomadas mais perigosas que já filmou.

É uma pena. Sinto que, se não fossem pequenos detalhes, este poderia ter se tornado meu Hitchcock favorito, vencendo Um Corpo Que Cai. Alguns minutos a menos, alguns cortes decisivos e James Stewart e este filme poderia ter me envolvido muito mais. Da forma como ficou é, para mim, apenas mais um bom suspense.

21 de Junho de 1998

Pablo Villaça, 18 de setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Trabalha analisando filmes desde 1994 e colaborou em periódicos nacionais como MovieStar, Sci-Fi News, Sci-Fi Cinema, Replicante e SET. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

 

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