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Ninguém é Perfeito (I)

★★★★☆4/5 estrelas
12 min

Dirigido por Niko von Glasow.

 

Responsável por milhares de fetos abortados em todo o mundo e outros tantos milhares de bebês nascidos com graves más formações congênitas, a talidomida foi comercializada durante muito tempo como princípio ativo de uma série de medicamentos que visavam combater a ansiedade – e hoje já se sabe que, bem antes de retirá-lo das prateleiras, o laboratório responsável por sua fabricação já conhecia seus efeitos teratogênicos, o que caracteriza um crime digno de ser julgado por tribunais internacionais (a realidade, porém, é que ninguém foi condenado por isto).

 

Uma das vítimas da talidomida é o cineasta alemão Niko von Glasow que, depois de 18 anos de carreira, finalmente decidiu realizar um documentário sobre as conseqüências de uma vida marcada pela deformidade que o impede, por exemplo, de ter a coragem de nadar com o filho em público, já que teme o escrutínio impiedoso das demais pessoas. Assim, von Glasow emprega este Ninguém é Perfeito como uma forma de terapia (ver também Valsa com Bashir) e, para isto, reúne outras 11 “talidomidas” (como os integrantes desta singular comunidade costumam se chamar) a fim de fotografá-las nuas para um calendário que tem o objetivo de demonstrar aquilo que deveria ser óbvio: braços e/ou pernas mal formados ou não, não há nada que diferencie as vítimas do medicamento das demais pessoas, a não ser o preconceito e a aversão que sofrem continuamente.

 

É curioso observar, por exemplo, como praticamente todos os participantes do projeto demonstram uma insegurança comum ao posarem nus – mas esta não se deve, como muitos poderiam imaginar, à exposição dos membros problemáticos e sim aos problemas tão comuns a todos nós: uma barriga flácida aqui, uma gordurinha fora de lugar ali, e assim por diante. Fascinante, também, é notar como cada um daqueles indivíduos processou de maneira particular suas dores e os traumas causados pela deficiência física, sendo que um deles chega a manifestar alívio por saber a causa de seus problemas (a talidomida), o que o livra de questionar os “desígnios divinos”. Da mesma forma, não é apenas porque têm problemas físicos que estas pessoas se enxergam como merecedoras de compaixão – e, assim, chegam a ressentir a proposta de que o calendário seja produzido como atividade beneficente (quando questionado sobre que “causa” o calendário deveria beneficiar, um dos fotografados responde: “Os doze participantes!”).

 

Profundamente tocante ao trazer também imagens de arquivos que revelam algumas daquelas pessoas ainda na infância, sorrindo com a alegria característica de uma criança que não enxerga, em si mesma, as limitações que os demais parecem lhe atribuir, Ninguém é Perfeito ainda conta com seus momentos Roger & Eu ao retratar os esforços do diretor em contatar a família que controla o laboratório responsável pela comercialização da talidomida – mas isto representa, infelizmente, um dos poucos pontos fracos do projeto.

 

É sintomático, portanto, que Ninguém é Perfeito tenha provocado (ao menos na sessão na qual eu me encontrava) a maior evasão de espectadores que testemunhei nesta edição da Mostra – e percebam que estive em sessões dos insuportáveis Varsóvia Sombria, Julgamento e Soul Carriage, que também tiveram uma parcela razoável de abandonos. Igualmente curioso é que todas as pessoas que saíram da sala o fizeram durante a primeira meia hora de projeção, quando, nos demais filmes citados acima, isto ocorria a partir da primeira hora.

 

Ora, Ninguém é Perfeito não é entediante em momento algum e, depois de ultrapassada a meia hora inicial, ninguém mais deixou a sala. Portanto, o que pode ter acontecido? A resposta, temo, é um reflexo das constatações do próprio Niko von Glasow ao entrevistar alguns indivíduos depois que estes viram as fotos do calendário: repulsa à deformidade. Assim, estes espectadores que saíram da sessão de Ninguém é Perfeito parecem não ter conseguido se interessar na história daqueles personagens, detendo-se, em vez disso, em seus corpos defeituosos.

 

E isto, infelizmente, impediu que constatassem o mais importante: que não havia nada de defeituoso nas mentes e corações daquelas pessoas. 

27 de Outubro de 2008

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Pablo Villaça
Avaliação do CríticoPablo Villaça
4.0
★★★★☆

Documentário que procura mostrar a percepção sobre a talidomida, tanto das vítimas dos efeitos desta, quanto do diretor e do público. Talidomida é uma substância geralmente usada como medicamento sedativo, anti-inflamatório e hipnótico. No final dos anos 50 foi prescrito a mulheres grávidas para diminuir os enjôos matinais. Porém, no começo dos anos 60,os bebês dessas mulheres passaram a nascer com uma anomalia que impede a formação normal de braços e pernas. Para chegar ao objetivo final, o diretor Niko von Glasow pede para que vítimas dos efeitos da talidomida posem nus para uma exposição de fotografias gigantes.

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